Só As Mães São Felizes

Todos os times felizes são parecidos; os infelizes são infelizes cada um a sua maneira. Até quem acompanhou as ultimas 45 temporadas do Flamengo tem dificuldade em apontar um ano tão infeliz como 2017. Esse Flamengo que conseguiu a façanha de chegar à última rodada do campeonato sem ter feito o dever de casa de se classificar para a fase de grupos da Libertadores pode ser acusado de tudo, menos de não distribuir a infelicidade com notável equanimidade. Tem infelicidade em baldes para todos, jogadores, funcionários, cartolas e torcedores.

No choque frontal entre as altíssimas expectativas da torcida (adubadas por balancetes benignos, contratações vultosas e a natural megalomania rubro-negra) e a concretude da realidade restaram poucos sobreviventes entre as ferragens. E entre estes alguns respiram apenas por conta dos aparelhos, já estão com o pé na cova.

Não é pecado ou desculpa de aleijado mencionar o azar filho da puta que se abateu sobre o time na forma de contusões em série durante 2017. Um azar que, lamentavelmente, não se pode atribuir a este ou aquele pé-frio, seja dirigente ou jogador. Esse azar é coletivo, compartilhado igualmente por todos por ele atingidos. Mas a incontestável falta de sorte rubro-negra não encobre o verdadeiro motivo que originou a dramática atmosfera em que o Flamengo vive o final daquele que deveria ser o seu ano mágico: a evidente incompetência do Departamento de Futebol em entregar o que prometeu. O planejamento da temporada, a montagem do elenco, a relação com a imprensa, com a CBF, FERJ, AMALEBLON e com a torcida foram desastrosos.

É verdade que são poucos os planejamentos no mundo capazes de aguentar 2 frangos do goleiro no mesmo jogo, mas o simples fato do frangueiro contumaz ainda estar sendo escalado nas partidas mais decisivas do ano por absoluta falta de substitutos aptos denota o quão falha foi a montagem do elenco. Com o agravante para seus executores de ser público e notório o fato de que ao Flamengo não faltaram recursos na hora de ir às compras. Dinheiro houve, dinheiro houve. Gastou-se muito e gastou-se mal, vacilada típica do nouveau-riche.

Foi justamente a argentária ilusão de que bastava o saldo positivo na conta bancária para que o Flamengo dominasse o país, o continente e o mundo o principal combustível da devastadora desilusão que prostrou a maior torcida do Brasil. É até um pouco surpreendente que a cascuda torcida do Flamengo tenha caído nesse conto do vigário mais uma vez. Pisamos nessa casca de banana em 1995 com a chegada de Romário, Branco e Edmundo e as famosas engenharias financeiras que prometiam o milagre de trazer grandes jogadores para o Flamengo com o mítico “custo zero” e culminaram em uma temporada catástrofe onde o Flamengo só conseguiu ser campeão no Remo e no Basquete. Uma aventura inequecível cujo carnê ainda estamos pagando.

E poucos anos depois fomos iludidos pela lenda dos recursos infinitos da ISL, uma falcatrua internacional de grande calado que trouxe para treinar na Gávea, nem sempre com muito assiduidade, uma plêiade de jogadores de grande renome e nenhum compromisso com o clube. Mesmo sendo usado como um estúpido laranja por cambalacheiros sem nenhum escrúpulo, antes da casa cair o Flamengo conquistou um Tricampeonato Carioca e uma Copa dos Campeões. Glórias permanentes, é verdade, mas que decididamente não compensaram a decepção de um período que ficará marcado para posteridade pela pensata vampetiana “O Flamengo finge que paga e os jogadores fingem que jogam” e pelo presidente da época saindo de cena em um camburão. Maldita seja a International Sports and Leisure e seus tentáculos que ainda não foram em cana.

