Futebol parado, empresários e jogadores cavando e gerando notícia, torcedores em expectativa por seus novos times, nada melhor do que ajudar a contar a história do futebol, inclusive corrigindo e segregando realidade e fantasia, de preferência gerando alguma polêmica. Pra mim é pura diversão. Então vamos juntos:
_____________

Era o dia 05 de dezembro e o domingo começou como esperávamos naquele verão de 1976: calor, sol e, apesar de já passar a semana inteira no Fluminense e no colégio batendo uma bola ou uma chapinha de guaraná, ainda sobrava ansiedade pela pelada sem vergonha promovida pelo meu pai e amigos do Catete no Aterro do Flamengo.

Campos de pelada? Nada. Os famosos 8 campos de pelada do Aterro, apesar de na época ainda não serem explorados por vagabundos, só eram acessíveis entrando numa fila homérica para pegar permissão, que normalmente era só de duas horas e só tinha pros horários que ninguém queria. Em se tratando de Pindorama, claro, havia taxas de urgência e “pistolões” para conseguir, mas isto estava fora de cogitação.

Enfim, jogávamos mesmo num espaço de grama arborizado que existia em frente ao famosíssimo Belmonte original. Sim, ele já existia nesta época, a rede estava longe de ser imaginada e vir a ser o sucesso que é e, se não me engano, já era do meu xará, que estava lá no balcão todo domingo.

A qualidade da pelada era terrível, mas eu gostava de ir porque lá, além de ser café-com-leite no meio da “velharada” (assim pensava na época, hoje entendo como todos eram jovens como sou hoje), fazia gol pra caramba entre as traves formadas por árvores e cotocos de tubo de PVC e, no final, rolava um grapette nas barraquinhas ou uma água com gás no próprio Belmonte, commodities absolutamente raras pelas possibilidades e até pelas características sociais da época, onde as pessoas comiam comida e bebiam água.

Já tínhamos nos decidido por ir ao Maracanã (eu e meu pai) na véspera. E ao sairmos para a pelada matinal descemos, como de hábito, a Silveira Martins em direção à praia. Ao chegarmos nela nos deparamos com o Hotel Novo Mundo e nos assustamos com a quantidade de gente, bandeiras e de ônibus estacionados na Rua do Rússel. Curiosidade incentivada, nos aproximamos e vimos que se tratavam de corinthianos, uns que já haviam chegado pela noite de sábado e outros que ainda estavam chegando. A grande maioria, dentro de ônibus, que de relance assim lembro de ter contado uma meia dúzia.

Minha primeira de uma série de decisões erradas naquele dia foi gritar “NENSE!!” ao chegar mais perto … fui recebido com vaias homéricas e impropérios que vieram a juntar gente ao redor para defender e questionar o porquê de tantas grosserias com um garotinho que só estava falando bobagem no lugar errado e na hora errada. Meu pai, sabiamente, deixou o tumulto que estava prestes a se iniciar e me puxou para seguirmos o nosso caminho.

E dali da Silveira Martins até a Tucuman, por dentro do Aterro, o cenário era o mesmo, muita gente, camisa e bandeira corinthiana.

O Corinthians, durante toda a década de 1960 e até então, era considerado um faz-me-rir do futebol paulista, mesmo tendo uma torcida esmagadoramente maior no estado. Na década de 1960 e começo de 1970, na era Pelé, era humilhado permanentemente pelo Santos e não conseguia ganhar nada, nem os torneios de verão tipo Rio x SP.

Esta situação já persistia desde 1954, última vez que o Corinthians havia ganho um título paulista. Com a entrada do Vicente Matheus e com as performances de Rivelino (com um “l” só que foi como conheci e pra mim um dos top 10 da história do futebol), ia tendo um começo de década de 1970 promissor, até que, na final do paulista de 1974, perdeu para o Palmeiras a esperada chance de ser campeão e sair da fila.

Rivelino, apesar do Corinthians ter outros jogadores de destaque como o lateral Zé Maria, este inclusive titular do Brasil na copa do mesmo ano, foi promovido a culpado pela torcida e não teve muita boa vontade da diretoria (o próprio Matheus) no sentido de defendê-lo.

