Nova carta ao parceiro Arthur Muhlenberg

Estimado amigo Arthur,

gostei tanto  da sua resposta à minha carta que resolvi fazer uma tréplica, palavra feia mas que é a preferida dos velhos polemistas de estirpe. Claro que tudo tem a ver com a adrenalina que envolve o jogão de quarta-feira, entre Botafogo e Flamengo, pela semifinal da Copa do Brasil. Que ganhe o melhor, desde que seja o primeiro.

Arthur, velho de guerra, permita-se uma teorizaçãozinha. O futebol é um jogo de repetição que nunca se repete da mesma maneira. Desde a primeira vez que a bola entrou no gol, o objetivo é fazer de novo. Por isso é tão importante a memória do jogo, chutes, passes e dribles atávicos.

Muitos tentaram as jogadas que genialmente Pelé tentou – e até conseguiram fazer o que ele não fez, um chute antes do meio-campo que resultou em gol. Há Zico, num Flamengo 7 x 1 ADN, disputado em 1979, no Estádio Caio Martins, em Niterói, marcando um gol em jogada semelhante à de Pelé na Copa de 1970, no México, depois de fintar o goleiro uruguaio Mazurkiewicz só com o corpo, sem tocar na bola.

Repetiu-se à exaustão a arrancada de Messi contra o Getage, algo parecida à de Maradona contra a Inglaterra, na Copa de 1986, também no México – quando Messi nem tinha nascido. E em qualquer campinho do mundo veem-se crianças dando bicicletas de Leônidas, elásticos de Rivelino, pedaladas de Robinho (em que pese este não ter sido o inventor da jogada).

A folha seca, obra e graça de Valdir Pereira, o Didi, glória do Botafogo, ninguém ainda fez igual ou parecido. Há cobranças de falta que dão à bola uma trajetória imprevisível. Mas são folhas pálidas em comparação à original. Didi é único, como foi único o Botafogo em que ele jogou, ao lado de Garrincha, Nilton Santos e outros craques.

No sábado passado, tivemos mais um exemplo dessa busca e tentativa de imitação – que às vezes pode até ser, por parte do jogador, inconsciente. Internautas, sempre apressados, disseram que o gol de Vinicius Júnior contra o poderoso Atlético-GO lembrou o gol histórico de Romário contra o Uruguai, no Maracanã, em partida que classificou o Brasil para a Copa dos Estados Unidos, em 1994.

Quem ama o feio bonito lhe parece, não posso desprezar esse velho ditado. Pena, contudo, que poucos torcedores do Flamengo puderam assistir ao gol do garoto que já está de malas prontas para o Real Madrid. Perderam mais essa oportunidade de ver e comemorar um gol de Vinicius Júnior antes que ele se mande para, quem sabe, nunca mais vestir a camisa rubro-negra. Tudo porque o estádio da Ilha do Governador estava às moscas – nem seis mil pagantes. Resultado de uma política de preços que afasta o torcedor – inteira a partir de R$ 120, valha-me Deus e o ministro Meirelles!

Para o clássico decisivo no Maracanã, a diretoria do Flamengo estipulou o valor de R$ 150 para a torcida do Botafogo. Como notou o repórter Eduardo Zobaran, 275% a mais do que os R$ 40 que o Botafogo cobrou de rubro-negros na primeira partida. Cabe lembrar, ainda, que os R$ 150 são suficientes para pagar 40,8% da anuidade de R$ 366,80, que permite assistir, em 2017, a todos os jogos do Botafogo no setor Norte do Estádio Nilton Santos. A conclusão é que a elite trocou de lugar nas arquibancadas.

Não me interessa discutir as políticas administrativas do Flamengo. São gananciosas, exclusivistas, e ponto. Mas me interessa apontar a má vontade em relação ao Botafogo. Isso, no fundo, é bom.  Concordo com o que escreveu no Twitter o alvinegro Pedro Só: “Estou adorando ver o ódio ao Botafogo. Estamos incomodando demais”.

Para terminar a missiva em clima mais ameno, prezado Arthur, volto a falar em Wilson Baptista, personagem convidado para este nosso papo. O grande compositor fez, em 1942, em parceria com Antônio Almeida, o samba “E o juiz apitou…”. Deixo aqui a letra para funcionar como bom augúrio:

Eu tiro o domingo para descansar

Mas não descansei

Que louco fui eu

Regressei do futebol

Todo queimado de sol

O Flamengo perdeu

Pro Botafogo

Amanhã vou trabalhar

Meu patrão é vascaíno

E de mim vai zombar

Foram noventa minutos

Que eu sofri como louco

Até ficar rouco

Nandinho passa a Zizinho

Zizinho serve a Pirilo

Que preparou pra chutar

Aí o juiz apitou

O tempo regulamentar

Que azar!

 

www.youtube.com/watch?v=UJWsz4sar_A

 

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