Talvez, talvez não, com certeza eu não sou a melhor pessoa pra escrever depois de uma classificação dramática como a que aconteceu na quinta-feira.

Quem lê meus textos e me conhece sabe que eu acredito zero nesse negócio de heroísmo, alma e essas subjetividades que assolam o mundo do futebol.

Ninguém diz que os grandes times têm alma.

Real Madrid, Barcelona, City e, por aqui, o excelente Grêmio quando analisados, encontramos tantos aspectos positivos que alma e vontade de vencer sequer são citados.

O primeiro ensinamento de Guardiola a seu grupo de jogadores, assim que chegou ao Bayern, foi relacionado à tal “alma”. Disse ele, que assim que o time perdesse a bola, todos deveriam correr para recuperá-la e que quem não o fizesse estaria fora.

Sabem por que? Porque alma, vontade de vencer, garra, tesão ou qualquer coisa que se assemelhe a isso são características básicas, que qualquer time possui pra vencer seus jogos.

Coloquem no futebol profissional um time com vontade de ganhar e, do outro lado, um outro que está, cagando e andando pro jogo, e o primeiro vai ganhar sempre, simplesmente porque querer ganhar, correr, lutar por isso, quase todos fazem.

Dito isso e agora voltando ao Fluminense, objeto da nossa análise por aqui, tenho dois sentimentos sobre o que vem acontecendo: Extrema preocupação e sentimento de injustiça.

Explico.

Fico muito preocupado quando percebo que a única coisa que se vê de bom nesse time do Abel seja o que foi relatado acima: Alma e vontade de vencer.

E acho uma grande injustiça com um treinador (qualquer deles) que prepara seu time, pensa num modelo de jogo, treina pra executá-lo e quando ganha seus jogos, todo mundo só consegue enxergar vontade de vencer.

Gostando ou não, o Fluminense de Abel tem um padrão, que foi inclusive completamente alterado de 2017 pra 2018, como se fossem 2 treinadores diferentes.

Eu odeio o modelo do Fluminense do Abel. Não pelos 3 zagueiros, porque já sugeri linha de 3 atrás, mas porque acho que ele não funciona.

Acho que o sufoco de Potosi nasceu da péssima partida que o Fluminense fez no Maracanã, quando só conseguiu golear um time mediano do péssimo futebol boliviano por 3 a 0 e mesmo assim quando ficaram com 1 a menos (ali estava apenas 1 a 0).

E a péssima partida do Fluminense no Maracanã, assim como outras na temporada (o Flu caiu na carioca e já caiu na Copa do Brasil) são resultado não do modelo, mas das escolhas que Abel faz pra jogar assim.

Um time sempre vai ter dificuldade pra jogar bola quando, entre seus jogadores que mais pegam na bola estão o Richard e o Renato Chaves.

Com linha de três atrás, pra atacar o adversário de forma contundente há 2 opções pra preencher o meio, que em tese possui apenas 3 jogadores:

1 – Fechar os laterais pra eles ajudarem na armação, o que seria um pecado com Gilberto e Ayrton

2 – Subir os zagueiros de lado pra se juntar ao meio campo, que é a escolha do Abel, mas que quem executa é o Renato Chaves.

É difícil dar certo.

O Fluminense, hoje, é um dos times que menos finaliza no campeonato e também um dos que menos desarma

Por outro lado, é necessário reconhecer, mesmo detestando a forma como esse Fluminense joga que há virtudes.

Se a gente pegar os 5 momentos do jogo de futebol: Ataque, defesa, transição ofensiva, transição defensiva e bola parada, o Fluminense é muito forte em 2 deles: Defesa e bola parada.

A transição defensiva também não é problema porque é um time postado que sofre poucos contra-ataques.

O ataque é muito ruim e a transição ofensiva sofre porque a bola é sempre roubada muito atrás, o que dificulta esse tipo de ação.

Mas esse time bem postado resulta em bons números defensivos: Somos um dos times que menos sofre finalizações e que mais intercepta jogadas no campeonato brasileiro.

Reflexo claro de parte do modelo que é bem executado.

E a bola parada, hoje, do Fluminense é excelente. E é um momento em que, por mais que se treine, se dedique, dificilmente um time consegue anular completamente esse tipo de jogada.

Portanto, é muito bom ser forte nela.

Voltando a Potosi.

É impossível analisar um jogo a 4 mil metros.

Mas eu vou finalizar meu texto hoje usando um fato ocorrido no jogo lá e que pode servir de exemplo pra melhoria do modelo como um todo.

O Potosi atacou demais e teve grandes chances no espaço deixado entre Ayrton e Frazan.

Depois de várias chances criadas por ali, Frazan larga a linha defensiva que fecha o passe (lembram do modelo explicado de time bem postado que fecha linhas de passe?) e os caras acham o Reina livre pro primeiro gol e início do sufoco.

Repare que o erro de Frazan não é técnico. É de posicionamento, inteligência coletiva.

Foram vários ao longo do jogo.

Abel intervém de maneira precisa. Inverte o Frazan e o Renato Chaves e mata a jogada deles.

A partir do segundo gol, o Fluminense até cria chances de matar o jogo e perde.

E aí a pergunta:

Por que esperar tomar um gol pra tomar essa atitude?

Não é muito melhor acertar os erros quando se vence?

E isso vale pro modelo:

O Fluminense hoje é o sétimo colocado no campeonato.

Joga 3 jogos no Rio.

Que tal trabalhar em cima do que não está funcionando, emplacar uns 7 pontos e buscar a ponta?

Tabelinha

– Muito legal homenagear o time no Aeroporto. Foi uma classificação dura, sofrida, num ambiente bastante hostil. Merecem!

– O CEO do vôlei foi embora. Mais uma vez os politiqueiros estavam com razão. Serve pra nada, sabe nada de bola e levou uma grana boa do Fluminense.

– Que Autuori seja o próximo. O modelo é centralizado na figura do Abel. Vamos cortar custos.

 

 

 

Dedé Moreira avatar

Blog do torcedor do flu no Globoesporte, Futebolzinho.com. Gestão Técnica de Futebol e Análise de Desempenho pela Universidade do Futebol.