Desde que a sociedade brasileira se dividiu entre coxinhas e pães com mortadela, a palavra “narrativa” entrou na moda. Montar um discurso para se provar um ponto é a onda do momento. Se tanto o discurso quanto o ponto são equivocados/mentirosos, tanto faz.

No futebol não poderia ser diferente. Aliás, narrativas são um fato comum no esporte mais popular do país há tempos. Hexas, clubes com 40 milhões de torcedores, sinas de vice-campeonatos, maiores do mundo, cheirinhos, “deixou chegar”, a excelência de advogados tricolores, etc, são exemplos bem conhecidos.

E pelo visto, já tentam construir uma narrativa para esse Brasileirão ainda na primeira rodada. E o mais afetado por ela será o Vasco. Vocês já devem ter percebido que falo do penal sofrido pelo atacante Rildo na virada sobre o Galo mineiro. Ainda que não seja algo orquestrado, a indignação geral criada pelo lance está à milhas de distância do que seria aceitável. E é isso que dá toda pinta de ser algo premeditado.

Mas como se está construindo essa narrativa? Vamos analisar ponto a ponto:

1) Pra início de conversa, a certeza absoluta de quase toda a imprensa de que não houve falta no lance é de um exagero enorme. Não há uma imagem da jogada que permita se chegar a uma conclusão tão absoluta. Pode não ter havido o toque por baixo, mas o zagueiro encostou o braço nas costas do Rildo. Se isso foi o bastante para derrubá-lo é outra questão. E, de qualquer forma, faria com que o lance dependesse de interpretação e fosse considerado, no máximo, duvidoso. Lances muito mais claros são marcados equivocadamente e não se faz todo esse estardalhaço.

2) A única opinião de um especialista (um comentarista de arbitragem) considerou o lance faltoso. Sálvio Espínola, da ESPN, afirmou que marcaria o penal depois de analisar o lance em câmera lenta. Foi ignorado pelos companheiros de programa e sua opinião não é citada nunca.

3) Muitos comentaristas estão comparando o lance sobre o Rildo com o erro grosseiro acontecido na partida entre Vitória e Flamengo, quando o árbitro, de frente pro lance, marca pênalti após a bola bater claramente no rosto do Everton Ribeiro e ainda expulsa o jogador. Qual é o sentido em comparar um lance de falta discutível com uma avaliação bizarra como essa? Isso só serve para uma coisa: fazer com que o pênalti marcado a favor do Vasco se equipare com uma falha grotesca da arbitragem. O que DEFINITIVAMENTE não é.

4) Quase toda a imprensa ignora solenemente uma penalidade CLARA sofrida pelo Pikachu no primeiro tempo. Claro, já que em São Januário, os erros de arbitragem só favorecem os donos da casa, não é mesmo?

5) Esmiuçar os atos passados do Rildo, alegando que o jogador é um notório cavador de penalidades e faltas e citar que ele nem deveria estar jogando por ter sido punido ao contundir o meia botafoguense João Paulo (ignorando o fato de que o efeito suspensivo é algo legal e foi decidido nos tribunais) é outra maneira de levar descrédito à decisão do árbitro em marcar a penalidade contra o Galo. Como se tudo isso tornasse impossível ao Rildo sofrer um pênalti de verdade.

A revolta moral de grande parte da imprensa esportiva, por si só já é uma amostra de que o discurso criado não é razoável. Houve comentarista pedindo que o Sindicato dos Jogadores tomasse uma atitude contra o Rildo, que na sua “desonestidade”, teria prejudicado o trabalho de todo um grupo de pais de família que trabalham pelo seu sustento! Se o Sindicato parasse seus afazeres para fazer notas de repúdio para cada pênalti cavado no Brasileiro, eles não fariam outra coisa na vida. Mas talvez, o que queiram é que todo penal polêmico marcado PARA O VASCO seja seguido de protestos veementes.

O que essa narrativa gera é o seguinte: o “pênalti mal marcado” passa a ser o fato relevante e ninguém precisa falar sobre a partida. O foco é no “mau-caratismo” do Rildo e na incompetência da arbitragem. E aí, o fato do Vasco ter massacrado o Atlético no segundo tempo e ter dominado amplamente a partida de um modo geral pode cair no esquecimento. Fica-se comprovado que, se o time do Zé Ricardo ganhou, isso só aconteceu porque um “erro claríssimo de arbitragem” tornou isso possível. E isso, claro, não pode passar em branco. Afinal de contas, em todo jogo que rola em São Januário os adversários do Vasco são prejudicados. E eis aí outra das narrativas antigas – e irreais – que já viraram lugar comum no futebol brasileiro.

Não se viu um furor tão grande contra os jogadores, e nem mesmo contra os erros de arbitragem, quando o Vasco perdeu um título brasileiro porque o mesmo árbitro ignorou dois pênaltis a nosso favor contra o mesmo adversário. Ou quando certo goleiro falou que “roubado é mais gostoso”. Ou quando uma falta cobrada entrou mais de meio metro no gol adversário e o juiz não validou o gol. Ou quando um título estadual foi conquistado com um gol em claro impedimento. E isso para ficar nos casos mais recentes. Se a imprensa esportiva quer posar de guardiã da moralidade, ok. Antes defender o jogo limpo que achar legal os jogadores espertinhos. Mas o que seria bom para variar é ver um tratamento imparcial quando se trata do Vasco.

JC Barbosa avatar

Com um pai flamenguista e uma mãe botafoguense, Julio Cesar "JC" Barbosa é a prova viva que ser vascaíno é predestinação, não imposição. Torcedor de estádio, tanto na Colina quanto no antigo Maraca (hoje Arena), escreve sobre o Gigante na internet desde 2007.