Categoria de Base: Qual o melhor modelo?

Não é de hoje que todos sabemos que o futebol brasileiro não pode se comparar ao europeu em termos financeiros e de visibilidade. Outrora com destino a Europa, hoje vemos centros secundários como China e Índia ganhando força. Com isso, é recorrente ouvir que a solução está na produção caseira.

Revelar jogadores parece consenso entre todos que acompanham o futebol:

– maior chance de criar identificação com o clube;

– custo mais baixo se comparado a grandes contratações;

– possibilidade de retorno técnico e financeiro;

Como não concordar com isso? O que queremos discutir aqui é COMO atingir este objetivo de forma consistente e que torne o clube atraente para novos talentos?

Qual deve ser o foco das categorias de base? Vencer todos os títulos que disputar? Disputar campeonatos internacionais para expandir o alcance da marca? Focar em desenvolver o atleta para se encaixar na filosofia do time profissional?

São todas opções viáveis e que vemos com frequência no Brasil. Mas será que devemos mesclá-las ou será que é importante definir um foco e trabalhar em cima dele?

Títulos:

Olhando para o futebol nacional, quais são os times que mais ganham títulos na base? E qual o reflexo que enxergamos para o time profissional?

O principal torneio das categorias inferiores é a Copa SP de Juniores. De 2000 para cá, temos o seguinte cenário:

5 títulos: Corinthians;

2 títulos: São Paulo, Flamengo e Santos;

1 título: Roma Barueri, Portuguesa, Santo André, América-SP, Cruzeiro, Figueirense.

Domínio claro de clubes paulistas, em especial do Corinthians.

Vamos dar uma olhada nos últimos 3 títulos do Corinthians (2009, 2012 e 2015), nos 2 títulos do Flamengo (2011 e 2016), nos 2 títulos do Santos (2013 e 2014) e no título do SP (2010). Quantos jogadores destes times campeões foram aproveitados pelos elencos de cima? Quantos tiveram destaque? Qual trouxe retorno técnico e financeiro? Vamos pela ordem cronológica.

Corinthians – 2009

Time Base: André Dias; Rafael Almeida, Nando, Guilherme e Bruno Bertucci; Douglas, Marcelinho, Sasha e Fernando Henrique; Boquita e Jadson

Os destaques do time eram Bruno Bertucci, Lucas Sasha, Fernando Henrique e Boquita. Lembrou? Grandes chances de a resposta ser um sonoro não caso vocês não sejam torcedores do clube.

 

São Paulo – 2010

Time Base:  Richard, Lucas, Fabiano, Bruno Uvini e Felipe; Casemiro, Zé Vitor, Jeferson e Marcelinho; Ronieli e Lucas Gaúcho.

De cara podemos destacar o Lucas (Marcelinho) e o Casemiro. O 1º teve bastante destaque no clube, foi importante na Sul-Americana de 2012 e acabou vendido ao PSG. Casemiro não conseguiu repetir o mesmo sucesso do companheiro, mas hoje ressurge bem no Real Madrid e com convocações para a Seleção.

Bruno Uvini e Lucas Gaúcho tiveram algumas oportunidades também. Bruno chegou a ser convocado e acabou vendido para o Napoli, rendendo algum dinheiro ao SP.

Portanto podemos dizer, ao menos nesse caso, que o SP teve algum retorno financeiro e técnico com esta geração.

Flamengo – 2011

Time Base: Cesar; Alex, Marllon, Frauches e Anderson; Muralha, Negueba, Lorran e Adryan (João Pedro); Rafinha (China) e Lucas (Thomas).

Alguns possuíam grande expectativa: Adryan e Thomas.

Outros chegaram a ter muitas oportunidades: Muralha, Negueba.

Nenhum deles chegou a se destacar pelos profissionais do Fla. Pouco retorno técnico, pouco retorno financeiro.

