E lá vai o Fluminense morro acima fazer o jogo na maior altitude de sua história, como bem escreveu o João Bolt na última quarta-feira. No meio da crise do gás na Bolívia, o Tricolor busca seu próprio gás a quatro mil metros de altura para defender os 3 a 0 da ida contra o Nacional Potosí. Até seria um placar confortável, caso existisse conforto no Everest.

Porém, como desgraça pouca é bobagem em se tratando de Fluminense na altitude, a Conmebol confirmou a partida apenas quando a delegação já estava no meio do caminho, em uma logística pra lá de complicada. O time saiu do Rio sem saber se efetivamente entraria em campo, em virtude de protestos locais.

O diretor de futebol, Paulo Autuori, reclamou:

– Não podemos aceitar tranquilamente essas mudanças.

Paulo, vem cá, senta aqui, meu amigo, você chegou ontem.

O que Autuori não sabe é que, no Fluminense, tão tradicional quanto vitral francês, entrar em campo de bandeira em punho, e ganhar Fla-Flu decisivo, é aceitar tranquilamente passadas para trás, sob um falso pretexto de fidalguia – se é que ainda tentam emplacar tal arenga.

Vejam o Maracanã. Enquanto o Fluminense considera o Flamengo um parceiro, o coirmão não vê a hora de puxar o tapete e ficar, sozinho, com o estádio reformado por dinheiro público, às custas de banquetes servidos em propinas, para chamar de seu.

O Fluminense nasceu com a vocação da eternidade e desenvolveu, de algumas décadas para cá, também a vocação de ser passado para trás.

Verdade que tal fato já vem desde antes das desastradas gestões Peter/Abad. O último suspiro de respeito nas Laranjeiras, olhando de fora para dentro, ocorreu com o presidente Manoel Schwartz. De lá para cá, é possível escrever uma Enciclopédia Barsa sobre as tantas ocasiões em que o Fluminense não se impôs minimamente.

A gestão Abad apenas toca o barco da forma que o recebeu, incapaz que é de mudar a direção das velas. Há duas semanas, o atual presidente votou a favor da reeleição de Rubens Lopes na Ferj.

Não obstante Rubinho fazer pouco caso da instituição sempre que pode e, apenas para citar o último caso, ter feito o Flu estrear no Carioca com equipe reserva no dia em que chegou da Flórida Cup – enquanto para seus aliados, tudo é permitido. Sim, o clube contou com o ovo da galinha quando não deveria. Mas perceba que incrível relação…

– Há coisas para ajeitar, mas o Campeonato Carioca tem melhorado – afirmou Abad, após o pleito.

Minha garganta tem melhorado. O chope do Bar do Serafim tem melhorado. O calor no Rio tem melhorado. A relação entre a Coreia do Norte e do Sul tem melhorado. Isso é melhora. Como, quando e em que circunstância o falido Campeonato Carioca tem melhorado?

Seria o caso de trocar o assessor de imprensa do clube por um judoca, que, no meio da frase, aplicasse um koshiguruma e, neste ato de heroica bravura em prol do Fluminense, impedisse o presidente de terminar tal oração – porque, nem com oração a João de Deus, ela é minimamente aceitável.

Respiro (sem altitude). Retomo.

Tenho um amigo que, lá pelos idos dos anos 90, ainda bem jovem, se meteu a ser representante de um abandonado Botafogo na Federação do Rio. No dia do arbitral, para a confecção da tabela, apenas Eurico Miranda, como de praxe, levou uma já pronta – o Fluminense não era o único que abaixava a cabeça para o ex-presidente do Vasco e o nada saudoso Caixa D’Água.

– Alguém mais tem uma tabela para apresentar? – pergunta o presidente da Ferj, apenas para constar.

Eis que este amigo, lá do fundão do auditório, levanta a mão. Surpresa geral.

– A minha tabela é igual à do Eurico. Só que ao contrário – disparou.

Burburinho, bafafá, um barata-voa danado. Após votação, o resultado óbvio: passou a tabela do Eurico. Ao fim da sessão, o prócer vascaíno, discretamente, lhe deu os parabéns pela inesperada coragem. Ele, ao menos, havia tentado.

E isso me mata. O Fluminense não tenta, não se impõe. Basta ver o começo do Campeonato Brasileiro. Pela sequência inicial, com quatro clássicos (Corinthians, Cruzeiro, São Paulo e Botafogo), fora o difícil jogo contra o Vitória no Barradão, não seria impensável que este frágil Flu já estivesse na zona de rebaixamento (méritos do time e do Abel).

