Rueda de La Fortuna

Aos poucos, bem devagar e sem assustar os transeuntes, o Flamengo vai dando alguns sinais de que está começando a se arrumar. O time em si ainda tem muito o que melhorar, ou como preferem dizer os motivadores, ainda tem muito espaço para o aprimoramento. Mas a série invicta bajo la administración Reinaldo Rueda já alcança 4 jogos. Não é nada pro Flamengo Mitológico, que detém o recorde nacional de 52 partidas sem perder, mas são 360 minutos em que nem gol tomamos e nos quais, isto sim é importante, o Flamengo tem jogado sempre melhor do que jogou no jogo anterior. Como se diz na Colômbia, Rueda hizo su Agosto.

É meio que comum que todos os times deem uma melhorada imediatamente após a chegada de um novo treinador. Os jogadores sempre ficam mais espertos, todo mundo treina com vontade, titulares pra manter as posições, reservas se esforçando por novas oportunidades, os malas da imprensa dão um tempo na corneta e até a torcida exercita a tolerância. Este breve período de lua de mel com o treinador não se enquadra, de jeito nenhum, nas condições normais de temperatura e pressão do cotidiano do Flamengo, onde a chapa esquenta 24 por 7. E nós sabemos que mais cedo ou mais tarde, invicto ou não, tomando gol ou não, a chapa vai esquentar no Flamengo. Porque é da natureza do Flamengo e porque as 4 competições que ainda estamos disputando são uma fonte inesgotável de B.O.s.

Aí sim, quando ele mostrar como descasca os inevitáveis abacaxis vamos poder avaliar o novo treinador e o quanto ele está preparado para o exercício do cargo que assumiu. Rueda é cheio de qualificações e condecorações, mas não podemos esquecer que não deixa de ser um estrangeiro em terras estranhas e que leva algum tempo para entender como funciona o futebol semiprofissional do país. Rueda e sua comissão técnica, por exemplo, ainda não devem ter entendido a razão para as suas galletitas preferidas serem biscoito no Rio e bolacha em São Paulo.

Assim como não entenderam como é possível que a final da 2ª competição mais importante do Brasil, cuja inscrição de atletas se encerrou em maio, esteja marcada para uma data FIFA e que seus melhores jogadores tenham que atender às convocações de suas respectivas seleções ou ver o jogo pela televisão. Se nem a gente, que é cascudo nessa esculhambação tão brasileira e sempre estamos preparados pra qualquer absurdo que venha da CBF entendemos essa lambança, imagina se um cara que chama todo mundo de señor e fez sua formação profissional na Alemanha vai entender uma doideira dessas.

Por isso ainda estou na fase de apoio e observação em relação ao Rueda. Ele foi macho à pampa de encarar o rabo-de-foguete de chegar pra jogar uma semi de Copa do Brasil e se saiu muito bem no primeiro teste. Também agrada muito a todos ver o Flamengo jogando pra frente e muito seguro lá atrás. Mas, talvez vocês lembrem que ano passado, quando o Zé Ricardo substituiu Muricy, o time também melhorou exibindo as mesmas qualidades descritas na frase anterior. E até em 2017, durante o Brasileiro, fora a Festa do Tomate em que se transformou nossa defesa nas ultimas rodadas do turno, o Flamengo tomava pouco gol.

Tenho a impressão de que o Rueda ainda não botou as manguinhas de fora e até agora, muito em função da Copa do Brasil, tem tentado não apostar em profundas rupturas. Para não esculhambar de vez o esquema que, mal ou bem, nos tinha colocado na semifinal. O que faz dele um tío berraco e merecedor de mais aplausos. Gosto muito do seu perfil baixo e sua postura nas coletivas, nas quais só fala platitudes e não entrega o ouro. Sempre achei muito idiota quem avalia o trabalho de treinadores se baseando no que eles dizem em coletivas, mas como o time tá ganhando e Rueda ainda não desafinou, a galera aplaude como se ele fosse um poeta laureado. Mas neste mundo nada pode ser dado como certo à excecção da morte, dos impostos e do oba-oba da torcida do Mengão. Melhor assim, claro, mas a gente sabe que sem resultados chamego em futebol não dura muito.

Na Copa do Brasil, na Sulamericana e na minguante Primeira Liga Rueda está com imunidade parlamentar, é tudo mata-mata e seria o cúmulo da imbecilidade crucificar um treinador recém-chegado na hipótese, que acreditamos remota, de alguma tragédia ou desclassificação. É no Brasileiro, que apesar dos apressados arautos do fim do mundo já terem entregado o título pra gambazada desde a 10ª rodada ainda é uma possibilidade matemática e a competição onde o Flamengo pode colocar em campos seus melhores jogadores juntos, que Rueda vai poder mostrar serviço e armar o time a su manera. Tem elenco e 19 jogos pra mostrar do que é capaz.