Francisco Horta tinha assumido a presidência do Fluminense em 30 janeiro de 1975 e era (é) um juiz vaidoso e que nitidamente tinha na sua visão de gestão transformar o futebol em espetáculo. Já na sua campanha deixava claro que sua idéia era fazer um grande time e transformar o futebol carioca num futebol mais rentável, com grandes bilheterias e, é claro, com o Fluminense como grande protagonista, pelo menos no discurso.

Acompanhou de perto esta situação e, dada a oportunidade, foi a SP trazer Rivelino para o Fluminense, que estreou no sábado de carnaval de 1975, com um amistoso entre o Flu e Corinthians no Rio para quase 100 mil torcedores no Maracanã. Rivelino fez três gols no 4 x 1.

– Ora bolas, Antônio, e o que tem a ver com a semifinal de 1976?

Parece que nada, não é? Mas tem tudo a ver:

A transação por Rivelino foi a maior da história do futebol brasileiro até então, cerca de Cr$ 3 milhões. Muito se diz que Horta só trouxe Rivelino por que levou um lindo buquê de rosas para a esposa dele, que estava resistente em vir morar no Rio, mas a verdade é que foi um grande negócio para todos, principalmente para Matheus, que tinha um problema com a torcida e precisava de dinheiro.

Isto tornou estes dois presidentes muito próximos.

Voltando para o Horta, um cara com visões megalômanas, tudo era o espetáculo. Montou um Fluminense fortíssimo com Rivelino em 1975, trazendo outros medalhões campeões de 1970, como o próprio Paulo Cesar, venceu o carioca de 1975 e chegou a semifinal do brasileiro, sendo eliminado pelo excepcional Internacional. E entendeu que para fazer o espetáculo tinha que haver equilíbrio e força entre as equipes. Daí promoveu já para 1976 o primeiro dos famosos troca-trocas em que o Fluminense dava jogadores em alta e recebia em baixa.

Aquele time de 1976, mesmo recebendo jogadores considerados acabados, como Doval e Rodrigues Neto, ainda se tornou mais forte que o de 1975, vindo a ser bicampeão carioca.

Depois, em 1977, fez o que fez e é história para uma outra coluna …

O Corinthians, por sua vez, com dinheiro, muito dele recebido pelo passe de Rivelino, montou um time forte que foi extremamente regular no campeonato.

E então se deu a oportunidade de jogarem uma semifinal, um jogo realmente espetacular, que na época era feita em jogo único e que teve o Fluminense como mandante, no Maracanã, por ter sido o último jogo entre os dois em São Paulo.

Os dois presidentes, amigos, encontraram-se em Sampa e Horta propôs a divisão de ingressos, que garantiria um Maracanã super lotado e muita receita de TV (que na época pagava por jogo ao vivo transmitido). Matheus deve ter rido de orelha a orelha pelo fato de Horta estar abdicando da vantagem de jogar em casa somente com a sua torcida e teria prometido pagar a vista pela carga definida (dinheiro do Rivelino?), que nunca se soube exatamente qual foi, embora se fale em 50 mil ingressos entre arquibancadas e cadeiras, e nem se foi realmente pago desta forma.

A lenda diz que estes, em São Paulo, teriam sido vendidos antecipadamente em 3 horas, o que sabemos que até não é impossível, mas muito pouco provável e faz parte de toda a fantasia que foi criada a partir deste evento, que explicarei mais a frente.

No Rio, para nós torcedores, a rotina de sempre: bilheteria na hora de entrar. Não havia venda antecipada na maior parte das vezes. Algumas quantidades de ingresso iam para os clubes e abasteciam conselheiros e puxa-sacos, que compravam (alguns nem pagavam) em grandes quantidades, para fazerem média, usando o chapéu de suas agremiações com seus familiares, chefes etc.. Muitos abasteciam os cambistas, mas paro por aqui …

Entretanto, para aquele jogo, algum tipo de venda antecipada para tricolores ou massa de ingressos em cambistas deve ter havido e mais à frente vou explicar o porquê.

Assim sendo, passados a pelada da manhã levemente conturbada e o almoço corrido já em píco de ansiedade limítrofe, partimos para o Maracanã (Veja curiosidades sobre a ida ao Maracanã naquela época).

Ao chegarmos lá, por volta das 14:30, o susto.

