Como Ficamos o que Somos

As pessoas, quando me conhecem mais proximamente, sempre perguntam o porquê de ter me ligado ao futebol de forma tão contundente.

Posso aqui enumerar várias coisas que colaboraram para isso, mas mesmo sem ser lá muito religioso, pelo menos não como as religiões que conhecemos se mostram formatadas e organizadas, e de também rejeitar conceitos baseados em sorte ou azar, acredito que realmente há algo que nos dirige pra certas coisas sem que consigamos explicar ou entender o porquê.

E é sobre isso a história de hoje.

Quem era criança no Rio de Janeiro dos anos  1970, deve lembrar que o Maracanãzinho era um espaço extremamente movimentado. Quase todo fim de semana havia uma atração: um show, um circo internacional, uma partida de basquete etc..

Assim era em junho de 1975. Acostumados a ir ao Maracaná aos domingos para ver o Fluminense, fazíamos um recesso nos Fluminense X Vasco. Como já contei em outra oportunidade, meu pai era tricolor e minha mãe vascaína. Ela não gostava de ver futebol. Meu irmão tornou-se vascaíno também, mas não era tão ligado nisso, embora gostasse de ir às vezes. Quem nos levava portanto ao Maracaná era o nosso pai. Nesta época, o único lugar acessível, fosse por questões financeiras, fosse por questão de visibilidade, era a arquibancada.

Crianças na Geral, que era mais barata, só conseguiam ver jogo em cima do pescoço dos pais. Era extremamente baixa e cheia, além de muito cansativa (alguns devem lembrar que houve uma obra na década de 1980 para levantar a geral cerca de 50 cm).  Indo na arquibancada alguém ficaria fora de sua torcida, meu irmão naturalmente, por uma questão de cunho democrático (2 x 1). Mas como sabemos que a democracia não resolve problemas sem que haja consenso e visão de bem comum, a solução justa era ouvir no radinho de pilha ou procurar alguma outra diversão para as tardes de domingo, opções não necessariamente excludentes, nem mesmo que fosse assistir ao clássico da pelada Embalo do Catete X Ordem e Progresso, travado nos campos ainda cobertos de saibro do Aterro do Flamengo.

No dia primeiro daquele mês foi um dia assim. Fluminense X Vasco jogariam pelo 2o turno do Campeonato Carioca.

Como curiosidade, Campeonato Carioca que só passou a ser Campeonato Estadual do Rio de Janeiro em 1976, pois até a fusão do Estado da Guanabara com o Estado do Rio de Janeiro, em março de 1975, os cariocas nasciam e viviam na Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, município único e capital da Guanabara, e o Rio de Janeiro tinha como capital Niterói, o lugar com a vista mais bela do mundo: a própria Cidade de São Sebastião (queridos amigos niteroienses “no hard feelings please”). Muitos consideram a fusão o evento decisivo (o primeiro foi a faraônica e inexplicável construção de Brasília) para disparar o processo de declínio do Rio de Janeiro, como metrópole e centro cultural do país.

Apesar de minha altura mediana, basquete sempre foi o meu segundo esporte e, naquele primeiro de junho, os Harlem Globetrotters estavam no Rio fazendo uma de suas exibições mundiais, no Maracanãzinho, pertinho do horário do jogo. Pra lá fomos em família.

Meu pai, com o seu brilhante (em todos os sentidos) radinho de pilha vermelho, munido do precursor dos “headphones”, o glorioso “egoísta”,  estava na verdade, assim como eu, que perturbei muito a todos para irmos ver os artistas do basquete, com a cabeça à cerca de 100m dalí. Minha mãe e irmão, desligados do futebol, divertiam-se com o show.

Já era por volta de 18:00 no escuro fim de outono carioca quando saímos do Maracanãzinho. Meu pai, ansioso, jogo 0 x 0 no primeiro tempo, desviou-nos um pouco do caminho natural de saída e nos embrenhou pelas vielas internas do Complexo. A medida que íamos avançando o arrepiante barulho de torcidas ia sendo ouvido cada vez mais alto e claro.

– Aqui já é o Maracanã, acho que por aqui é a entrada das cadeiras azuis, vamos ver como é?

Isso disparou protestos explícitos e sonoros de minha mãe, já compreendendo os objetivos implícitos na iniciativa “turística” de meu pai. Contornados os ânimos, com algum poder de negociação, ela sentenciou de forma definitiva e, acreditem, vindo dela era realmente definitivo:

– É só pra ver 1 minuto e VAMOS!

