Separando os Meninos das Meninas

Foi um Fla-Flu de arrepiar. Com direito a todos os acessórios que compõem os grandes jogos. Mengão fardando calções brancos, gol das moças no começo, porrada liberada sob a supervisão de juiz argentino safado, imprevisibilidade absoluta e meia dúzia de gols. Quem foi ao Maracanã se deu bem, fez um excelente negócio. E quem ficou em casa e assistiu pela TV também não ficou no preju, apesar da insistência dos comentaristas e locutores que estavam de serviço em torcer contra o Flamengo. O imparcial Juninho Pernambucano, escaldado freguês do Flamengo, citou até um escalafobético conceito de violência positiva. Suspeito que em respeito ao Junior Maestro, com quem dividia a bancada, Juninho poupou os telespectadores de muito constrangimento ao não detalhar no ar essa batatada filosófica.

Pas grave, já estamos acostumados com a incapacidade coletiva de parte da imprensa esportiva em se expressar com clareza em relação ao Flamengo. Só conseguem ser articulados quando é pra falar mal do Flamengo. Quando, por circunstâncias alheias às suas vontades, são forçados a falar bem de nós a língua enrola, o folego escapa, a fluência desaparece, o cérebro dá tilt. Por isso que para a grande parte da maior torcida do Brasil o melhor comentarista esportivo da TV brasileira se chama Tecla Mute. Faz sentido, pra criticar o Flamengo abandonando a razão e agredindo a inteligência alheia não precisamos de ajuda da Mamãe Globo, nós mesmos fazemos isso muito bem sozinhos.

E entre nós, até aqueles críticos que questionam a integridade anímica desse time do Flamengo, e não são poucos, saíram ontem do Maracanã com muitas dúvidas. Afinal, nossa rapaziada sentiu a inequívoca pressão que vinha de todas as direções; adversário, arbitragem, torcida, uma Libertadores funesta, um Brasileiro medíocre, mas a ela não sucumbiu. Se impôs sobre a Fluminense mesmo sendo constrangido a pugnar com a injustificada violência proposta pelo Tetra Rebaixado, que deu unhada e puxão de cabelo desde o apito inicial.

Até nesses tempos em que o debate de ideias entre intelectuais se resolve com tapas na venta e imobilizações no tatame fica difícil sustentar a teoria do time sem alma depois do Flamengo ter sido capaz de correr atrás de um placar desfavorável e arrancar uma classificação dos braços da derrota na base da raça pura. Sim pode ter sido apenas mais uma prodigiosa manifestação dos poderes do Manto Sagrado, mas é bastante improvável. Ao meu ver o time mostrou que dentro daqueles sagrados panos vermelhos e pretos havia gente como nós. Gente que venta, chove, troveja e relampeja como força da natureza. Gente flamenga, enfim.

A verdade é que a alma dos times só se revela na hora do perrengue e que no Flamengo esse perrengue tem sido, historicamente, o combustível das grandes conquistas. Podem reparar, os títulos invictos do Flamengo estão entre mais sem graça de nossa extensa galeria de triunfos. Faltam às raras e improváveis campanhas imaculadas do Flamengo a nota de desespero, a proximidade irresistível com a beira do abismo, a têmpera do fio da navalha que é a rua principal do nosso habitat. Esse Flamengo já provou que se comporta melhor quando a torcida está igualmente disposta a carrega-lo em triunfo ou a botar fogo no parquinho, o que acontecer primeiro. Se for essa a única maneira de fazer esse Flamengo redimir o ano até aqui frustrante que venham outras batalhas. A corneta indomável fica por nossa conta.

O fleumático Rueda já está no clube há tempo suficiente para ter descoberto que sua principal função à frente do elenco é acender o fogo sagrado no rabo dos jogadores e já não tem mais desculpas para desconhecer que o elemento que não pode faltar nessa combustão é o moleque Vinicius Jr. Sua tardia entrada em campo (tinha que ter sido titular) mudou completamente o ritmo e a intensidade do jogo. Vinicius Jr, como os verdadeiros craques, joga e faz jogar. Ao seu lado as potencialidades da nossa mulambada afloram e talentos insuspeitos se revelam. O período de teste está definitivamente encerrado. Portanto, que el profe pare de onda e comece a escalar a joia rubro-negra na justa medida de sua importância pra equipe.