Tudo era preto e branco ao redor. Vindos de São Paulo e com objetivo focado de ver a partida, torcedores aguentaram o calor de verão do Rio ao redor do estádio desde a manhã, muitos, inclusive, meio que acampados na bilheteria, provavelmente porque ficaram aguardando por muito tempo o início das vendas, ou seja, apesar da carga dita vendida em 3 horas em São Paulo, muitos vieram sem ingresso de lá.

Conseguidos os ingressos, fomos rapidamente pra dentro do Maracanã. Ao entrarmos nos anéis da arquibancada, o cenário era proporcional ao que víamos de fora. Cerca de 1/3 da metade reservada para o Corinthians tomada e a área do Fluminense praticamente vazia. Fazia muito sol e muito calor neste momento.

Pois bem, jogo sem preliminar, nada mais a fazer senão observar o movimento de torcidas e muita briga na divisa. Com a superioridade numérica inicial, a torcida do Corinthians preparou-se para ampliar a sua fronteira, sendo contida pelas organizadas do Flu que chegavam bem mais cedo.

Inclusive, como curiosidade, poucos sabem que as torcidas organizadas tinham salas próprias e passe praticamente livre no Maracanã, onde guardavam pertences como camisas, instrumentos etc..

O Maracanã lotou de forma incrivelmente rápida e ficou igual nas arquibancadas, ao contrário do que é dito e reverberado pela lenda, sendo que do lado esquerdo das tribunas, lugar reservado ao Fluminense (exceto quando jogava contra o Flamengo) muita gente viu o jogo deitado entre dois degraus de arquibancada.

Daí o ponto da venda antecipada para tricolores. Dado o quadro de 14:30, era fisicamente impossível que toda aquela quantidade de tricolores tivesse passado pelas bilheterias totalmente lotadas e notoriamente lentas. Muita gente chegava cedo ao Maracanã e por conta das filas em bilheteria só conseguia entrar com 10, 15 minutos de jogo. Muito pouco provável também que cambistas tivessem tantos ingressos em mãos, a não ser, é claro, que fossem da carga paulista e estivessem sendo vendidas no Maracanã, o que também ajudaria muito a explicar a lendária venda em 3 horas de São Paulo.

E por volta de 16:00, hora padrão do verão carioca, desceu o primeiro dilúvio.

Embora exista um vídeo completo da partida, o melhor que achei e mais resumido foi esse aqui, transmissão da TV Cultura de SP, com o espetacular Walter Abrahão.

O jogo começou já com muitas poças no gramado. Shorts e camisas de 100% algodão da Athleta (marca que vestia praticamente todos os clubes na época) evidenciavam o lamaçal, pesadas e manchadas de barro.

Ao contrário do que diz a lenda, apesar de ser infinitamente superior, o Flu não foi melhor no 1o tempo e em nenhum momento do jogo e era de se esperar isso, dadas as condições, mas na qualidade e na categoria achou um gol (1:26) e logo na sequência sofreu o empate num gol de abafa (3:24), que era a forma do Corinthians jogar, com o gigante Geraldão, extremamente eficiente, principalmente para a época.

E a partir daí virou várzea. Faltando uns 10 minutos pro fim do 1o tempo desabou o segundo toró (4:33) e ficou impraticável se jogar futebol. O campo virou uma piscina (4:44). No início do 2o tempo o Fluminense pressionou pelo adiamento da partida, o que foi recebido com protestos pelo Corinthians, que levava vantagem com a situação. A explicação final para não suspender a partida teria sido a falta de datas para uma nova partida, com uma provável devolução da grana de ingressos etc..

Nos penais, vitória do Corinthians, justa desportivamente. Cabecinhas tricolores inchadas, saída do Maracanã com focos de briga e violência, rio Maracanã transbordado, Dutra emperrada e um dia que naquela época parecia que deveria ser esquecido, mas que hoje me dá muito orgulho de tê-lo vivido, sendo testemunha direta dos acontecimentos.

No Fluminense, a Máquina foi surpreendentemente desmontada. O Corinthians não conseguiu resistir ao fantástico Internacional e foi vice em 1976, mas finalmente saiu da fila em 1977, vencendo o campeonato pauilista.

