O imponderável Botafogo

Uma promessa: não vou escrever “há coisas que só acontecem ao Botafogo”. Mas já escrevi.

Às vezes, diante da surpresa e do insólito, é difícil fugir ao lugar-comum, à frase feita, ao velho clichê, pois essas convenções têm a função de nos proteger e nos explicar a realidade. A maioria tem origem no medo do desconhecido. E o que é uma partida de futebol senão o desconhecido e o improvável se desenrolando bem à nossa frente? Será que dará certo a entrada de fulano no lugar de beltrano? Aquela inversão de jogo surpreenderá a defesa adversária? Jogar com o uniforme reserva trará sorte? O juiz vai marcar o pênalti ou não? A bola entrou? Numa única frase: vamos vencer ou vamos perder? Todos que gostamos de futebol sabemos que as possibilidades de um jogo são infinitas, e que uma partida nunca é igual à outra.

Quem antes do jogo de sábado à tarde entre Botafogo e São Paulo, no Nilton Santos, apostaria num placar de 4 a 3? E pior: 4 a 3 pra eles, que estavam nas últimas posições do Campeonato, lutando para deixar a zona de rebaixamento. A equipe alvinegra vinha de uma vitória sem mácula diante do Atlético Mineiro, pela Copa do Brasil. Mas perdemos, e essa derrota, surpreendente pelo resultado e pela maneira com que ele foi construído, se soma a outras histórias improváveis desse atual Botafogo.

Teve de tudo na recente trajetória do clube. Ano passado deixou a incômoda posição de aspirante ao rebaixamento e, magicamente, classificou-se para a Copa Libertadores. O nome da mágica tem nome e sobrenome: Jair Ventura, que assumiu como técnico e mudou a maneira de jogar da equipe. Nem o torcedor mais otimista poderia acreditar nessa façanha. Os bons momentos prosseguiram e, na mais importante competição do continente, o Botafogo já fez história, eliminando quatro campeões: Colo-Colo, do Chile; Olímpia, do Paraguai; Estudiantes, da Argentina; e Atlético Nacional, da Colômbia.

Ao longo do caminho, perdeu dois de seus principais jogadores: o argentino Montillo, que decidiu encerrar a carreira por falta de condições atléticas; e Camilo, que vinha decepcionando em campo e resolveu pular fora do clube no qual teve a melhor fase da sua carreira, que não é tão curta – fase que o levou, inclusive, a ser convocado para a seleção brasileira, o que nunca havia acontecido antes. O atacante Sassá também foi embora, com sua cabeça de passarinho, bem pequenininha. Em compensação, o goleiro Jefferson voltou, e outro jogador da posição, Gatito Fernandez, se firmou, com a peculiaridade de já ter defendido seis cobranças de pênalti no ano. Fora das quatro linhas, há a promessa da construção de um moderno centro de treinamento, o qual, se sair do papel, tem a mesma importância da conquista de um título.

Esse foi apenas um breve resumo, para chegar à partida contra o São Paulo. O Botafogo esteve muito mal, péssimo, em alguns momentos horroroso, sobretudo na defesa, e, por favor, não me venham com desculpas do tipo “apagão”. Hora de abrir o olho: ainda não nos classificamos para a próxima fase da Libertadores e, pela frente, há os dois jogos da semifinal da Copa do Brasil contra o Flamengo, clássico que faz subir a adrenalina a mil. Antes, pegamos o Palmeiras pelo Brasileiro. Nova derrota, a depender das circunstâncias, poderá abalar a confiança do time.

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