Corinthians – 2012

Time Base: Matheus (Ravi); Cristiano (Leandro), Antônio Carlos, Marquinhos e Denner; Gomes e Anderson; Giovanni (Wesley), Matheuzinho e Leonardo;

O time possui um grande destaque: Marquinhos, atual zagueiro titular do PSG. Já em 2013 não retornou ao Corinthians, que recebeu cerca de R$ 8 milhões por 50% do zagueiro em negociação com a Roma. Ficou apenas alguns meses na Itália e logo se transferiu para a França.

Santos – 2013

Time Base: Gabriel Gasparotto; Alison, Walace, Jubal e Emerson; Lucas Otávio, Leandrinho, Pedro Castro e Léo Cittadini; Neilton e Giva.

Neilton saiu do Santos, foi para o Cruzeiro e atualmente joga pelo Botafogo. Era grande promessa e não rendeu o que se esperava.

Leo Cittadini chegou a ser emprestado para a Ponte e retornou ao Santos. Cogitou-se uma venda, mas ficou a pedido de Dorival.

Giva chegou com pompa ao Llagostera, da segunda divisão espanhola, mas em 6 meses acabou não agradando. Foram apenas 2 gols em 14 jogos. No começo do ano fechou contrato com o Água Santa.

Santos -2014

Time Base: João Paulo; Daniel Guedes, Paulo Ricardo, Naílson e Zé Carlos; Lucas Otávio, Fernando Medeiros, Serginho e Jorge Eduardo; Diego Cardoso e Stéfano Yuri.

Mais uma geração que não rendeu muitos frutos no time principal.

Lucas Otávio tenta uma segunda passagem pelo Paraná. Stefano Yuri foi envolvido em negociação com o Botafogo-SP para facilitar a permanência de Vitor Bueno no Peixe. Diego Cardoso mal chegou a jogar e foi emprestado ao Bragantino e, posteriormente, ao Vila Nova.

Considero que os campeões de 2015 pelo Corinthians e 2016 pelo Flamengo ainda precisem de mais algum tempo para formarmos uma opinião mais segura.

Aí vem a pergunta: os técnicos de base estão mais preocupados em ganhar títulos ou em formar jogadores? Já vimos que apenas títulos não são garantia de sucesso. O Corinthians ganhou 3 vezes a Copinha e pouco aproveitou destes jogadores.

Aproveito e deixo outra pergunta: Será que jogadores de base precisam chegar ao profissional acostumados com decisões? Será que a experiência de disputar finais desde cedo pode ser determinante na carreira do atleta?

Segue, abaixo, uma tabela sobre os títulos estaduais pós 2000 nas categorias sub-17 e sub-20.

Títulos Estaduais da base

Títulos Estaduais da base

São Paulo, Rio Grande do Sul e Minas Gerais apresentam um cenário mais equilibrado. A vantagem dos clubes mais vitoriosos não chega a configurar uma polarização, ao contrário do Rio de Janeiro onde a dupla Fla-Flu conquistou 23 dos 30 torneios em questão.

Obs: Foram contabilizados apenas os títulos dos clubes acima, por isso as quantidades são diferentes. O Estado de SP, por exemplo, teve 11 dos 32 vencidos por equipes de menor investimento.

A partir de 2012 ainda passamos a ter a Copa do Brasil para usar como parâmetro:

Títulos - Copa do Brasil

Títulos – Copa do Brasil

Como a competição é recente, fica difícil analisar alguma tendência. O mesmo vale para o Brasileiro sub-20, que teve apenas uma edição, vencida pelo Fluminense em 2015.

Cases de Sucesso Brasil:

Quando falamos em categorias de base forte no brasil, 3 clubes me vem a cabeça (ao menos em análise superficial): Santos, Fluminense e Internacional.

Que tal darmos uma olhada nas grandes revelações destes times nos últimos anos?

Vamos começar com o Santos. São 2 grandes gerações: A de Diego e Robinho que começou no título brasileiro de 2002 e a de Ganso e Neymar mais recentemente.

Com essas gerações no profissional o clube obteve o retorno técnico e financeiro.

– 2 Brasileiros (2002 e 2004);

– 1 Libertadores (2011);

– 1 Recopa Sul-Americana (2012);

– 1 Copa do Brasil (2010);

Isso sem contar alguns títulos paulistas pelo meio do caminho.