A dois parágrafos escrevi que era surpreendente que a torcida do Flamengo, com sua pátina de 122 anos de bons serviços, ainda caísse nessas lorotas, mas pensando melhor, nada mais natural que isto tenha acontecido mais uma vez. A torcida do Flamengo, sabidamente a mais inteligente do Brasil, não deixa de ser uma multidão. E toda multidão, não importando quantos PHDs alinhe em suas hostes, tem a inteligência e o discernimento de uma criança de 3 anos. Quando em comunhão rubro-negra os céticos acreditam em Papai Noel, os ateus imploram por graças de São Judas e os religiosos percebem a marca de Deus até nas caneladas de indisfarçáveis perebas. Portanto, enquanto torcida estamos perdoados pela otarice recorrente.

O que é, sim, surpreendente, é que homens adultos, designados para comandar os destinos do Flamengo segundo a razão e o bom senso, tenham também se deixado iludir pela ideia de que a mera ação gravitacional de nossa balança de pagamentos positiva seria suficiente para atrair taças e títulos para as galerias de troféus da Gávea. É bastante possível que Bandeira e seus vice-presidentes discordem veementemente de tal afirmação, mas na falta de elementos mais sólidos para análise, o que resta ao torcedor na hora de buscar culpados é se fiar no que a mídia lhe oferece.

E a história que a mídia tem contado, e até agora sem contestação oficial do clube, é que sob o comando de Bandeira e Rodrigo Caetano, e com a participação do CEO Fred Luz, se instalou no departamento de Futebol do Flamengo a absoluta certeza de que o trabalho vinha sendo feito da melhor maneira possível e que não demandava qualquer correção. Ainda que os decepcionantes resultados que se acumulam desde o primeiro semestre mostrassem exatamente o contrário. A imagem que se pretendeu passar foi a de segurança, confiança em um projeto para o futebol, mas a impressão que ficou foi a de arrogância.

Para piorar o enredo, o Flamengo, na figura do presidente, meteu o infeliz discurso de proteção aos jogadores antagonizados pela torcida. O que provavelmente foi pensado como uma ação motivacional, uma rede de segurança para o elenco, revelou-se um tiro no pé. Que causou uma ferida que nunca se cicatrizou, porque os ditos protegidos entregaram a rapadura vezes sem fim durante a temporada. Confirmando para quase todos o pior entendimento possível do discurso. Onde pensavam que estavam escrevendo tolerância e fechamento com o grupo a torcida leu conivência com a perebagem. Comunicação não é o que você diz, é o que os outros entendem.

Para a próxima temporada as mudanças na estrutura do futebol do Flamengo são inevitáveis. Mas as mudanças que poderiam ter sido feitas de maneira gradual e equilibrada em um ano eleitoral que costuma trazer grande instabilidade à equipe, agora serão forçosamente traumáticas. Contratos, projetos, parcerias, alianças e compromissos serão obrigatoriamente revistos, ainda que o Flamengo conquiste a Sulamericana. Uma conquista cada vez mais improvável diante dos últimos acontecimentos.

Todo os torcedores felizes são parecidos; os infelizes são infelizes cada um a sua maneira. A minha infelicidade não é por pensar que 2017 foi jogado fora. Hoje estou infeliz porque não consigo antever as mudanças radicais que precisam ser feitas para que 2018 não seja a mesma droga.

Mengão Sempre

Urublog, o Blog do Torcedor do Flamengo liderada por Arthur Muhlenberg.

Comments

  1. Alexandre Alan Medina

    Parabéns pela brilhante crônica, Arthur!

    A solução é o Márcio Braga de novo como presida (nem que seja de Rainha da Inglaterra), o careca na gestão financeira, e qualquer cone no lugar do Rodrigo Caetano, o Muralha dos diretores de futebol remunerados… :/

  2. Marcio

    De fato o Rodrigo Caetano é uma tremenda decepção! Se o Fla não for nem pra pré Libertadores, nem um real a mais deveria ser confiado a esse cara. E 2018 provavelmente será ano de montar um time barato (já que só vai jogar o 1°semestre dentro do RJ), entregar o CT e passar logo o bastão. Pior é que será obrigação ganhar o decadente Carioquinha só pra não ser zoado pelo Vasco ou Botafogo, times possivelmente na Libertadores, porque estão certos do tropeço do Fla diante o Vitória. E com razão!
    Só nos resta torcer! Mas tá com cara de que, além da presepadas citadas pelo Arthur, repetiremos o ano de 2008, quando estávamos sob o comando de Caio Jr. Lembram??? SRN

  3. Ap Assis

    Um injustiçado. Como é difícil alguém realmente digno e merecedor de reconhecimento ter espaço no Flamengo… Finalmente, César terá oportunidade de evidenciar seu nome na história do Clube participando da conquista de nosso primeiro título internacional no novo milênio.

