Nada era maior!

– Marlene, vou levar o Blaussas …

Levi tinha 10 anos, a cara da Mãe e era apegadíssimo a ela, vascaína e atleta do clube na adolescência de São Cristóvão. Era inverno, algo que no Rio representa nada além de um nome diferente pra uma época do ano, mas o dia estava chuvoso, no dia seguinte tinha natação com o Max, 06:50 da matina, o Vasco não ia jogar, a relação com a bola era mais com a mão do que com o pé, mais com a cesta do que com a rede. Preferiu ficar com a mãe.

– Meu filho, sossega o periquito em casa, tá chovendo, você vai é arrumar uma gripe pros dois. Aquilo lá é um tumulto, uma correria, se ainda fosse domingo … Amanhã Levi tem natação cedo. A que horas vocês vão chegar de volta? Mais de meia noite!

– Há um tempão que ele está me pedindo. Hoje não vai ser tumultuado, não. Tá chovendo. Acho que vamos de taxi.

– É caro !!

Ele sabia que era, eu sabia que era. Tinha 6 anos, mas já entendia o que podia e o que não podia e ficava preocupado. Taxi fazia parte do que não podia.

– Só desta vez, tá chovendo … Filho, vai botar um sapato que tá na hora da gente ir.

E fomos. Tinha ouvido no rádio durante o dia que o jogo era as 21:00, mas tinha apenas acabado de escurecer, umas 18:30/19:00 no tal inverno carioca. Na saída de casa, a primeira surpresa:

– Blaussas, vamos de ônibus, mesmo. Tá cedo. Mas não fala pra tua mãe …

E nos encaminhamos pelas marquises da Silveira Martins para a Rua do Catete, pra pegar o 434 (somewhere – anywhere, via Maracanã) no ponto em frente ao Palácio e do lado da minha escola (Rodrigues Alves). No ponto, ainda vazio, algumas camisas rubro-negras em seres hipnotizados por rádios aos berros, sem os respectivos egoístas (precursores dos headphones e com um nome muito mais apropriado). Estava cheio. Fomos em pé.

Já tinha entrado nos 434 em dias de jogo antes, mas sempre de manhã e sempre saltávamos antes do Maracanã. Ao chegar perto daquele clarão gigantesco iluminando o céu e dum tumulto um tanto quanto assustador, apertei a mão de Raimundo. Meu mundo estava se expandindo.

Raimundo não conheceu o seu pai, mas nasceu pra ser um. Tinha 1.68m, que ele insistia que era 1.71, mas com os filhos ao lado era um gigante onipotente. Não gostava de ir ao Maracanã com camisa. Achava perigoso. Embora isto fosse lá uma verdade, já burro velho entendi que esta era uma saída elegante pra justificar não comprarmos nenhuma. Não era artigo de primeira necessidade e o dinheiro pra um escriturário público e uma professora primária era curto e difícil de ganhar.

E lá era um mar de camisas, bandeiras, cores, gente rindo, gente gritando … sim, ainda estávamos do lado de fora. Muita gente aglomerada em uma parede cheia de buracos medidos. Fomos pra lá. Quando meu pai puxou o dinheiro entendi que era alí que pagávamos pra entrar. Quanto mais perto chegávamos daquela imensidão toda o volume do som aumentava e meu batimento acelerava 10 pontos na média. Na centésima vez que perguntei se já estávamos perto, Raimundo me explicou pela centésima vez, com paciência que já causaria inveja mortal em Jó, que no final sairíamos mais perto do ponto do Ônibus e, por isso, tínhamos que dar a volta, mas a volta era muito grande, não acabava. Não existia no mundo lugar maior que aquele.

E chegou o portão de ferro, as catracas e uma ladeira que conduzia a algo misterioso, escondido. Ao passar pelo portão, as pessoas mudavam de humor, ficavam eufóricas, gritavam, se abraçavam, como se tivessem cumprido mais um passo de um ritual de libertação. Naquele momento, todos eram felizes, todos os problemas tinham solução, todas as dores eram passageiras.

Uma quantidade de informação absurda já ia me deixando numa espécie de transe. Pessoas iam para um lado e para outro no final da rampa, deu pra entender na hora que as torcidas, de alguma forma que eu desconhecia, sabiam pra onde ir. Barraquinhas Geneal, mate, limão e laranjada em cone de papel, cigarros Continental e mais uma rampa que, vendo de baixo, descortinava os refletores que eu via lá de longe.

