Futebol Estatal

Depois de um longo e tenebroso inverno trago pra vocês mais um assunto que é polêmico por natureza, até por estar assim meio que envolvido em ideológias e aspectos éticos. Seja o que Deus quiser, vamos a ele:

Consta que na próxima 3a feira, Fluminense e Botafogo vão, finalmente (pelo menos em relação as suas diretorias que têm batalhado por isso há muito tempo), assinar com a CEF o espaço master de suas camisas em troca de cerca de R$ 12 milhões anuais, mais manutenção de certidões positivas, mais um conjunto de regras a serem seguidas, enfim, algumas ditas contrapartidas públicas que entendo não ser o objeto a ser discutido. Com isso, estariam se juntando a outros clubes que já se beneficiam deste patrocínio há algum tempo. Segue abaixo segundo atualização de 04/2016 (http://g1.globo.com/economia/midia-e-marketing/noticia/2016/04/caixa-renova-contrato-de-patrocinio-ao-corinthians.html) com as verbas estimadas em milhões de reais anuais:

Corinthians – 30
Flamengo – 25
Cruzeiro – 12,5
Atlético-MG – 12,5
Vasco – 7,5 em patrocínio e 1,5 de bonificação por desempenho (??)
Atlético-PR – 6
Coritiba – 6
Sport – 6
Vitória – 6
Chapecoense – 4
Figueirense – 4
CRB – 1

E aí, meus caros, o “futebol estatal” (copyright Regina Carino), mantido com dinheiro público, do contribuinte, é ético, é aceitável com condições, não é aceitável e é uma fonte de corrupção ativa?

Vou tentar expôr o que penso sobre o assunto a partir dos diversos questionamentos e argumentos que venho ouvindo e lendo de amigos e mídias futebolísticas.

Mas inicialmente queria fixar um ponto, que embora pareça ideológico não é (não sou maluco e não rasgo dinheiro pra ficar discutindo ideologias de regime e gestão estatal em tempos como estamos vivendo), esclarecendo em relação ao o caso específico da CEF, que estamos falando de um banco estatal, com fins lucrativos, pelo menos eles são anunciados abertamente pelo governo (http://www.brasil.gov.br/economia-e-emprego/2016/03/lucro-da-caixa-em-2015-foi-de-r-7-2-bilhoes), que opera, tem produtos e disputa espaço no mercado financeiro, capta clientes, tem estrutura de gestão e verba (altíssima) para ações de marketing, assim como para todas as suas áreas meio e fim (se estas são capacitadas tecnicamente ou são loteadas entre bases políticas de apoio a situação, como vem acontecendo sistematicamente em Pindorama desde o início da sua existência não é a discussão também), mas que também vive de repasse de contribuição popular como base ou complemento orçamentário, até porque presta serviços exclusivos e “gratuitos” à população (também não cabe discutir se isto é verdade ou não) e serve ao governo como alicerce para diversas políticas governamentais de cunho público.

Pois bem, dito isto tudo, o que normalmente lemos e ouvimos:

– Futebol não retorna absolutamente nada para uma população que tem diversos problemas básicos e prioritários não resolvidos. Por isto, é injustificável que haja investimento de dinheiro público nele, que é um negócio de entretenimento, mantido por instituições privadas e cujo lucro é todo mantido na iniciativa privada, até porque estas instituições têm o privilégio que a esmagadora maioria dos cidadãos e empreendimentos não tem, de poder operar postergando indefinidamente e sem grandes restrições as suas contribuições ficando com dívidas eternas que, de uma forma ou de outra, acabam sempre incluídas num plano de anistia e, mesmo assim, continuam não sendo quitadas, o que para outros tipos de empreendimento e setores significa inevitavelmente falência.

Mais ou menos … acho que o futebol presta um serviço público de entretenimento e assim como todo esporte tem um lado de inclusão social e cultural importantíssimo. Faz parte da vida do brasileiro de forma preponderante. Por estes motivos, deve ser olhado com muita atenção por quaisquer governos e isto por si só já justificaria alguns investimentos. Entretanto concordo plenamente que não deve ser encarado de forma paternalista ou populista e que os privilégios que têm sido dados historicamente aos clubes e outras instituições que monopolizaram o futebol e sua organização, inclusive vivendo de concessões governamentais são totalmente descabidos. Vive-se uma situação de exceção legal e tributária no futebol brasileiro que é totalmente injusta com outros setores de iniciativa privada.

Entretanto, por outro lado, voltemos à CEF. Estamos falando de um banco com fins lucrativos que tem verbas de marketing para, entre outras finalidades, alavancar a sua exposição e consequentemente a sua participação no mercado. Ser estatal ou não, neste caso, não me parece um ponto preponderante. Também ninguém perguntou ao contribuinte se ele queria ter um banco com fins lucrativos sendo gerido com as suas contribuições e com capital social (lucro) e na verdade nunca nos preocupamos em questionar isso, né? Qual investimento não vai fazer algum tipo de segregação, não vai exigir alguma segmentação de mercado? Se investir dinheiro em clubes gera retorno, difícil abrir mão desta alternativa. Porque deveríamos perguntar ao contribuinte agora se ele acha isto correto ou não? O que o qualifica para dar esta resposta quando esta pode ser uma decisão meramente técnica, baseada em gestão? Vou investir x pra aumentar a minha participação de mercado em y para ganhar x + z. Desde que feito de acordo com a lei e cumprindo todos os seus aspectos tributários, não prejudicando as suas contrapartidas e serviços públicos, não consigo ver isto como um problema ou como uma atividade antiética.

