Heróis alvinegros

Outro dia, Ruy Castro, em sua coluna na “Folha de S. Paulo”, se divertiu e nos divertiu entregando o time do coração de nossos maiores heróis da música e da literatura. Ruy puxou a sardinha para o Flamengo, que é o dele. Pois vamos equilibrar a partida. (Ah, sim, em nosso jogo só contam os clubes cariocas que, como se sabe, têm as maiores torcidas espalhadas pelo país.)

A situação na chamada belle époque era parelha: Coelho Neto, Fluminense; João do Rio, Flamengo; e Olavo Bilac, Botafogo. Lima Barreto, suburbano de truz, bem que poderia representar o Vasco, mas odiava futebol – mais um traço de sua personalidade “do contra”.  Bilac era, disparado, o mais famoso e lido. Vinha gente de todos os cantos para conferir se ele estava de bobeira à porta da Confeitaria Colombo, tentar dois dedos de prosa, pedir um autógrafo ou apenas conferir sua elegância na última moda. As mulheres suspiravam a sua passagem. Era um tempo em que beijar um homem sem bigodes equivalia a comer um ovo sem sal – e Bilac tinha-os bem aparados e encerados. Donde podemos concluir que o Príncipe dos Poetas Brasileiros, com sua torcida, contribuiu, e muito, para aumentar as fileiras alvinegras. Não à toa são dele estes versos: “Amai para entendê-las/ Pois só quem ama pode ter ouvido/ Capaz de ouvir e entender estrelas”.

De preferência, a estrela solitária.

Temos de abrir um parêntesis para o América. Em outros tempos, o clube da Tijuca já teve torcedores – podem acreditar – e não testemunhas como hoje. Entre eles estavam o compositor Lamartine Babo (autor dos hinos dos clubes cariocas), os cantores Francisco Alves, Mario Reis e Carlos Galhardo (o que faz do Mequinha um campeão da era de ouro da música brasileira), o poeta João Cabral de Mello Neto e o romancista Marques Rebelo. Eu desconfiava que Noel Rosa era América, mas ele torcia, a sério, pelo Andaraí. Não era Flamengo, como alguns gostam de espalhar por aí.

Mas vamos ao que interessa. João de Barro, o sublime Braguinha das marchinhas carnavalescas, era Botafogo. Como também a escritora Clarice Lispector – sintam a categoria. No departamento de cronistas clássicos, também excedíamos: Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende, Carlinhos Oliveira, Elsie Lessa – não tinha pra ninguém. Rubem Braga, Flamengo, sentia-se até envergonhado de conversar com a turma, ainda mais que, na época, a freguesia era larga e histórica.

Especificamente na crônica esportiva, tivemos um dos maiores: João Saldanha, cujo centenário de nascimento tem provocado uma necessária revalorização de sua importancia. Saldanha era, por excelência, o anti-Nelson Rodrigues. Ao hiperbólico e homérico de Nelson (um tricolor óbvio), contrapunha em seu texto o coloquial das esquinas. Escrevia como se estivesse conversando com os amigos na roda da Rua Miguel Lemos, em Copacabana.

Todos os citados – os botafoguenses, por supuesto, e até os rivais, por que não? – estarão hoje à noite na torcida contra o Nacional do Uruguai, pelas oitavas da Libertadores. Que seja um passeio, não uma batalha.  E que o time tenha ao menos um homem, não digo um atacante, para chutar em gol.

Comments

  1. Danilo Costa

    O filho da Elsie, o Ivan, tb era botafoguense. O Saldanha não era exatamente o anti-Nelson, eles aliás se davam muito bem inclusive na mesa-redonda da Facit, onde faziam muitas dobradinhas. Mas de fato eram muito diferentes. Parabens pela iniciativa!
    Danilo Costa

  2. Abigail Cavazos

    Acho legal que esses nomes citados nunca deixaram de esconder seus times e conseguiam bolar textos mirabolantes, interessantes para todos os tipos de leitura. Depois entramos nessa era da nutelagem onde temos que “ser neutros”. Curto a diversidade e os textos clássicos de torcedores. Bela pesquisa! Parabéns pelo excelente texto