Podemos discutir se 3 dos 4 nomes citados alcançaram o potencial que se esperava ou não, mas o fato é que para o Santos eles foram fundamentais dentro e fora de campo.

Robinho saiu do Brasil com a esperança de ser o que Neymar é. Diego e Ganso eram as esperanças que o país tinha para vestir a camisa 10 da seleção ao lado de seus parceiros de clube.

Neymar chegou ao topo e hoje é, sem dúvidas, um dos principais jogadores do mundo. Os outros nem tanto, rodaram muitos clubes e, até, nem saíram do Brasil (caso de Ganso).

Robinho foi vendido por cerca de U$ 50 milhões de dólares ao Real Madrid, Diego rendeu 7 milhões de euros na transferência para o Porto. Protagonista de uma venda conturbada, especula-se que Neymar tenha custado 60 milhões de euros ao Barça. As cifras envolvendo Ganso são mais modestas, já que o jogador permaneceu no cenário nacional: R$ 29 milhões.

A conclusão é simples. O Santos fez o trabalho como manda o manual e viu os frutos disso em pouco tempo. Repetiu cerca de 10 anos depois e, novamente, mais resultados.

Hora de passar ao tricolor carioca. Vamos ver o que a base do Flu ofereceu nos últimos anos.

Os títulos recentes do clube são:

– 1 Copa do Brasil (2007);

– 2 Brasileiros  (2010 e 2012);

Além disso tem 2 cariocas e os vices da Libertadores e da Sul-Americana.

Os principais nomes do título da Copa do Brasil foram: Thiago Neves, Adriano Magrão e Thiago Silva. O autor do gol do título foi Roger Machado, atual técnico gremista.

Com relação ao Brasileiro de 2010 Conca foi o grande nome, com ajuda de jogadores como Fred, Washington, Sheik, Mariano entre outros…

Em 2012 os pilares foram Fred e Cavalieri. Podemos colocar como um dos destaques o jovem Wellington Nem e Thiago Neves novamente.

O que podemos perceber de diferença para o Santos? Apesar de conquistas importantes, o clube paulista teve como destaques as suas revelações. Enquanto no Flu, exceto por Nem (e Thiago Silva se contarmos que passou pela base do clube) os principais jogadores foram trazidos de fora.

Maior revelação do clube no período, não há como negar que o lateral esquerdo Marcelo seja um jogador de classe mundial. Titular do Real Madrid por cerca de 10 anos, é um jogador que chama atenção.

Após ele, temos alguns nomes como:

– Wellington Nem, atualmente no Shaktar, vendido por R$ 25 milhões;

– Maicon Bolt, atualmente no Lokomotiv, vendido por R$ 10 milhões;

– Alan, atualmente no Evergrande, vendido por 3,5 milhões de euros;

– Kennedy, atualmente no Chelsea, vendido por R$ 31 milhões;

– Gerson, negociado com a Roma, vendido por R$ 60 milhões;

– Gustavo Scarpa, continua no clube.

Infelizmente jogadores que tiveram pouquíssimo tempo para dar retorno técnico e foram vendidos as pressas, por quantias que poderiam ser maximizadas em caso de maior sucesso dentro de campo.

Inegável que Gerson e Kennedy trouxeram muito dinheiro ao clube com suas vendas, mas não ganharam 1 título sequer. A exceção foi Gerson que retornou ao clube e ganhou a Primeira Liga.

E o Flu é considerado uma das potências de base, detentor de inúmeros títulos. Ao olhar os profissionais, não tem como comparar com os grandes resultados obtidos pelo Santos.

E o Internacional?

Alisson, Sandro, Fred, Taison, Nilmar, Pato, Sóbis, Giuliano, Damião entre outros formam uma bela lista de revelações do clube.

– 2 Libertadores (2006 e 2010);

– Mundial de Clubes (2006);

– 1 Sul-Americana (2008);

Mesmo que não tenha comemorado conquistas nacionais, acredito que nenhum colorado reclame deste período vitorioso da sua história.

