O presidente do Vasco, Alexandre Campello, concedeu uma entrevista ao Globoesporte.com. Aliás, entrevistas ele tem dado muitas. O que, vale lembrar, não é necessariamente ruim já que é uma forma de levar informações aos torcedores. E também não deixa de ser uma forma de divulgar o clube na grande mídia.

O problema é quando o presidente eleito pelo Conselho (mas não pelos sócios) tenta nos fazer de trouxas. A entrevista ao GE.com, por exemplo, foi em grande parte empulhação. Isso quando suas declarações não foram pura e simples caozada.





Mas vamos dissecar alguns pontos da entrevista para que deixar claro o que estou falando.

Logo na segunda pergunta o recém-eleito presidente repete uma prática comum dos últimos presidentes eleitos: enquanto oposição – talvez no caso dele fosse apropriado colocar aspas na palavra – os candidatos passam três anos denunciando a penúria do Vasco. E, logo que assumem, se dizem surpresos com o estado calamitoso do clube. Foi assim com o Dinamite, com o Eurico na sua segunda gestão e agora com Campello. Durante suas campanhas, as críticas são contundentes; no poder, eles nunca sabiam como seria a realidade.

Um pouco depois, um dos raros momentos de honestidade na entrevista: o prazo para que o Vasco saia da draga em que se encontra há décadas:

Pelo menos nessa questão Campello foi sincero e não partiu para promessas que sabidamente será muito difícil de cumprir. O problema é essa parte do “ainda estaremos com dívidas, mas com equilíbrio”. Isso não passa de uma reformulação da velha ladainha das “dívidas equacionadas”. O ex-presidente, aquele das “contas pagas”, fala isso o tempo todo. Deu no que deu.

Achar, o presidente vascaíno pode achar o que quiser. Mas pensar que a insatisfação com a maneira como ele chegou ao poder é algo político e não um sentimento bastante difundido entre toda torcida vascaína só podem ser duas coisas: fuga da realidade ou querer tapar o sol com a peneira.

Até essa pergunta, a entrevista seguia num ritmo aceitável. Depois é que a porca torceu o rabo de vez:

Nessa resposta, Campello começa a por a prova o bom senso da torcida. Então ele fica “espantado” com uma “preocupação exacerbada” com o Eurico? Talvez seja o fato do Dotô ter sido o mandatário do clube por mais de uma década nos últimos 18 anos, período esse que é o pior em toda história do Vasco? Ou talvez seja o fato de que o Eurico ainda manda e desmanda nas internas e ainda tenha muito poder na política do clube?

E o discurso de “olhar pra frente“, dito logo depois do atual presidente reclamar da situação financeira em que encontrou o clube é uma contradição incrível. Então a pessoa que arrasou o clube nos últimos anos ainda é presidente de um dos poderes do clube e devemos “parar de olhar pra trás“? Esse é o papinho contemporizador é de quem não quer responsabilizar quem fez vários desmandos enquanto esteve no poder, ou seja, uma defesa velada ao Eurico.

E no fim das contas a culpa é da imprensa? Seria hilário se não fosse trágico.

Aqui Campello se enterrou de vez nas falácias. Falar que o Conselho de Beneméritos “não deixa que um presidente comprometa o clube” é lindo na teoria. Mas o que os últimos presidentes do Vasco mais fizeram foi comprometer o clube. E onde estava o Conselho que não impediu nada do que aconteceu nos últimos 18 anos? Que defesa os Beneméritos fizeram do Vasco em todo esse tempo? “Se não, entra alguém aqui com uma administração temerária, com atitudes que poderiam colocar o clube em risco “? É sério isso, senhor presidente? Qual foi a última gestão vascaína que não foi exatamente isso, temerária?

Campello ainda termina a resposta, taxativamente, falando “Está no estatuto do clube“. Como se tudo que estivesse hoje no estatuto fosse o melhor para o Vasco. Infelizmente não é e pelo seu discurso, não esperem da atual gestão qualquer alteração que torne as leis do clube mais adequadas para a realidade que vivemos. Por exemplo, continuaremos com o risco de ver os sócios votarem em um candidato e o Conselho de Beneméritos empossarem outro.

Então o nosso presidente não vê problema nenhum em pegar uma graninha emprestada com uma pessoa física…Nem vou entrar no mérito da falta de “tempo hábil” para conseguir recursos onde normalmente se faria (um banco, claro), coisa que deveria ser atribuição de uma gestão competente. O problema é o Campello falar em “pessoa física” ignorando que essa pessoa é também empresária de jogadores de futebol. Falar que um empréstimo feito pelo Carlos Leite “não é aquele favor que você faz pensando na frente” é mais uma vez fazer pouco da inteligência dos vascaínos. Como o Campello classificaria a venda do Douglas? Negociar um jogador jovem e promisso, à época um dos destaques do time, no meio da temporada, para pagar empréstimos ao empresário é algo aceitável para o nosso presidente? É por essas e outras que não é de surpreender que a venda do Paulinho, a maior promessa do clube, já esteja sendo cogitada. E quem é o empresário do Paulinho? Pois é….

Pra terminar, Campello se faz de desentendido ao falar sobre o aumento da taxa de adesão para quem quer se associar. Depois de admitir que descumpriu uma promessa de campanha – alguém falou em estelionato eleitoral? – vir falar que preços menores são uma reivindicação de mensaleiros é o famoso fogo amigo. Ou ele se esqueceu que essa foi a tática empregada pelo responsável pela sua eleição, o Sr. Eurico Miranda?

E no fim das contas, não se falou no mais importante. O preço de um título de sócio não é mais importante que a democratização do processo eleitoral, que só acontecerá se houver um plano de sócio-torcedor que dê direito a voto e que o processo eleitoral deixe de ser indireto. Mas para isso, seriam necessárias mudanças que demandam a aprovação do Conselho de Beneméritos. E seu presidente já disse que isso não vai acontecer. E quem é um mero Presidente Administrativo pra bater de frente com o Dotô, não é mesmo?

Por fim, Campello mais uma vez coloca na conta da política as críticas que vem recebendo. Se o presidente do Vasco continuar a dar entrevistas como essa, é bom que ele esteja preparado. Dessa forma, a frustração só aumentará e não será apenas de alguns.

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Com um pai flamenguista e uma mãe botafoguense, Julio Cesar "JC" Barbosa é a prova viva que ser vascaíno é predestinação, não imposição. Torcedor de estádio, tanto na Colina quanto no antigo Maraca (hoje Arena), escreve sobre o Gigante na internet desde 2007.