A Péssima e Velha Política

Eleições no Rio de Janeiro !

Calma ! Não aquela porcaria de eleição pra prefeito, que não serve pra nada, mas eleição para Presidente do Fluminense. Esta sim, coberta de emoção e realmente importante no cenário nacional!

Bem, pessoal, prometi ao Lado Torcedor (LT) o primeiro parágrafo hoje. Tá aborrecido comigo (nenhuma novidade) pela coluna da Libertadores, dizendo que eu não entendo nada, que já estamos (o Fluminense) na Libertadores e eu fico botando pra baixo, enfim … mais uma vez disse que eu escrevo muito mal e outros impropérios …

Pois então, para apaziguar, deixei escrever o que pensa e sossegou. Sim, normalmente não pensa nada muito mais extenso do que três linhas. Típico de quem não gosta de escrever (nem ler e nem pensar). Mas admiro profundamente o amor envolvido. Como compartilhamos parte do mesmo senso, é possível que venha até a me orgulhar disto, mas jamais admitirei.

Mas vamos ao ponto:

A idéia não é falar sobre as candidaturas em si e nem me posicionar em relação a preferências (talvez mais sobre não preferências) … confesso que náo li o necessário sobre todas, exceto a do Abad que propõe abertamente dar seguimento, segundo ele e o seu grupo de apoio, a uma brilhante gestão Peter Siemsen (sic), onde somente o futebol teria ido não muito bem (o que escrito num discurso de venda significa fracasso retumbante). Posto isso, entendo que deva ser mais do mesmo dos últimos 6 anos.

O que me espanta é como a disputa pela gestão do Fluminense, que deveria ser baseada em melhores práticas, tecnicismos e propostas de empreendimento, como numa empresa com missões e visões bem definidas e limitadas, consegue ficar tão parecida com a disputa ideológica por poder que acontece nas esferas governamentais de um município, de um estado ou do próprio país “pindorâmico”.

E são parecidas naquilo que é mais detestável: as pessoas se vinculam a quem odeiam e não acreditam para chegar ao poder (muitas vezes para conseguir destruí-las mais a frente) e também são capazes de trair movimentos e grupos a que pertencem por quaisquer dois tostões de influência, minutos de exposição, um favorzinho ou uma promessa que talvez jamais seja paga.

Na coluna do Lauro Jardim do O Globo (que pode ser lida aqui), vemos um exemplo do que expus.

Sobre ela, inicialmente, a primeira coisa que se percebe é que o Fluminense, por mais que o maltratem, interna e externamente, é gigantesco … impressionante a cobertura que tem sido dada a esta eleição. Não me lembro de ter visto outra tão intensa antes. É maior ainda que a cobertura dada a disputa de poder pela UNIMED, quando rezavam na mídia para o Celso Barros perder e romper com o Fluminense, depois de dois brasileiros em 3 anos. Foi capa de 1a página … coisa de gente muito grande.

É importante deixar claro que, embora não pareça, este email da nota pode ter sido produzido de forma fraudulenta e, desde já, caso isto fique comprovado, retirarei tudo que vou escrever abaixo e o farei publicamente, neste e em outro qualquer veículo que me seja solicitado.

Vamos à análise:

Lê-se no material uma mensagem do Pedro Abad para o seu grupo político, a Flusócio, nitidamente descontente com o Peter, mandatário, numa gestão em que participavam ativamente (o que fica bem claro no texto e permanentemente é negado de forma cínica). Aparentemente parte de uma discussão relativa a uma provável decisão de afastamento do grupo da gestão do clube naquele momento, dados os conflitos de direção existentes com o próprio Peter.

Apêndice: “grupos” – estes “entes” que nascem das entidades , com objetivos de beneficiá-las, mas não raro vão crescendo e absorvendo pessoas e temas com direções próprias e individuais, muitas vezes desvinculadas destas entidades que os originam.

Abad questiona abertamente seu grupo sobre os riscos de deixarem de apoiar uma gestão em que, segundo expõe, decide-se e executa-se de forma prejudicial ao clube com um mandatário que mente irritantemente (sic), deixando-o isolado e propenso a renunciar, abrindo espaço para que pessoas de fora do grupo político venham a assumir o poder, interrompendo e arriscando o plano de poder (do grupo Flusócio), que seria de longo prazo …

E aí, a pergunta que fica é:

E o bem do Fluminense, que deveria ser o único objetivo destes grupos que surgem para viver nas suas tetas, mamando, quando não nos seus recursos tangíveis, na sua notabilidade e capacidade de exposição para se autopromoverem nas suas vidas pessoais e profissionais?

Vale a pena, para manter o grupo no poder, calar ou defender coisas e pessoas em que não se acredita e que prejudicam o clube? Não é esta a reflexão que está sendo feita pela mensagem? E pela atitude do grupo desde então (2014) até agora, ficou clara que a direção decidida nos seus conclaves foi que vale a pena, sim.

Volto a dizer, não estou aqui discutindo os benefícios, acertos e erros do Peter e sua gestão e nem se há alternativas melhores do que as que ele defende politicamente dentre as que se apresentam e dentre as que não se apresentaram. Discuto abertamente os métodos e as pessoas.