Se tudo der muito certo, até o fim do ano o Flamengo disputa mais 11 jogos. E se der mais certo ainda passaremos o Réveillon com a faixa da Sul-americana no peito, prontos pra faturar Copa Suruga e Recopa. Além, é claro, com uma vaga tipo A na fase de grupos da Libertadores 2018. E olha que nem precisa ganhar os 11 jogos, se ganhar os 3 jogos certos vai ser festa na favela até o Carnaval. Em suma, o melhor ainda está por vir. Cabe a nós, torcedores racionais (e os irracionais também), manter a pressão em cima da nossa mulambada. Porque ainda não ganhamos porra nenhuma.

Mengão Sempre

Urublog, o Blog do Torcedor do Flamengo liderada por Arthur Muhlenberg.

Comments

  1. Gustavo Lemos

    Foi um daqueles jogos que se tornaram inesquecíveis. Isso é Flamengo!! É desse jeito que seremos campeões!! SRN

  2. Gustavo De Almeida

    Acho que o VJR não tinha que ter sido titular não. O ideal é ele entrar mesmo na segunda metade do segundo tempo, com os caras já cansados e tendo que enfrentar um azougue, um moleque que dribla e corre pra caralho.

  3. Bruno Ottoni

    Já não é de hoje que o Flamengo começa a reagir no ano apenas depois do dia de São Judas Tadeu. Arrancadas espetaculares, vitórias épicas, reações históricas.

    Como tal data é relacionada ao martírio de nosso padroeiro, o ideal era determinarmos uma data para o nascimento dele (de preferência no 1º semestre) para que assim dentro desse intervalo o time lembrasse que todo jogo é decisivo quando se veste Rubro-Negro.

    Se for muito difícil descobrir a data de nascimento do Santo padroeiro, podemos considerar o natalício de nosso Messias, 03 de Março, assim cobriríamos o arco de tempo necessário para os nossos rapazes agirem como sempre gostaríamos. Raça, Amor, Paixão, sangue, suor e lágrimas dia sim, outro também.

    Seremos Campeões Arthur, estava faltando um jogo assim para lembrar aos nossos representantes em campo que “Isso Aqui é Flamengo”. Passando o Júnior de Barranquilla, poderemos ter como rival na final o Independiente, nada menos que o maior vencedor da Libertadores da America na história, uma boa medida para que possamos vislumbrar a conquista dela em 2018.

    Quanto aos ‘comentaristas’ esportivos, locutores da grande mídia televisiva nacional, sem surpresas em relação ao desprazer com o qual tratam e se referem ao Mais Querido. Não foi diferente no Sportv com o Sr. Lédio Carmona, que duvido muito tenha chutado uma bola alguma vez na vida… O negócio é tecla Mute ou colocar na Rádio AM pra ouvir a transmissão.

    Saudações Rubro-Negras!

  4. Aureo Rocha

    Arthur, passei a vida inteira lendo cronistas botafoguenses no antigo Jornal do Brasil. Já estou vacinado contra essa praga.
    Eu creio que agora o time começa a dar liga. Mas, falta alguém para dar um esporro no Diego e dizer-lhe que futebol é um jogo coletivo e que, por isso, ele deveria ter passado a bola para o Vinícius Jr, que se encontrava em melhores condições de assinalar o gol, no último lance da partida.
    Eu entendo que o Vinícius Jr ainda não tem condições musculares para suportar 90 minutos de futebol. O garoto tem apenas 17 anos. Somente após os 19 anos, os músculos do homem começam a se fortalecer de modo a aguentar o esforço que uma partida de futebol profissional requer.
    Entretanto, tudo tem exceções. Pelé foi uma delas e o Vinícius Jr quem sabe pode ser mais uma.
    Saudações Rubro-Negras.

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