Essa minha crônica de hoje nasce no lugar onde nascem 99% delas, pra quem escreve: na mesa do bar.

Intervalo de trabalho, sábado, desci com amigos para comer (e beber) alguma coisa e, amantes do futebol que somos, lembramos que estaria começando Flamengo X Avaí. Evidentemente, como sempre faço, avisei:

– Senhores, não tenho o mínimo motivo pra torcer para o Fla, como sabem, mas como analista iria ver de qualquer forma, se não se incomodam com a minha presença …

Um dos amigos, rubro-negro, manda a primeira e sensacional colocação:

– Nunca, Tony! Todas as vezes que vi jogo do Flamengo com você, ganhamos, hahahaha!

O mais interessante é que embora tenha visto inúmeras derrotas do Flamengo na vida, assistindo com amigos, estava longe de ser a primeira vez que alguém teria me dito isso.

Bem, logicamente, me sentindo bem aceito e extremamente confortável com amigos queridos, preparei-me para assistir.

Bola rolando, cerveja vem, cerveja vai, entre iscas de frango e peixe, fiquei com aquilo passando na minha cabeça. Jogo ainda 0 x 0, questionei:

– Irmão, você realmente acredita que a minha presença aqui faz o Flamengo ganhar jogos?

– Claro que não, cara!

Entendido que estávamos voltando para uma situação de cunho mais racional, voltei minha atenção para a partida, sem saber ainda que vinha o complemento:

– Sua presença só faz diferença se eu estiver aqui também!

Após risadas generalizadas pela mesa, ele continuou:

– Irmão, somos analistas de sistemas. Somos racionais e tecnológicos, trabalhamos com fatos e evidências!

– É, somos … gostaria que me explicasse a relação disso que você acaba de dizer com racionalidade e tecnologia …

E, desafiado, desfiou um rosário de partidas do Flamengo que tínhamos visto juntos e todas com vitórias do Flamengo.

– Taí. Evidências demonstradas. Contra fatos, não há argumentos!

Dito isto, diuréticos em funcionamento, o irmão rubro-negro levanta-se da mesa para encaminhar-se para a prática da atividade fisiológica e, não satisfeito, manda mais uma:

– E não sei se você se lembra: não consigo ver os gols do Flamengo quando assistimos os jogos. O Flamengo só faz gol quando vou ao banheiro.

Mostrando inacreditável esperança de que isto fosse valer neste momento, vaticinou:

– É agora, hein?!

Debaixo de gargalhadas já de todos os presentes no estabelecimento, principalmente os rubro-negros, muitos loucos para acreditar piamente nisso, desapareceu pelas pilastras em busca do WC, que neste momento tinha simplesmente sido promovido a lugar fundamental para o resultado do Clube de Regatas.

E, mais que inesperadamente (pelo menos pra mim), exatamente neste momento, gol !

Todos, simplesmente todos, não conseguiram segurar as gargalhadas. Debaixo delas, retorna meu irmão, em êxtase, para saber quem teria feito o gol do Flamengo.

– Não falei ! Não falei ! MENGOOO !! É batata ! Quem fez o gol?

Sem conseguir segurar o riso, tive que dar a má notícia:

– Meu querido, foi gol do Avaí …

Não conseguindo esconder a sua decepção com a situação, sentou-se, balançando a cabeça em negativa.

– Bom, chega! Não bebo mais !

– Ah, cara, deixa de ser ridículo! Primeiro tempo ainda, tem jogo pra caramba, o Flamengo vira isso e, se não virar, o que vale é a diversão.

– Eu sei disso, Tony, o problema é que eu sabia que sempre bebemos Heineken quando vemos os jogos e acabei, mesmo sabendo disto, aceitando esta maldita Antártica Original. Não podia dar certo, mesmo! Vou parar, senão não viramos isso nem a pau!

Final: Flamengo 1 x 1 Avaí …

Poderia entrar aqui com diversas explicações e aspectos psicológicos relativo às superstições, o que seria um saco e, mais, não é a minha praia.

Mas o que acho mais fantástico nisto é que identifico nos supersticiosos uma vontade gigantesca de responder os axiomas da vida, tentando descobrir fórmulas e gatilhos simples que os ajudem a atingir seus objetivos, fórmulas e gatilhos tão axiomáticos quantos os axiomas que tentam responder, claro, mas nem por isso inválidos. Afinal, sabemos de tudo para garantir que sejam? Claro que não.

No caso do futebol, em si, isto fica mais evidenciado na loucura da paixão que existe em todo o torcedor, que o faz querer ser mais do que simplesmente o décimo segundo jogador, que apoia na arquibancada, na TV, que veste a camisa. Ele quer ser dono de uma poção mágica, de um conjunto de ações aleatórias que deve executar ou evitar fazendo, simplesmente, o time dele vencer.

A superstição no futebol é um capítulo a parte de amor, que seja ele por quem ou o que for, sempre gera a necessidade de sermos relevantes e fundamentais para a existência, vitória e felicidade de quem amamos.

E quando isso se trata de amor e quando não faz mal a ninguém, pra que ficar tentando ser tão científico ou racional? O negócio é curtir, acreditar, fazer o bem para quem amamos, do jeito que conseguirmos.

Abraços agradecidos aos supersticiosos do futebol. Símbolos da paixão e da relevância dela em nossas vidas.

Antônio Ramos avatar

Ex-jogador, auxiliar técnico e instrutor de futebol, escrevendo sobre o tema há mais de 20 anos. Torcedor do Fluminense Football Club.