Mas voltemos às lendas da invasão corinthiana, mesclada de muitos rubronegros e alvinegros cariocas, com certeza, mas que mesmo assim foi uma linda e gigante demonstração de amor e sacrifício de uma torcida por um clube. Demonstração que tanto não merecia ser desmerecida quanto também não merecia ter sido tão fantasiada e aumentada.

O Maracanã, que em 1976 ainda não tinha sofrido nenhuma reforma significativa em relação ao seu projeto original, que registrou como recorde um público presente de 195 mil (sem contar as invasões, que eram facílimas e que representavam cerca de 10% do público presente), sem dúvida nenhuma tinha capacidade para receber 200 mil pessoas.

Este jogo teve um público pagante de cerca de 147 mil e de rebarba, no mínimo, havia mais uns 15 mil penetras e puladores de muro, com provavelmente mais uns 5 mil convidados, que era o padrão. Digamos que estávamos aí, por baixo, com um público de cerca de 165 mil presentes. Mesmo assim, custava a crer para qualquer um que estivesse no estádio que coubesse mais 30/40 mil pessoas lá dentro. Centenas,  talvez milhares, ficaram com ingresso do lado de fora e não entraram e é claro que a grande maioria destes foi de tricolores que chegaram mais tarde. Natural, pois a expectativa para qualquer tricolor era que aquele jogo seria um passeio.

Eu estava lá e, como falei, muita gente viu o jogo deitado entre vãos de arquibancada, não cabia mais mosca gestante na arquibancada do Fluminense e a divisa em nenhum momento foi ampliada, nem para um lado e nem para o outro. Como pode ser visto nitidamente nos gols (vejam no neste vídeo, nos pontos indicados), pelo som da transmissão, que na época não era manipulado para parecer ter mais gente do que tinha do time que é escolhido pela TV, a vibração é muito mais alta no do Fluminense. Outro detalhe no gol do Corinthians é que fica claríssimo que praticamente toda a geral é do Fluminense e as cadeiras aparentam estar relativamente divididas. Entretanto, nestas, havia claros evidentes, não sendo estas portanto tão determinantes para o total de público pagante, como era o normal na época. Inclusive, eram ingressos mais caros, inclusive do que os de arquibancada, e menos procurados que os de geral.

A invasão corinthiana foi uma realidade, sim, um evento espetacular e histórico, mas a propagação que foi feita aos sete ventos que havia mais corinthianos que tricolores no Maracanã é uma manipulação da realidade totalmente sem sentido.

Segue uma visão realista:

invasao-corinthiana

Posteriormente e curiosamente, Flu x Corinthians voltariam a fazer a semifinal oito anos depois, em 1984, desta vez em dois jogos.

Com o mito criado, primeiro jogo, cerca de 15 mil tricolores estavam nas arquibancadas do Morumbi, inclusive o então não mais garotinho Antônio Ramos. Esta pequena invasão não foi notícia e nem virou lenda.  Corinthians 0 x 2 Fluminense.

No jogo de volta, com cerca de 125 mil pagantes, os tricolores as 15:00 da tarde já tinham tomado mais de 2/3 do Maracanã, para evitar qualquer possibilidade de reincidência, empurrando a torcida do Corinthians para um canto de arquibancada, desta vez. O mau resultado no 1o jogo, mais o fato de terem que vir comprar ingresso aqui, certamente foram fatores que reduziram as intenções de uma nova “invasão”, mas mesmo assim os tricolores trataram de prevenir desta vez. 0 x 0 e o Fluminense veio a ser campeão brasileiro.

Histórias de um grande clássico e de mitos que são criados no futebol, agradando a gregos e desagradando troianos, com realidade e fantasia, mas que ajudam a manter esta dimensão gigantesca que ele tem em nossas vidas.

Obs.: Relevo que esta coluna foi totalmente escrita pelo Lado Torcedor, que merece um espaço pra ele nestes dias sem futebol. Poucas vezes estivemos tão de acordo quanto neste texto.

Abraços a todos e feliz 2017 conosco aqui no Futebolzinho !

Antônio Ramos avatar

Ex-jogador, auxiliar técnico e instrutor de futebol, escrevendo sobre o tema há mais de 20 anos. Torcedor do Fluminense Football Club.