O Fim do Café-Com-Leite.

O Flamengo venceu um jogo importante. Aleluia! Descontado o pouco competitivo carioqueta, que ficou combinado que não vale nada nos anos em que é vencido pelo Flamengo, foi a primeira vez em 2017 em que se pode dizer sem relativização que a missão foi cumprida. Mas, para evitar qualquer manifestação de oba-oba, é sempre bom lembrar que o Flamengo não fez mais que a sua obrigação. A semifinal da Copa do Brasil foi um duelo extremamente desigual. O Botafogo jamais teve qualquer chance.

Muito ao contrário da narrativa desenvolvida pela crônica esportiva, dentro das quatro linhas o Botafogo ganiu de humildade diante do poderio avassalador do Flamengo. O Botafogo começou a ser eliminado antes mesmo de entrar em campo. E sacramentou a sua desclassificação quando dele saiu pela primeira vez, lá no Vazião, levando para o segundo jogo a quimérica vantagem de qualquer empate que não o 0x0. Quimérica porque tal vantagem implicava na remota, e diria até improvável, possibilidade do alvinegro vir a consignar um mísero gol jogando contra o Flamengo. Não se deixe impressionar por uma suposta soberba ou arrogância rubro-negra da frase anterior, porque ao fim de 180 minutos todos os scouts do mundo apontavam que o o Botafogo mal foi capaz de chutar em direção à nossa meta.

O jogo decisivo no Maracanã não foi nenhum espetáculo, mas o Flamengo, apesar de todas as suas conhecidas limitações, aplastou o Botafogo sem precisar passar por maiores sufocos. Salvo o árbitro, mais interessado em levar a disputa para os pênaltis que o próprio Botafogo, o Flamengo não encontrou maiores dificuldades para atingir seu objetivo. Que foi coroado através do antológico olé da vaca letrada (ou letreira) de Berrío para o gol de Diego. E chega de falar de um jogo que já faz parte do passado.

Pelo menos até o triunfo da última quarta-feira a torcida do Flamengo, de uma maneira geral, andava meio deprimida. Ainda excessivamente afetada e traumatizada pelo malogro na Libertadores. Não são poucos os gurus que definem a depressão como um excesso de passado, em oposição à ansiedade, que seria um sintoma do excesso de futuro. Vivamos o presente. E o presente, desde quarta-feira, pelo menos, é curtir o chororô desenfreado da torcida botafoguense.

Depois das duas canhestras exibições públicas da sua ausência de recursos ofensivos era impossível até pra eles usarem a abordagem clássica de Flapito, favorecimento, gols roubados, etc. Os botafoguenses subiram o nível e adotaram o discurso mais sofisticado de que sofreram um massacre midiático, que a FlaPress, a CNN, a Al Jazeera e a Rádio Borborema sufocaram o clube com a divulgação massiva da selvageria da sua torcida no Engenho de Dentro e na Estação de Madureira, que transformou um caso isolado de racismo em uma cause célèbre que desestabilizou corações e mentes chorororianos. Conversa pra boi dormir! O chumbo foi trocado com igual deslealdade dos dois lados.

Quando o Flamengo enfrenta o Botafogo reserva-se ao Mais Querido todas as desvantagens. Para o Flamengo é como brigar com um bêbado. O Botafogo é o pequeno valoroso e não pode ser sacaneado nem mesmo após ser derrotado. Jornalistas fizeram biquinho pra hashtag #TchauFreguês usada pela Comunicação do Flamengo após a vitória. Em uma resenha matinal alguns representantes do 4º Poder ficaram fazendo tsc-tsc-tscs de desaprovação como se o Flamengo estivesse com isto incitando a violência e conspurcando o real sentido do esporte. Quanta frescura! E quando nos anos 60 o Manga dizia que antes do clássico com o Flamengo o bicho em General Severiano era pago na sexta-feira? Tudo certo que os profissionais do esporte sejam homens sérios e circunspectos que prefiram não se divertir com o seu ganha-pão, mas, por favor, deixem ao menos o torcedor, que banca a farra inteira, se divertir e zoar o adversário.

Foi bom o Flamengo passar por tudo isso, porque perder pra este Botafogo seria uma tragédia sem precedentes. E que seria magnificada pela crônica esportiva ao mesmo nível da nossa derrota para o time reserva deles em 1997, ou coisa pior. E isso não tem nada a ver com valores intangíveis tais como tradição, peso da camisa ou tangíveis, como tamanho de torcida, da folha de pagamento ou da sala de troféus. É porque este Botafogo, finalmente podemos falar sem provocar a ira dos deuses do futebol, é um timinho dos mais sem vergonha. E que foi derrotado por um motivo muito simples: – porque o Flamengo o tratou a pontapés, como se vira-latas fôssem.