Uso como contraponto o Flamengo (com uma consideração ao fim), que enfileirou três times chegados da Série B  – incluindo o Inter -, além do Vitória fora. Todos jogam contra todos, mas é inocente dizer que uma boa ou uma má sequência no começo não tem grande chance de ser decisiva para o restante do campeonato, seja criando uma espiral positiva, seja gerando uma crise, demissão de técnico e protestos da torcida.

Essa tabela não foi feita ao acaso, em modo randômico ou de acordo com os búzios. Convenhamos.

Minha consideração é que, ao contrário de muitos tricolores que apontam um benefício, eu só posso bater palmas para o Flamengo neste ponto.

Se eles sabem usar seu tamanho para pressionar politicamente, estão certíssimos. Se eles têm por trás o interesse de quem promove o Brasileirão, então que se brigue contra a TV, CBF ou seja lá quem for por uma equidade maior. O Fla não tem nada com isso.

E o Fluminense, vai fazer o que a respeito?

Xingar e bloquear desafetos no Twitter não vai adiantar.

QUEBRANDO O GELO

Para hoje, o cardápio está posto, e conhecemos bem. É dia de altitude e atitude, ao menos dentro de campo. Não será fácil.

Lembro-me de quando estive em Valle Nevado, no Chile, a 2.860 metros. Ao chegar à estação de esqui, subi uns degraus e, no topo, já tinha menos ar que o Rocky na escadaria da Filadélfia. Não satisfeito, dei um pique na neve fofa e, em pouco tempo, estava cuspindo alvéolos.

Para finalizar o terceiro erro e pedir música no Fantástico, resolvi fazer uma cena romântica. Peguei uma bola de neve e taquei na digníssima, esperando aquele desmanche branco e bonito de filme.

– AAAAAAAAAAAIIIIIIIII, $%&*%$@!!!!!!!

Foi realmente cinematográfico. Débi & Lóide. A bola de neve na verdade era de gelo, e desconfio que o roxo ainda esteja na perna dela.

Não sou atleta nem quero colocar medo em nossos jogadores com esta breve e desastrada experiência. Joguem a bola certa e vai dar tudo certo. Assim como contra a – argh – LDU da última vez, desceremos a pirambeira com a vaga.

***

Diz meu amigo Cid Benjamin, em seu fantástico livro “Gracias a La Vida” (leiam!), que até relógio parado duas vezes por dia está certo. Estou de acordo com meu estimado judoca e estendo a lógica para a gestão Pedro Abad. Estreio aqui uma seção de elogio, e espero que ela esteja presente toda semana – embora não possa garantir, não depende de mim.

Em parceria com a Secretaria de Esportes e o Departamento Geral de Ações Socioeducativas (Degase), o Fluminense terá uma escolinha de vôlei feminino na Ilha do Governador para ajudar a recuperar menores infratores, entre 12 e 18 anos. Serão mais de 50 meninas assistidas (veja aqui). A cracaça-aça-aça Sassá está na jogada.

É esse Fluminense que me enche de orgulho.

– O pessoal do Flu entrou em contato comigo sobre a questão do Ferrugem na Flu Fest. Ele teria sido procurado, após uma aproximação que já vem acontecendo há tempos, mas uma incompatibilidade de agenda impediu o acerto para este ano. É possível. Acontece. O mais importante é que concordamos que o Fluminense precisa rejuvenescer de dentro para fora. Como confio no interlocutor, fico relativamente tranquilo de que, ao menos, existe o diagnóstico e a vontade de atacar o problema. Vamos ver em 2019.

– Vitória sofrida e merecida contra o rubro-negro baiano. Belíssima atuação do Gilberto. Com três zagueiros, o lateral-direito vem repetindo as boas atuações de seu começo de carreira, no Botafogo.

– Sou dos poucos que defendem o Marcos Júnior, mas, neste momento, ele não está funcionando. É hora de tentar algo diferente na criação. O diabo mora nas raríssimas opções.

– Nathan Ribeiro até que estreou bem. Mas me preocupa esse processo de o jogador chegar e já ir a campo na rodada seguinte (João Carlos, Luan Peres, Nathan…). Contratamos alguém esta semana e não sei?

– É uma pena o futebol carioca estar enveredando para o modelo de clássico com torcida 90/10%, como será contra o Botafogo, clássico bizarramente marcado para a próxima segunda-feira. É um caminho sem volta.

– Na sequência, teremos Chapecoense e Atlético-PR no Maracanã. A torcida precisa chegar ainda mais junto. São jogos fundamentais, apesar dos pesares. Todos ao Maraca!

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Jornalista e pitaqueiro, andou metendo o bedelho no GloboEsporte.com, LANCE! e no balcão mais próximo.