– Pai, é por aqui?

Era. Posso dizer que foi uma das emoções mais marcantes que eu senti na minha vida a subida daquela rampa. Eu tremia e não conseguia falar. Tinha vontade de chorar e não conseguia também. Tudo aquilo que simplesmente surgia na minha frente era muito maior e muito mais bonito do que tudo que eu já tinha visto na minha vida.

De alguma forma, até por ter passado por isso também em algum momento, Raimundo, que veio já adulto de Belém do Pará, nos levou para o último degrau de arquibancada, em silêncio. Ficamos lá sentados, esperando o que viria. Eu não falava, ele também não. Olhava pra ele e ele sempre estava me observando. Eu dava um sorriso arregalado e agradecido e ele me passava a mão na cabeça.

E a coisa só enchia, a chuva aumentava, o barulho era enorme e, mesmo sem rádio, ouvíamos nitidamente as vinhetas da Globo, da Tupi e da Nacional, com sinal limpo alimentado pelas antenas do Sumaré.

Juízes, sempre eles, rejeitados pelo respeitável público. Festival de palavrões divertidíssimo! Raimundo era um cara que pra dizer um palavrão tinha que estar em nível de stress ou dor próximos da morte, mas Marlene era uma portuguesa deliciosamente desbocada no seu dia a dia, fora de sala de aula. Palavrões, mesmo proibidos nos meios de comunicação, exceto em filmes de pornochanchada nacional, aprendíamos em casa, assim como os seus limites e riscos inerentes.

E então chegou a hora do perfume … um cheiro gostoso de talco de atacado do Mercadão de Madureira e os caras jogando pacote pra cima e a gente ficando naturalmente esbranquiçado … a tensão aumentou e os times entraram. Não conseguia ver nem campo e nem nada do outro lado, quando o pó começou a se dissipar, comecei a enxergar os jogadores em campo. Como era diferente da televisão, como os caras eram pequenos em relação ao campo.

Quando o jogo começou, entendi a diferença entre ver um jogo na TV e explicitamente ver um jogo. As atitudes eram mais intensas, as pessoas eram mais radicais, era um novo passo de um ritual quase de exorcização. Em compensação, não ouvia e nem sabia quem fazia o quê. Isto cooperava para começar a enxergar uma coisa coletiva, com traços matemáticos. Tinha gente que ficava tão longe da bola … tão diferente do futebol de chapinha no colégio, onde todo mundo está sempre no mesmo lugar. Aquilo me deixou simplesmente em estado de graça. Eu tinha que entender e fazer aquilo.

Quando fizemos o primeiro gol, a reação, embora explosiva e eufórica ao extremo, já veio com naturalidade, sem parecer algo assim tão novo. Diante de tudo que tinha vivido, era previsível.

Acabou o primeiro tempo e ganhávamos por 2 x 0. Raimundo indicava para o amigo ocasional ao lado que já tinha acabado e que eles teriam que fazer 3. Tinham gasto tudo no ano passado.

Quando tomamos o primeiro, outra surpresa enebriante: o barulho vindo do outro lado. Raimundo percebeu minha admiração àquilo e ficou calado. Mandou um “puta que pariu” inevitável, do fundo do coração. Envergonhado, gargalhou e passou a mão na minha cabeça, que me diverti profundamente com a situação inusitada.

Mas veio o empate … e o barulho que já era grande do outro lado ficou potencializado ao quadrado, me deixando ainda mais hipnotizado.

– Este desgraçado, miserável não joga nada, mas tá sempre onde vai a bola que sobra. Porra! De novo, não!

Senti que era séria a preocupação dele. Não sei se era a intenção, mas se ele alí quis associar este empate a uma coisa ruim, conseguiu. Parei de olhar pro outro lado e, neste momento, pela primeira vez, pra valer, me tornei torcedor.

Os caras vieram fortes pra cima, não passávamos do meio de campo, mas … o campo é grande e tem contra ataque … Manfrini recebeu uma bola no meio de campo, no meio da linha de zaga, driblou o goleiro que saiu na intermediária e chutou de lá, devagarinho, no campo encharcado de lama.

– ENTRA ! ENTRA !

