Carta ao parceiro Arthur Muhlenberg

Meu caro Arthur,

Eu sei que você é um bom sujeito e saudável do pé, por isso começo falando sobre samba. Mais especificamente sobre um compositor, no gênero um dos maiores de todos os tempos – e que, por acaso, era rubro-negro.

Nascido em Campos dos Goytacazes, numa família ligada ao movimento abolicionista, Wilson Baptista (1913-1968) foi autor de quase 600 canções, entre sambas e marchinhas, muitas dos quais o pessoal possivelmente assobia sem saber que são dele, como “Acertei no milhar”, “Meu mundo é hoje”, “Mundo de zinco”, “Balzaquiana”. Arrasou quarteirões nos 1940 e 1950, fornecendo pepitas para os melhores intérpretes da sua geração, de Carmen Miranda a Aracy de Almeida, de Orlando Silva a Moreira da Silva. Alguns de seus parceiros foram Ataulfo Alves, Haroldo Lobo, Nássara, Roberto Martins. Corajoso, polemizou com Noel Rosa.

Espécie de cronista da vida social, política e esportiva do Rio, só que fazendo música e não escrevendo em jornais e revistas, conviveu com fascinante galeria de cantores, boêmios, valentões, ladrões de samba, mulheres inesquecíveis, toda a patota do rádio, do disco e do teatro-revista. Seu palco era a Lapa, o Café Nice e a Praça Tiradentes.

Pois bem, estimado Arthur, até 2016, seu prestígio na história da música brasileira era desproporcional ao seu fabuloso talento, mas a publicação da excepcional biografia “Wilson Baptista: o samba foi sua glória!”, escrita por Rodrigo Alzuguir, recolocou as coisas no seu devido lugar.

A essa galeria de múltiplas atividades pode-se incluir sua torcida apaixonada pelo Flamengo. Em 1955 Wilson Baptista compôs uma música que se tornaria hino não oficial do clube. Como você está careca de saber, Arthur, o vibrante “Samba rubro-negro” é uma homenagem aos ídolos Rubens, Dequinha e Pavão e à charanga do Jayme. Em 1979 João Nogueira atualizou a linha de craques, citando Zico, Adílio e Cláudio Adão. Todos conhecem, mas só para registro, a letra começa assim:

 

Flamengo joga amanhã

Eu vou pra lá

Vai haver mais um baile

No Maracanã

 

O que poucos sabem é que, para divulgar o samba, Wilson e Jorge de Castro, seu parceiro, conseguiram que ele fosse tocado no Maracanã antes do primeiro Fla-Flu do Carioca de 1955.  O grande Roberto Silva, o primeiro a gravar o samba pela Copacabana, também esteve lá. Sob aplausos dos flamenguistas e vaias dos tricolores, o “Samba rubro-negro” foi ouvido nos alto-falantes do estádio, para orgulho de seus autores.

Só que deu zica. O Fluminense venceu por 2 a 1. “Porra, que azar filho da puta!”, lamentou Wilson. “Logo hoje o nosso Mengo vai perder!”. Roberto Silva o cortou. “Nosso, vírgula. Eu sou botafoguense!”.

É isso, Arthur, cuidado para ter mais uma decepção no Maracanã na próxima quarta-feira, no chamado jogo de volta. No de ida, o Botafogo esteve irreconhecível, jogando muito abaixo das expectativas. Ou, numa visão mais otimista, pode ter cozinhado o adversário. Este jogou tudo o que sabe mesmo, o que é muito pouco. Tremendo arame-liso.

A lamentar a atitude racista de um torcedor isolado que não representa os botafoguenses. A diretoria do Botafogo demorou demais – quase 24 horas – para condenar o episódio de injúria racial contra a família do atacante Vinicius Junior. O resto é demagogia.

Aqui me despeço, Arthur, fique com o abraço carioca e alvinegro do

Alvaro Marechal

 

 

 

Comments