E fomos, enquanto isto nos era permitido. À frente uma catraca, que tinha lá um glorioso funcionário da não menos gloriosa SUDERJ, preparadíssimo para receber uma típica família brasileira, com duas crianças risonhas e comportadas, com extrema educação e boa vontade:

–  Daqui só passa com ingresso, como conseguiram chegar aqui, não tem ninguém lá atrás ?!

Minha mãe, que já não queria estar ali, já começou a se virar para o caminho de volta. Meu pai, sempre diplomático, conversou com o cidadão, que apesar de todos os pesares, fazia apenas o seu trabalho, corretamente.

– Boa noite, meu caro, meu nome é Raimundo, sou de Belém do Pará, como vai? Na verdade saímos do Maracanãzinho, nunca vimos o Maracanã e eu nem ligo tanto, mas os meninos adoram futebol, queria só pedir para que eles vissem o campo rapidamente.

Achei engraçado ele ter dito que nem ligava e que nunca tínhamos visto o Maracanã … como uma boa criança inocente eu quase desmenti, mas achei melhor ficar calado naquele momento, nem sei o porquê. Hoje sei que tomei a decisão correta.

E depois de cerca de 2 minutos de negativas e insistências, nos foi permitido entrar para aquele minutinho minguado, que, àquela altura, ninguém tinha mais interesse em esticar.

Após o choque de ver o campo a partir de um “take” totalmente diferente, lá da entrada das cadeiras, exatamente naquele momento, o Rivelino (com um L só que era a verdade da época) simplesmente pára diante do Alcir, num futebol cadenciado que os garotos de hoje não compreenderiam. De repente fez algo que no momento ninguém entendeu e tinha visto ainda, nem o Alcir, saindo dois metros à frente dele, provocando um ruído surdo de espanto geral. Daí, invade a área como bem entende diante de dois zagueiros perplexos e desloca um Andrada já sentado, fazendo o Maracanã explodir.

A jogada individual mais inusitada e sensacional que vi na minha vida até hoje.

E estranhamente não houve comemoração ou comentários, porque a perplexidade com o lance era tanta, que o estado era mais próximo do estupor. Além do mais, minha mãe já me puxava “sutilmente” pelo braço, fazendo valer a sua sentença absolutamente sincronizada com o acordo com o rapaz da catraca. Simplesmente seguimos …

Diferente dos tempos de hoje, 99.999% do que conseguíamos ver com os nossos próprios olhos, jamais teríamos a oportunidade de ver de novo, em vídeo tape. E quando podíamos, era num horário determinado em que teríamos que estar naquele momento exato, diante de uma televisão.

E era só isso que eu queria: ver aquilo de novo, pra ver se entendia. Não via a hora de chegar em casa e ver os gols, depois que a Zebrinha indicasse os resultados da Loteria Esportiva, que meu pai entregava um volante para preenchermos toda semana, evidentemente sem qualquer sucesso.

A internet hoje nos dá acesso a tudo. Com certeza vocês já viram este gol e este vídeo abaixo antes e se um dia cansaram de vê-lo, tudo bem. Eu ainda não consegui e lá se vão quarenta e poucos anos. Os que não cansaram, repitam, repitam, repitam até cansarem ou até que tenham que parar pra fazer alguma outra coisa, como acontece comigo todas as vezes, inclusive hoje.  Além do momento mágico do futebol, ainda dá pra ouvir uma narração da época, com os verdadeiros ruídos do gigante Maracanã, destruído para encher os bolsos de bandidos e para não ser mais o maior estádio do mundo, transformando-se num elefante branco, caro e inviável, sem alma, apropriado para tudo, menos futebol.

Voltando ao início, tudo conspirou para que eu visse este gol ao vivo. Algo que eu desconheço preparou este momento, com os seus “delays”, suas ocorrências, as vielas do Maracanã, a discussão na catraca, tudo aconteceu num tempo certo demais.

Dá pra entender porque coisas vão se tornando tão importantes na vida de alguém? Agora acho que sim, né?

Abraços e um grande início de outubro para todos.

Ex-jogador, auxiliar técnico e instrutor de futebol, escrevendo sobre o tema há mais de 20 anos. Torcedor do Fluminense Football Club.

Comments

  1. Carlos Gaia

    Só posso dar-lhe os parabéns pela felicidade e confessar uma pontinha de inveja, não por 1, mas por 2 momentos tão incríveis, gol de Rivelino e do Flu…..e Harlem Globetrotters….. isso é único.

    Sou fã dos Globetrotters pelo show e dos Lakers pelo maior jogador de basquete da história (na minha opinião claro rsrs) Earvin “Magic” Johnson.

    ST