É bom torcer pro Rueda ser um cara de sorte, que sem ela não dá nem pra chupar um Chicabom. E não basta ter sorte nos resultados ou na ausência de contusões no elenco. Tem que ter sorte pra torcida não pegar no pé e não por lenha na fogueira das vaidades que é a eleição do clube, prematuramente detonada, o que tornará a atmosfera irrespirável pra qualquer um. Se for com o apoio da torcida vai ser bem mais fácil pro Rueda cumprir o contrato até o fim. E quem sabe, triunfante, renova-lo vezes sem conta.

Mengão Sempre

Urublog, o Blog do Torcedor do Flamengo liderada por Arthur Muhlenberg.

Comments

  1. Romano

    Texto bem realista e pé no chão. Gosto disso, mas confesso que estou mais otimista que o Arthur.

    Ao contrário, achei que as mudanças não foram nada brandas nesse curto espaço de tempo. E foram TODAS pra melhor.

    Tomo como exemplo a seguinte passagem do texto:

    “Tenho a impressão de que o Rueda ainda não botou as manguinhas de fora e até agora, muito em função da Copa do Brasil, tem tentado não apostar em profundas rupturas. Para não esculhambar de vez o esquema que, mal ou bem, nos tinha colocado na semifinal.”

    Ora, no quase vexame que nos tiraria da semi-final da Copa do Brasil, a patética goleada de 4 a 2 para o Santos, tivemos em campo, ao mesmo tempo, simplesmente Muralha, Vaz, Márcio Araújo e Gabriel. Até agora não sei como não deu merda.

    Com Rueda, os 3 últimos foram defenestrados das escalações titulares. De quebra, ainda barrou o pavoroso Trauco – lateral que não se sabe como pode exercer essa função, já que não marca ninguém – dando um pouco mais de qualidade de vida ao Juan, que agora não precisa mais ficar levando corrida no mano-a-mano de qualquer perna-de-pau com metade da idade dele.

    Ou seja, mexeu em mais de um terço do time.

    Basicamente, barrou os conhecidos perna-de-pau que tornavam nossas vidas miseráveis há anos e que qualquer criança de 4 anos sabe citar os nomes.

    E não parou por aí. Mudou também a postura tática do time, que agora joga com mais segurança, laterais mais presos – já QUE TEM VOLANTE COM QUALIDADES PARA FAZER A SAÍDA DE BOLA – e recuou um pouco nossa idosa linha de zaga, que o Zé gostava de mandar subir até o meio-campo, não importa quantos gols levássemos de contra-ataques nas costas deles. Ah, não podemos esquecer que o time parou de recuar logo depois de marcar um gol.

    Ou seja, mudou muita coisa, a meu ver.

    Tudo bem que eram mudanças óbvias, necessárias e gritadas há muito tempo pela torcida (sempre burra e injusta, de acordo com aqueles que se intitulam profundos conhecedores do riscado), mas mesmo assim o Rueda as fez, e o Zé se recusava a dar o braço a torcer.

    Por isso, agora, em vez de ter como objetivo levar o Flamengo ao título da Libertadores e do Brasileirão, o Zé tem a missão de livrar o Vice do Tetra.

    É como um general rebaixado a cabo. Um CEO rebaixado a estagiário. Opa, peraí, estagiário ele ainda é…

    A culpa é dele, Zé. E não da torcida.

    A torcida trouxe o Rueda, e vai bancar o Rueda. Pode apostar.

    Eu, pelo menos, vou. Porque não é preciso esperar mais 40 jogos pra perceber a diferença dele pra nossos “professores-doutores-medalhões” pátrios, que não querem estudar, mas não querem que estudiosos venham pra cá.

    ARRIBA FLAMENGO!!!

    SRN

  2. Lucas

    Lá se foi a primeira na roda do Rueda. Ainda creio que os maiores salários do elenco devem ser escalados, mesmo se fora de posição, se houver o mínimo respaldo técnico, o que não é o caso do Muralha. Se o cara ganha bem no futebol, deve saber cobrir uma posição diferente e aproximada de sua original. Por exemplo, na queda para o Paraná, na First League, o Flamengo poderia ter entrado com Mancuello na esqueda no lugar do moleque que foi apagado. O Vinicius Júnior não pode ser titular ainda, já deu claras mostras. Não creio que 15 minutos seja suficiente para definir o Conca, que de todos os perebas já escalados, foi o que menos recebeu chance e o que mais pode dar retorno. Falar depois é fácil, mas eu teria ido com: Tiago, Gabriel, Léo Duarte, Vaz, Mancuello; MA, Rômulo, Conca; Everton Ribeiro, Geuvânio e Vizeu. Colocaria o VJ para incendiar o jogo, caso o Flamengo estivesse mal. O que se viu no jogo foram os moleques nervosos com a bola no pé. Tem que lançar com calma. Fica a esperança da Primeira Liga ter sido um valioso aviso celestial para as decisões que virão. Resta saber se o Rueda tá com a antena ligada.