Hoje, o mesmo Abad, apoiado por quem ele acha irritantemente mentiroso e temerário como gestor, fala abertamente desta mesma gestão como “brilhante”. E mais, ajuda o presidente a dizer mentiras descaradas como erro de delegação no futebol, tentando se eximir de participação direta nas decisões relativas a este. Antes, ainda, para alavancar sua candidatura com ares de comprometimento profissional, dizia que se dedicaria 100% ao clube, licenciando-se de seu emprego, mas também arrumou um jeito de não fazê-lo.

Infelizmente, não é só o Peter que mente e irrita.

Claro que você já viu isso antes, não é? Passamos por este show de hipocrisia de dois em dois anos por aqui e agora também em edições extraordinárias … foi a cultura criada. É a péssima e velha política. Infelizmente funciona.

O jornalista sempre poderá se justificar dizendo que tem a obrigação de noticiar. Alguém há de questionar o absurdo que foi o vazamento, o que realmente é muito triste, e podem haver objetivos não republicanos para publicar isto neste momento, pois é berm possível que já tenha isso em mãos há algum tempo. Mas nesta vala negra exposta, parece surpreendente que neste grupo existe alguém capaz de vazar isso por coisas baratas como duas mariolas e uma jujuba? Pra mim faz todo o sentido.

Só cabe suspirar, lamentar e seguir … um dia com esperança, outro dia com resignação. A única certeza é que não se trilha um bom caminho. Não se chega aos lugares somente por bons caminhos, mas somente por eles há garantia de chegada.

As pessoas e grupos não citados não são necessariamente melhores ou piores, que fique claro isso também. Se pararmos para analisar, vemos que estes comportamentos todos fazem parte de uma cultura disseminada. Não são casos isolados.

Embora estes fatos esteham muito direcionados a um acontecimento na vida do Fluminense, não se iludam amigos torcedores de qualquer agremiação do futebol brasileiro de que com a de vocês é diferente. Não é, não.

Tenho um outro texto aqui que fala sobre profissionalização do futebol e que vai muito nesta direção também. Quem realmente deseja isso? Esses caras aí?

Até a próxima.

Lado Torcedor (LT): O Peter é meio irritante mesmo, concordo com o Abad … e no mais, não tô nem aí pros dois, temos que ganhar domingo porque vai ter G7, tamos dentro de novo … ô gente deprimida …

Abraços

Ex-jogador, auxiliar técnico e instrutor de futebol, escrevendo sobre o tema há mais de 20 anos. Torcedor do Fluminense Football Club.

Comments

  1. Haroldo Silis

    Surgem reflexões:
    1. Devemos ficar temerosos com o resultado das eleições do tricolor?
    2. Por que ser presidente do Fluminense se transformou em algo tão cobiçado?
    3. Que modelo de gestão proposto está mais próximo do que a torcida espera?
    4. Não me parece que os diferentes candidatos agradam gregos e troianos. Parecem fazer questão de agradar um ou outro. Candidatos, agradar o Ocidente e o Oriente deve ser o objetivo de qualquer presidente. Só no final da estrada é que se refletirá o legado.
    5. Mais do anterior: um balanço sobre o quanto errou e acertou será feito. Saber que agradou a maioria é muito melhor.
    6. Parabéns Tony, vou abrir uma cerveja em homenagem ao texto belíssimo!

  2. Mario Santos

    Antônio, você descreveu com brilhantismo a ferida exposta em tudo que envolve poder. Fico tambem irritado com todos envolvidos nessas candidaturas e que não tenham como interesse primário, o FLUMINENSE. Abraços

  3. Frank Cavaliere

    … “E o bem do Fluminense, que deveria ser o único objetivo destes grupos que surgem para viver nas suas tetas, mamando, quando não nos seus recursos tangíveis, na sua notabilidade e capacidade de exposição para se autopromoverem nas suas vidas pessoais e profissionais?”.

    Misturando um pouco com o comentário do Haroldo, “Por que ser presidente do Fluminense se transformou em algo tão cobiçado?”.

    Reflexão mode: ON.

    1. Antônio Ramos Post author

      Não tenho medo do que interpreto e se vir que interpretei errado, também não tenho medo de pedir desculpas, mas precisa ser falado, sim, porque isso precisa mudar. Obg, irmão.

  4. Antônio Ramos Post author

    Aproveitar pra dizer que uma preocupação que eu tinha era a de estar falando sobre uma fraude e fiz até questão de citar esta preocupação na coluna. Entretanto, a própria Flusócio já admitiu que o e-mail é verdadeiro.

    O que é mais engraçado, pra não dizer trágico, mas faz o maior sentido e tem tudo a ver com o que escrevi, é que estão mais preocupados com o descumprimento de um termo de compromisso interno do grupo de não vazamento (que é lamentável, mesmo, e feito por gente que também não vale nada) do que com o conteúdo do e-mail e toda a pantomima e hipocrisia que ele revela dentro das suas entranhas.

    O Fluminense, pra eles, definitivamente, deixou de ser o objetivo principal.

  5. André Fernandes

    Excelente texto!
    É bem por aí mesmo, infelizmente são um reflexo das eleições municipais, estaduais…

    Sempre tentando tirar o foco das propostas rasas e jogando a atenção pros erros dos concorrentes. E, infelizmente, apelando para qualquer coisa que possa criar efeito negativo em quem vota.

    E aí está a outra parte do problema, por mais q eu não goste isso também é culpa do povo. As pessoas ainda caem e se divertem com os ataques pessoais e esquecem das propostas . Cabe a nós desafiar cada vez mais pra que os candidatos sejam mais preparados e sérios.