    Certa vez, disse Jesus: “Dai, pois, a Cesar o que é de Cesar, e a Deus o que é de Deus” (Mateus 22:21) #PalavrasdaSalvação #AveCesar #SRN

  4. Bruno Ottoni

    Grande Arthur, na mosca como sempre.

    Em termos de infelicidade, realmente esse ano pode até não ser o maior de todos, mas em termos de decepção sim. Apesar de parecidos os termos não são sinônimos. No primeiro semestre teve um ponto em que fomos felizes, campeões invictos do ex-regional mais charmoso do Brasil, em uma final vencida em cima do rival que nos derrotou no centenário das expectativas em 1995. Nossa infelicidade portanto, começa a surgir da decepção trazida no último jogo da fase de grupos da Libertadores.

    Nossas “altíssimas expectativas” não combinaram com a pau molescência do time em terras e campos estrangeiros e de rivais nacionais. Time que não ganha fora de casa não levanta título de torneio mata-mata. Mas, de eliminações e twitters raivosos, a magnética foi sendo adocicada por contratações bombásticas feitas pelo nosso “competentíssimo” Departamento de Futebol. No estilo ‘onde a Arena vai mal, um time no Nacional’. No nosso caso, a cada decepção mais uma contratação, para acalmar os tuiteiros mais assíduos.

    O fato é que Bandeira et caterva naufragaram estrondosamente logo após nosso Ex-VP de futebol Flavio Godinho se ausentar para passar um retiro forçado no SPA em Gericinó. Ao invés de aproveitar a oportunidade para reformular as coisas e calçar as sandálias da humildade, o irascível Mr. Flag resolveu declarar em alto e bom tom que “L’État c’est moi” e, se os falsos rubro-negros não gostassem, que comessem brioches, ou se contentassem com Geuvânios, Rhodolfos, Évertons e sucedâneos às baldadas.

    E assim, lá se foi a magnética abraçar essa nova versão da SeleFla, Time dos Sonhos, balancetes em azul, recordes de seguidores no instagram, comercial dos nossos players à moda Europa e outras estultices alheias aos relvados verdejantes onde a pelota rola.
    Arrogância não ficou só na impressão. Nosso pequeno Napoleão azul enraiveceu de ser cobrado pela torcida nos estádios em que pagávamos mico, vez sim, outra também. Sem saber que estava a cuspir na cara daqueles que justamente bancavam seus sonhos de um time de Excel perfeito. Tropeçou na soberba ao eleger como protegidos os mais incompetentes, apartando-se definitivamente da noção do que é o futebol bem jogado, artigo tão desejado pelos torcedores carentes de resultados, bom futebol e raça em campo.

    Como bom otário, não perdi a esperança. Acredito na mística de um título redentor, no apagar das luzes desse ano azarado. Mas, não para salvar essa diretoria de suas presepadas, pois como bem disse, as mudanças na estrutura do futebol virão de qualquer jeito, e sim para nossa torcida, pela honra do clube e por um 2018 decente, disputando o título continental para valer e não como coadjuvantes de uma ópera bufa.

    Permaneço decepcionado, mas feliz em saber que minha tristeza é pequena, pois dividida por milhões, pior seria se imaginasse que os donos do poder perpetuariam suas sandices além de 2018, Isso Aqui é Flamengo, e pelo menos nossas urnas ainda não foram confiscadas pelo Ministério Público…

    Saudações Rubro-Negras!

    Seremos campeões!