Cada torcedor constrói uma relação particular com seu clube de coração. Falarei brevemente sobre a minha. Sou tricolor desde que me entendo por gente devido à escolha feita pelo meu pai, o argentino Júlio, ao chegar ao Brasil e se deparar com a Máquina de Rivellino & Cia. Amor à primeira vista, para ele e para mim, posteriormente.

Eu ainda tinha 13 anos quando meu velho nos deixou precocemente. Minha mãe se desdobrou para ser “pãe”, mas contou com uma ajuda inestimável – e até inesperada. O Fluminense me ensinou muito naquele momento. Ganhar de boa, perder irritado, competir com fidalguia, prezar o coletivo e defender os companheiros, ser fiel afinal.

O Fluminense me criou o hábito de ler jornais e escrever sobre futebol, me deu uma profissão ao abrir as portas do gosto pelo jornalismo. Deixei de gastar a mesada com tantas tentações para comprar uma camisa oficial, para ir aos jogos. Pelo Flu, eu fingi malandragem para ir e voltar ao estádio sozinho com 13, 14 anos. Eu ainda brincava de super-herói e, colado ao alambrado, também xingava o lateral nas Laranjeiras, ao lado de adultos que hoje, todos nós homens feitos, são amigos – e agradeço pela paciência com aquela pulguinha que se julgava gente.

O Fluminense foi um pai. Um amigo. E me permitiu também conhecer irmãos que levarei para a vida inteira. E espero poder fazer o mesmo com meus filhos.

Pois bem, digo espero porque não sei se, quando chegar minha vez paterna, ainda teremos o Fluminense, ao menos da forma que meu pai conheceu e me ensinou a amar. Esse Fluminense está minguando.

Eu sou, por natureza, um otimista. Fiz discurso de maluco nas profundezas da lanterna em 2009. Nunca fui embora antes de acabar o jogo, por pior que seja o placar. Tenho certeza, e provo numa mesa de bar, que o Fluminense é maior que Real Madrid e Barcelona – juntos.

Mas quem comanda o Fluminense não acha nada disso, e meu medo é que eu já não consiga convencer meu filho dessa carta magna da minha existência.

Sozinho, infelizmente, não sei se vou conseguir.

Gostaria de estar falando de campo e bola, de escrever textos mais leves como habitualmente, mas esta semana me obriga a fazer diferente. O Fluminense simplesmente não entregou, no prazo, seu balanço financeiro atual.

O que fazem no clube, afinal, o VP de finanças, Diogo Bueno, e o CFO, Eduardo Paez? Fora os pitaqueiros de plantão, que tem voz ativa e se vendem como novo, embora de novo não tenham nada. Não conseguem entregar o básico – e obrigatório! Após publicação de matéria no portal UOL, divulgaram um papel de pão de fazer corar a quitanda da esquina.

– A gente acredita que eles serão, sim, compreensivos, pois veem que estamos dando demonstrações de boa fé e práticas de boa governança – disse Diego Bueno.

Podemos pedir compreensão ao professor por atrasar um trabalho; ao chefe por estar gripado; à esposa/marido por chegar tarde do botequim. Correr o risco de tirar o Fluminense do Profut, ficar à mercê de sanções gravíssimas e contar com a boa vontade do poder público não só é deboche, como é uma irresponsabilidade que, duvido, qualquer um deles tivesse em seus próprios negócios. Se eu tivesse a coragem de um Castilho, apostaria um dedo.

Do Conselho Fiscal nada espero, ao lembrar que seu último presidente, Pedro Abad, de mãos dadas com um Conselho Deliberativo pelego e comprometido por promessas de uma campanha mentirosa, aprovaram todos as contas calamitosas de Peter Siemsen.

Não vou encher o texto de números – o amigo leitor pode encontrá-los em diversos meios. Vou apenas ressaltar que a gestão Pedro Abad já conseguiu, em dois anos, um acúmulo de R$ 71 milhões de déficit (e com boa vontade). De um endividamento líquido total de R$ 560 milhões, segundo análise da “BDO Esporte Total”. Repito, em dois anos.