– É um absurdo que eu, rubro-anil, veja o meu time receber pouco ou nada e os caras estarem colocando rios de dinheiro suado meu de contribuinte em negrialvos e multicolors, aumentando a disparidade financeira entre os clubes e “espanholizando” o futebol brasileiro. Ora bolas, e mais ainda, além de eu estar ajudando o meu rival, não consigo ver o que este investimento me retorna como contrapartida. Ninguém me perguntou se eu queria que fizessem isso com o meu dinheiro. Isto está me cheirando mesmo é a corrupção pra beneficiar os clubes A e B.

Pois é, mas aí cabem várias perguntas e delas podem sair várias respostas e delas mais várias outras perguntas. Vou resumir muito:

– Se seu time não recebe ou recebe menos, por que isto acontece?

Como contribuinte e “dono” da CEF, você tem todo direito de exigir transparência em relação a estes investimentos e seus respectivos retornos, inclusive de forma segmentada. Por exemplo: o que justifica o Corinthians receber mais do que o Atlético PR e quais os indicadores que demonstram este retorno lucrativo e proporcionalmente maior? Tem que demonstrar. Se não demonstra, tem merda.

Entretanto, pode acontecer uma coisa inusitada nesta análise e demonstração. Imagine o negociador da CEF te mandando essa:

– Como você pode ver, nossos indicadores demonstram que o retorno do Corinthians é duas vezes maior que o do Atlético PR. Entretanto, eles ganham 5 vezes mais porque têm mais poder de barganha, inclusive tinham outras alternativas para o espaço ocupado pela Caixa no seu uniforme. Negociaram valores mais altos conosco, mas ainda assim extremamente lucrativos para nós. Já os negociadores do Atlético PR aceitaram a nossa primeira oferta por que deveríamos oferecer mais?

Se fosse sua empresa você ofereceria? Note que não estamos falando de nada além de espaço na camisa e retorno de exposição. Nada de contrapartidas sociais. Espero que não. Como “dono” da CEF eu ficaria meio puto.

Esta desvalorização pode estar partindo do seu clube e pode acontecer, sim, ainda mais quando te oferecem um “adiantamentozinho” malandro que fecha o teu balanço positivo na hora que te interessa, né Peter Siemsen? Assim a Globo (privada, que é quase pública) vai mantendo há décadas as rédeas do futebol brasileiro e absorvendo todo o alto retorno que ele dá.

Agora, meus caros, como expus acima, se não tem indicador (verdadeiro, coerente e com números comprováveis) pra te mostrar como funciona o fluxo financeiro da coisa, o cheiro pode ser mesmo de merda. O risco existe e, em se tratando de futebol e coisa pública, não é pequeno. Você pode ter toda razão e dinheiro público estar sendo usado para privilegiar.

Em suma, pra finalizar a minha visão, tudo pode acontecer: corrupção, privilégios indevidos, falta de contrapartidas, falta de transparência etc. etc. etc., mas tratar o investimento público como algo diferenciado do privado não me parece o ponto aqui, mas sim a intenção e os objetivos de quem executa e quem negocia, que podem ser bons ou ruins, independentemente da origem.

O grande problema da coisa pública e das empresas públicas em si é que estas normalmente estão protegidas contra erros e desvios financeiros por aumento de impostos, revisões orçamentárias, estados de calamidade, todos definidos na base do tráfico de influência da classe política, mas isto não quer dizer que por conta disso as empresas públicas sejam diferentes das privadas a ponto de não poderem atuar da mesma forma. O problema a ser resolvido está na estrutura e no modus operandi e não na origem da grana.

Volto semana que vem, começando uma série sobre divisão de base no Brasil.

Abraços !

Ex-jogador, auxiliar técnico e instrutor de futebol, escrevendo sobre o tema há mais de 20 anos. Torcedor do Fluminense Football Club.

Comments

  1. Abigail Cavazos

    Grande ponto Antônio! Penso que existem muitos intere$$ados nestas negociações e contratos… Todo mundo leva um pouco do $ público, menos a gente que paga

  2. ROGERIO

    Caro Antonio,
    desculpe o atraso na postagem, mas andei um pouco ocupado e não conseguia andar por aqui no Futebolzinho, o que faço a partir desta semana e, pra minha enorme satisfação, estou lendo essa matéria sua que daria uma tese de mestrado excelente.
    Melhor: daria um bom livro de jornalismo investigativo que você, o Dedé e a turma toda pudesse colaborar e aprofundar porque é assunto de interesse público que a grande mídia não aborda e varre pra debaixo do tapete.
    Há anos atrás, quando o Flamengo exibia o LUBRAX na sua campeoníssima camisa na década de 80 eu já me perguntava e perguntava aos amigos flamenguistas por que só o Flamengo era abençoado com essa santa verba e a resposta deles era “visibilidade” e eu colocava: mas e o Corinthians(na época não tinha patrocínio estatal)? Eles respondiam: não sei.
    Ora, isso já é antigo, esse desvio para a publicidade com verbas maiores em clubes de massa, gerando o artifício ideológico caso haja o questionamento, ou seja, aceitemos a verba nos nossos clubes de coração e não levantemos dúvidas, apenas aceitemos e nos calamos quanto as intenções por trás de tudo isso.
    Esse tema merece um aprofundamento de pesquisa e análise e vamos descobrir muito mais coisas, mas não retirem do todo a análise ideológica, há muito que o futebol é utilizado de forma ideológica por governos, entidades organizadoras, patrocinadores, veículos de comunicação de massa para encobrir realidades que em muitos casos serão vistos pela maioria manipulada ou desinformada como “teoria da conspiração”.
    Parabéns pela abordagem, pela coragem, pela vontade e pela lucidez!!!
    Abraço!

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