Em que pese o louvável trabalho do Jair Ventura, todavia zerado de conquistas mais significativas que a fuga do rebaixamento no Brasileiro do ano passado, o Botafogo é limitadíssimo e botinudo. O entusiasmo afetado que vem gerando é análogo à condescendência dispensada à sobrevivente Chapecoense. É fruto do sentimentalismo água-com-açúcar que está na matriz da alma brasileira, sempre escolhendo o lado mais fraco, sempre exaltando o fracasso e preparando o terreno para a derrota iminente. Mas Nelson Rodrigues, na Manchete Esportiva de maio de 1958, já foi definitivo na identificação do Complexo de Vira-Lata. E o Flamengo, louvado seja, é o oposto desse sentimento subalterno.

Na final da Copa do Brasil o Flamengo vai enfrentar apenas um time de futebol, que pelo menos desse lado da BR-040, não corre o risco de receber da imprensa o ignominioso tratamento café-com-leite com o qual a torcida botafoguense parece se comprazer. Vamos ver se o climinha “ai, que fofinho o botafoguinho está fazendo bonito entre os grandes” continuará enquanto os sonhos (meio amalucados) de redenção alvinegros, se esfarelarem eliminação trás eliminação. Por enquanto o Flamengo continua sua jornada e se a imprensa não quiser nos ajudar já ficaremos muito agradecidos se não nos atrapalhar.

Um ultimo blá sobre os lamentáveis casos de racismo ocorridos nos dois jogos da semi. Não ficou nada bonito pro Flamengo não se pronunciar imediatamente para condenar o feio ato protagonizado por um nosso torcedor. Pegou malzão. Vacilos da diretoria à parte, a diferença de tratamento dispensado aos dois casos, não apenas pela cartolada rubro-negra, mas também pela imprensa nacional, ilustra bem o quão está enraizado o preconceito na sociedade.

Xingar de preto um negro famoso, ou parentes de um negro famoso, significa arrumar uma confusão dos diabos. Dá muito menos repercussão e causa muito menor indignação publica xingar de filho de preto um anônimo trabalhador. Ao funcionário da LSM Produções, que compreensivelmente prefere não se identificar, deixo aqui minhas envergonhadas desculpas em nome de muitos e muitos torcedores do Flamengo que condenam e combatem todo tipo de preconceito.

Mengão Sempre

Urublog, o Blog do Torcedor do Flamengo liderada por Arthur Muhlenberg.

Comments

  1. Antônio Ramos

    hahahaha … excelente!

    Já que entramos no off topic do racismo , é importante citar também que ele é praticado em todos os meios e em todas as torcidas, assim como a homofobia, discriminações religiosas e financeiras, entre outros preconceitos sociais degenerativos.

    A manutenção destes em permanente evidência, relatando repetidamente alguns destes casos é questionável como método eficaz de evitá-lo. Vem se tentando isso há cerca de 60 anos sem que haja melhoria significativa na erradicação. Muito pelo contrário, atualmente andamos no sentido de radicalizar ainda mais estas diferenças. Não estamos deixando as crianças crescerem sem que percebam o óbvio: que não existe esta diferença que elas lêem todos os dias nos jornais.

    Pior, a sensação que eu tenho é que continuar alimentando e enfatizando isso serve mais pra gerar vantagem comercial e notoriedade indevidos para discriminados mais espertos e com maior acesso a mídia, mantendo em troca uma situação social ruim para os discriminados menos afortunados.

    Só uma opinião, desconectada com o politicamente correto. Vale a reflexão.

    Que apliquem a lei para os criminosos que o façam, mas que não tornem isso um instrumento de revanchismo ou vantagem financeira, tanto para a mídia comercial, que vem usando isso muito mais para vender jornal do que para qualquer outro objetivo saneador, quanto para as pessoas, discriminadas ou não, receberem vantagens que não as cabem, sem qualquer mérito envolvido.

    Abs

  2. Breno Trindade

    Sempre grandioso em seus textos, Arthur! Nunca demonstrando paixão fora da razão pelo Mais Querido! Sempre bastante coerente exigente aos que fecham com o certo, principalmente, os que vestem a armadura rubro-negra!

  3. Julio Abreu

    Faço minha as suas desculpas. Tratamos o time covarde do faísca a pontapés! Como deve ser com a ralé futebolística do Rio . Kd o presidente deles? Sinto falta do choro… é tradição.