Sóbis rendeu R$ 24 milhões, Sandro mais R$ 24 milhões, Giuliano R$ 23 milhões, Pato R$ 49 milhões. Fora as 2 vendas do Nilmar que ultrapassam R$ 50 milhões e a de Damião por R$ 41 milhões.

Títulos? Sim.

Com destaque da base? Sóbis fez 2 gols na final da Libertadores de 2006, mais 1 na final de 2010. Giuliano foi eleito o melhor jogador da Libertadores de 2010.

Retorno Financeiro? Sim.

Vale lembrar que o Inter não conquistou nenhuma Copinha no período em que avaliamos.

Conclusão

De posse dessas informações, como você planejaria a sua categoria de base?

Buscaria técnicos com perfil vencedor? Tentaria conquistar todos os títulos?

Buscaria jogadores em estágio avançado de desenvolvimento fisiológico que os fizesse ter vantagem física sobre os outros? Ou apostaria naqueles jogadores que só darão resultado no longo prazo?

Acha que a base deve respeitar a filosofia tática do técnico do time profissional?

Acredito que não exista uma resposta definitiva, mas vale uma reflexão.

Comments

  1. Antônio Ramos

    Bom mesmo!

    Fui jogador de base e, pra mim, base é lugar fundamentalmente de formação técnica, desenvolvimento de fundamentos, pelo menos até o sub 20.

    Pra mim, a direção da base ser formação de jogador em vez de time é cláusula pétrea. Evidentemente, num time de melhor qualidade média, jogadores com potencial se desenvolvem e aprendem mais rápido. Nitidamente, hoje, por uma questão de exposição e mercado, principalmente dos formadores (comissões técnicas) é nítido que títulos geram mais visibilidade e capacidade de geração de receitas que retornem o investimento. Vejo o Fluminense muito inserido neste contexto atualmente. Produz muito com qualidade intermediária. De qualquer forma, poderia ganhar mais com isso porque nitidamente vende mal, o que pode acontecer por falta de competência ou pelas condicionantes internas (empresários etc.)

    É totalmente diferente ser técnico de base e técnico de profissional. Então creio que para estas atividades falamos de perfis diferentes. Pra mim, técnico de base tem que saber, antes de qualquer coisa, ensinar fundamento, coisa que no profissional não vai rolar. Neste perfil, técnico vencedor não é aquele que ganha mais títulos na base e sim o que faz com que os jogadores que ele forma valham mais pela sua condição técnica.

    Jogador só aprende a jogar no profissional. Fato ! E este processo não é rápido. Entretanto, acho questionável esta coisa de esperar pra dar certo. Não há este espaço todo. O Scarpa, embora esteja sendo supervalorizado no momento, só virou jogador depois de subir, entrar mal no profissional e ser emprestado pra desenvolver em times médios / pequenos que se prestam a isso. O mesmo aconteceu com o Nem. O Fluminense, como a imensa maioria dos times brasileiros, não têm times com espinha dorsal e qualidade para formar o resto dos jogadores no profissional. Até que nesse ponto ficamos bastante tempo com a maior parte dos jogadores e poderíamos ter lançado melhor, mas isso não é normal usual. E, se joga mal, em clube grande, não dá pra seguir jogando … empresta pra desenvolver em outro lugar.

    Filosofia tática , depende menos da individualidade e mais do conjunto. Vai desenvolver rápido, num time mais maduro. Acho que deve ser enfatizada somente na última fase da base. Quanto mais tática se treina, menos se treina fundamento. Ainda somos um futebol que vive de fundamento técnico e só deixamos de ser vencedores por que pioramos nisso enquanto lá fora se investiu muito mais nisso. Tecnologicamente fazer o jogador ser excelente fisicamente sem que isto comprometa os seus fundamentos.

    Anyway, por mais que o futebol europeu tenha evoluído, o diferencial dos grandes times ainda são, em grande parte, os jogadores sulamericanos com técnica apurada.

    Dedé não vai concordar com nem metade disso, mas vale a reflexão … rs

    Abs e ST