Farei aqui um aparte antipolitiqueiros.

Votei no Peter duas vezes, a primeira por convicção, a segunda por falta de opção (e me arrependo). Na última eleição, saí de casa, com febre, disposto a dar meu voto ao segundo colocado. Ao chegar lá e ver aquelas mesmas pessoas que fundaram o “Novo Fluminense” e afundaram o velho, desta vez divididos em subgrupos, cada um com sua camisa colorida como se fosse uma gincana de quermesse ou olimpíada escolar, dei meia volta e fui cuidar da saúde. Nada ali me representava.

Então, não me venham com groselhas do tipo “é post político, a eleição acabou”. É post sobre o futuro do Fluminense. Fecha parêntese.

Política é o Abad realizar campanha garantindo:

– Eu tenho orgulho de fazer parte dessa história. À frente do Conselho Fiscal do Fluminense, ajudei a equacionar as dívidas.

Ou, já como presidente:

– Ontem aprovamos por unanimidade o orçamento de 2017. Gestão transparente e responsável. Trabalho de excelência em conjunto com @EYNews.

Política é o Cacá Cardoso, quando ainda almejava a presidência pelo voto e não pela puxada de tapete, afirmar à Rádio Brasil:

– Eu tenho dois sonhos: Thiago Silva e Marcelo. É um sonho de consumo de Cacá Cardoso trazê-los de volta para Laranjeiras e conquistar títulos. Obviamente, de forma responsável. Isso é possível, viável e farei de tudo para que eles sejam apenas o começo de um grande time (…) Farei de tudo. Eu e as pessoas que estão comigo. São grandes tricolores, empresários, banqueiros e vamos buscar essas contratações a partir de 2017.

De boas intenções, a Série C está cheia. Desses discursos, só ficaram as dívidas e os juros dos amigos banqueiros. O papo inócuo – eufemismo para mentiroso – de austeridade já deu com os burros n’água. O dinheiro é pouco, e o ralo nas Laranjeiras é gigantesco.

Sei lá se ainda dá tempo de acertar o rumo – mas eu sou otimista. Chegamos a um cenário quase equivalente ao encontrado por David Fischel em 1999. O “quase” fica por conta da gigantesca vantagem de o clube estar na Série A. Ao assumir, o ex-presidente colocou todos os recursos no futebol. Fechou as demais torneiras. Nada de vôlei, basquete, peteca, botão.

É triste, lamentável, mas também necessário. Não apenas pelo dinheiro, como pelo esvaziamento do feudo chamado “Esportes Olímpicos”, que até hoje decide eleição e, por isso, é bajulado a cada três anos. O Fluminense precisa decidir se é um clube de futebol gigante ou uma ação entre amigos.

A continuar este cenário, se tornará hercúleo convencer qualquer garoto a levar o pavilhão adiante, mesmo que na base do amor paterno.

Lembro que, nos últimos dias do meu velho, em Buenos Aires, eu levava escondido um mil folhas de doce de leite para ele no hospital. Os médicos proibiam, e os enfermeiros fiscalizavam. Preocupado, perguntei à minha mãe se aquilo não faria mal a ele.

– Seu pai já não está bem. Não sabemos quanto tempo tem. Deixa ele ter uma alegria – ela me respondeu.

Uma vitória em clássico aqui, um título de turno ali, nada disso passa de um mil folhas de doce de leite que o Fluminense atual tenta nos dar, enquanto aguardamos todos pelo pior.

Pois não mais quero mil folhas de doce de leite. Chega.

Desta vez, espero deixarmos a UTI andando, de mãos dadas, de novo felizes: o Fluminense, nossos filhos tricolores e eu.

