Mais uma Copa que voltamos cedo demais.

É certo que o brasileiro não aceita qualquer resultado em Copa que não seja o título. Vá lá, é uma consequência natural do resultado histórico do futebol brasileiro. Ninguém ganhou mais do que nós e acho que ainda vai demorar para acontecer, se acontecer.





É certo, também, que não temos mais a diferença técnica que sempre nos pautou. Nunca vou esquecer o Henry, atacante francês, dizendo que no Brasil se joga mais futebol durante a vida, principalmente na infância, do que em qualquer outro lugar do mundo e isto faz diferença na formação quantitativa e qualitativa de atletas. O argumento era antipático, no sentido que criticava o fato de, no Brasil, crianças jogarem bola o dia inteiro, inclusive em horário escolar, quando deveriam estar estudando, mas convenhamos, é uma verdade inequívoca.

Entretanto é preciso entender que as transformações no futebol, principalmente decorridas da globalização da informação e da revolução tecnológica da preparação física, transformou este último aspecto em algo tão ou mais importante que o desenvolvimento dos fundamentos, principalmente os de ataque.

A partir disso, não adianta esperar por grandes diferenças no que diz respeito às performances, salvo em times universais, montados com a nata da nata mundial, tipo Barcelona, Real Madrid, Chelsea etc.. A restrição por nacionalidade, embora seja uma zona desenfreada (acho que tem brasileiro jogando em praticamente todas as seleções do mundo), acaba nivelando.

Mas voltando ao Brasil, continuo achando que tínhamos uma excelente seleção de jogadores, treinados por um técnico competente.

Fizemos uma fase de grupos meramente regular (como praticamente todos os times), mas passamos em primeiro do grupo, vendo equipes favoritas como Alemanha, Espanha e Argentina sofrendo o inimaginável e sendo eliminadas até mesmo na 1a fase ou então nas 8as.

Fizemos uma partida de 8as tranquila contra o México, quando sofremos 15min no primeiro tempo e dominamos completamente o resto da partida, fazendo 2 x 0 que poderia ter sido 3 ou 4, não fosse pelo Ochoa.

E contra a Bélgica, vínhamos melhores no jogo até sofrermos um gol que não foi simplesmente uma infelicidade do Fernandinho, como se tem dito. Houve falha no acompanhamento do jogador do 1o pau na bola parada (a tal marcação por zona que inventaram em bola parada que me parece uma grande invencionice), mas esta não precisava ter virado um gol contra.

Neste momento, o time se perdeu por alguns bons minutos, a famosa instabilidade psicológica que sempre pinta no futebol sulamericano, e saiu para tentar empatar logo, desestruturadamente, tomando um contra-ataque fulminante. Lembrou muito o gol do Caniggia em 1990, onde também não houve sensibilidade da contenção de zaga para parar o ataque com falta.

A partir daí, até o fim do primeiro tempo, o time ainda tomou alguns contra-ataques, mas foi se reequilibrando. O Alisson, assim como em todas as outras partidas, assistiu o jogo praticamente sem intervir. Aliás, praticamente só trabalhou na Copa pra pegar bola no fundo do gol.

No segundo tempo, foi simplesmente ataque contra defesa, com a Bélgica, uma boa equipe, recuada e tentando jogar de forma inteligente aquilo que é ou pelo menos deveria ser mais fácil no futebol: defender.

Perdemos um caminhão de gols e tivemos que aturar um excelente goleiro trabalhando com competência. Paciência. Pra mim, pelo menos um empate no tempo normal teria sido um resultado mais evidenciado. Faltou tempo para empatar e até virar … mas é isso, o futebol tem 90min e saber jogar dentro deste tempo faz parte da preparação.

Assim como o Tite, não quero entrar muito nos aspectos individuais da equipe, mas vale ressaltar alguns pontos:

– Apesar de não ter feito uma copa dentro das expectativas gerais, Neymar é o melhor jogador brasileiro. Estou me lixando pro que ele faz fora de campo, com os cabelinhos ridículos que ele usa, com as bobagens que ele (ou sua assessoria) inventam na mídia em geral e com as suas performances teatrais em falta. Sobre este último ponto, vi Mbappe e muitos outros fazendo a mesma coisa sem qualquer repercussão. Na minha seleção e na de qualquer um que preze os melhores jogadores, estará sempre convocado e titular.

– Acho que esquemas sem atacante de área de ofício, tipo Fred em 2014, que foi esmagado pela mídia e por gente que repete tudo que ouve sem raciocinar, perdido num esquema de jogo totalmente errado, ainda não funcionam bem quando você junta somente jogadores brasileiros. O mais engraçado é que você vai vendo passar seleções como Croácia e Inglaterra, que  jogam bola na área para um cara alto, fazendo pivô ou finalizando, e as outras, sem atacante de área de formação, indo embora … precisamos respeitar as características das escolas em geral antes de saírmos fazendo apenas o que se diz moderno. Fica a dica pro Tite.

– E já que falei de Tite, por que não ele seguir? Quem tem melhor? Acho que ele cometeu erros, como todos cometem, mas me parece um cara muito experiente e bem preparado para aprender com eles. Diferente de Parreira, Felipão, Dunga (isso nunca foi técnico de futebol), Leão, Muricy, Mano e outros menos votados que passaram por lá.

Assim sendo, sem me alongar muito, o sentimento, diferente do de 2014 que foi de vergonha, é de tristeza por não termos seguido como deveríamos. Poderíamos mais. Mas é isso. Tem time do outro lado e num determinado jogo, mesmo parecendo menos preparado ou inferior tecnicamente, pode ser mais eficiente. Parece que foi o caso.

Segue a Copa. Lógico, com 50% a menos de alegria, mas muito interesse ainda para nós que amamos o futebol. Uma Copa que, por sinal, começou bem preocupante a nível de qualidade, mas já nos brindou com partidaços até aqui. Aliás, cabe ressaltar, o desenvolvimento técnico dos goleiros é algo impressionante. Fazer um gol de pênalti nesta copa está mais difícil do que nunca …

Para a próxima, como sempre, o Brasil segue favorito.

Abraços

Antônio Ramos avatar

Ex-jogador, auxiliar técnico e instrutor de futebol, escrevendo sobre o tema há mais de 20 anos. Torcedor do Fluminense Football Club.