Deve ter passado uns 25 minutos de vida entre o chute e a bola chegar ao gol, mas entrou … e ái eu entendi que aquele sentimento era final e não tinha mais volta. Pulávamos como condenados limpando a alma em esteiras de brasa. As pessoas corriam para qualquer lado, algumas corriam para as marquises e voltavam com carrancas de choro. Outras riam e xingavam a torcida do outro lado, a cerca de 100m, outros cuspiam na geral, outros mijavam em copinhos de mate e lançavam (aliás, faziam isso o tempo todo …).

Quando fizemos o quarto gol, meu pai já tinha dado como terminado alguns minutos antes e começamos a descer pra saída, pra tentar não pegar o ônibus muito cheio e chegar em casa mais rápido. Só que ao ouvir o grito de gol e ninguém pra dizer de quem, não houve alternativa se não voltar pra saber. E aí, já que voltamos, vimos volta olímpica e entrega da taça. Euforia, abraços, jogadores e torcedores pagando promessa no gramado.

O 434 fez seu trajeto de retorno, num Rio de Janeiro mais pobre, talvez, mas muito mais agradável, inocente e feliz. Alguns cantavam, outros aturavam as letras sempre bem grosseiras e divertidas, pelo menos pra mim. De vez em quando um ficava mais irritado e tinha que ser contido e pacificado.

Não me lembro se dormi ou não, mas sonhei com aquele dia durante toda a minha vida. Era o dia 22/08/1973 e foi meu primeiro Fla x Flu e minha primeira ida ao Maracanã. Nada poderia ser maior. O Max dava aula de natação no Fluminense, o desgraçado, miserável era o Dario, o Zico já jogava bola, e muita, mas tínhamos Félix, Toninho, Manfrini, Marco Antônio, Pintinho acabando de subir, Dionísio “Bode Atômico”, Lula. Um timaço espetacular que veio a ser a base da Máquina de 1975/1976.

No dia seguinte, sabia o que queria fazer, o que queria pedir e até pensava que sabia como fazer, o que depois descobri que não, óbvio, mas também entendi que eu poderia aprender e alguma coisa aprendi.

Do futebol de salão, andei um tempo no campo, parei, voltei em outras praias, me quebraram, tive que parar, voltei vendo mais de cima, tive que descer, mas nunca consegui ficar longe do futebol, nem que fosse por mera implicância.

Levi ainda está com Blaussas nesta viagem aqui por baixo. Marlene e Raimundo, lá de onde estão, me dirigem pelos sonhos, ensinamentos e lembranças, todos os dias.

Aquele dia, aquele Maracanã como era (hoje reduzido a menos de metade da capacidade), me fez entender um pouco pra onde andar dentro deste mundo. Evidente que a vida bifurca em caminhos diferentes, mas eu nunca pude dizer que não sabia exatamente de onde estava saindo e para onde estava indo.

Nunca contei pra minha mãe que não fomos de taxi e me sinto orgulhoso disso, mas sempre desconfiei que ela já estava cansada de saber.

——–

Espero que esta história aqui e tudo que vamos conversar daqui pra frente seja tão agradável para quem estiver lendo e comentando quanto vai ser pra mim, escrevendo, interagindo e aprendendo. Aqui pode até faltar razão, conhecimento, humor, mas não vai faltar coragem e alma. O Frank me falou uma coisa que me fez sentir em casa: “Nosso objetivo é juntar as pessoas no Futebolzinho para se sentirem felizes juntas”. Estamos precisando disso nesse nosso mundo e precisamos nos esforçar para conseguirmos.

Muito obrigado pelo convite: Frank e Andrés!

Abraços e, não poderia ser diferente depois disso tudo, minhas mais cordiais saudações tricolores para todos, de todas as torcidas, que serão sempre bem-vindos.

Ex-jogador, auxiliar técnico e instrutor de futebol, escrevendo sobre o tema há mais de 20 anos. Torcedor do Fluminense Football Club.

Comments

  1. Regina Carino

    Antônio, todos nós temos mtas maneiras de contar histórias.
    A sua me emocionou!
    Incrível como uma simples partida de futebol nos garante uma eternidade de boas e saudosas lembranças.
    Me vieram à cabeça mtas situações vividas com meu avô. Tricolor apaixonado!
    Parabéns pelo seu texto!

    Abraço, Antônio!