***

UM CLUBE ENFERRUJADO

O Fluminense está parado em suas mais diversas vertentes. Recebo a notícia de que a Flu Fest terá a Blitz como atração principal. Novamente. Particularmente, adoro a banda. Fui no último evento com ela nas Laranjeiras. Canto de trás para frente o caso de amor entre Arlindo Orlando e a Mariposa apaixonada de Guadalupe. Sempre que sou parado em uma blitz, penso: “Ué, só temos instrumentos”. Não houve vez na qual me pediram uma barata frita em que eu não tenha respondido: “Ok, você venceu, batata frita”.

Mas não dá, rapaziada…

Antes, o Flu parecia preso em um Feitiço do Tempo dos anos 50, em bailes com toda aquela pompa que hoje é apenas brega. Agora, vive eternamente nos anos 80. Já se pode imaginar que, no próximo ano, o convidado será o Paulo Ricardo e, em 2020, no novo tempo, apesar dos perigos, o Ivan Lins, num looping eterno.

É preciso querer renovar as Laranjeiras, trazer os jovens para a vida social do clube. Aparentemente, o Flu e eu achamos que o Ferrugem é um garotinho-propaganda de antigamente. Fui informado, porém, que se trata um pagodeiro de enorme sucesso, tricolor de arquibancada e com interesse em se apresentar no evento.

Deve dar medo, sei lá. O Fluminense é historicamente provinciano. Gestões anteriores perderam terrenos gigantescos na Barra da Tijuca capazes de fazer inveja à “Carvalho Hosken”, abriram mão do Iate Clube e entregaram o Morro da Viúva ao Flamengo porque, ora, Laranjeiras era mais que suficiente.

Lamentavelmente, isso está no DNA de parte do clube, essa vontade incrível de ser um clube de bairro. O Fluminense ter virado o gigante que virou no futebol é quase um milagre, o que só ratifica a vocação para a glória e para a eternidade.

Felizmente, “estamos crescidos, estamos atentos, estamos mais vivos, pra nos socorrer”.

– Sobre o empate com o São Paulo: mais do mesmo. Houvesse o apitador dado o pênalti evidente mais cedo, e o Flu poderia ter virado, mesmo com a pouca qualidade que tem para chegar ao gol adversário.

– Incrível o contorcionismo que alguns comentaristas de arbitragem fazem para defender seus colegas na ativa. Mesmo que se desdigam na transmissão seguinte. Por isso fico na dúvida do VAR. Se os caras “erram” até com o replay, de que serve afinal o recurso?

– Jogadores do São Paulo fizeram cera desde o primeiro tempo. Temi pela vida de um rapaz são-paulino. Pensei ter sido uma bala perdida, de fuzil, vinda da Mangueira. Mas foi só um “susto”, ufa. Pedi mais uma cerveja para acompanhar, claro, mais oito minutos de futebol. Coerente. E o juiz só deu quatro…

– A bicicleta do Pablo Dyego e a bomba do Léo já seriam, hoje, candidatas ao Prêmio Puskas da Fifa. Urge o Inmetro medir as balizas do Maracanã. Claramente estão um palmo mais baixas do que a altura oficial.

– Renato Chaves defendeu sua titularidade dizendo: “Meus números não mentem”. É verdade. Em dois Cariocas, entregou ambos. Um número e tanto: 100%.

– Mas, por falar em zaga… Depois do Marcelinho das Arábias, surge Nathan Ribeiro do Qatar, 27 anos, quase uma década por lá. Houve quem pensasse se tratar de uma ação com sócios. No entanto, era realmente um reforço.

– Como diz um amigo, “saudade do tempo em que eu não precisava entrar no Youtube para saber quem o Fluminense estava contratando.

– Para fechar, o time do meu pai na Argentina, e meu também, é o Platense. O Calamar foi campeão da Primeira B Metropolitana ontem à noite na prorrogação e, com isso, volta à divisão de acesso após oito anos. O mais legal? A torcida grita: “TEEEEEEEEEEEEEEEEEEENSEEEEEEEEEEEEEEEEEE!”.

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Jornalista e pitaqueiro, andou metendo o bedelho no GloboEsporte.com, LANCE! e no balcão mais próximo.