Se a gente pegar todas as previsões feitas antes da copa, por quem entende e acompanha futebol não encontrará nada muito diferente de Brasil, França, Espanha, Alemanha e Bélgica como as favoritos ao título.

 E Inglaterra, Croácia, Argentina e Portugal correndo por fora, os dois últimos pela capacidade individual de Messi e Cristiano. As pessoas seguem acreditando que individualidades superam uma coletividade ruim, quando na verdade é o inverso. A individualidade está a serviço de um coletivo forte.





 Pois bem, Brasil e Bélgica se encontraram nas quartas de final.

 E agora eu vou postar aqui lance a lance do jogo separando as chances de gol e as chances claras de gol pra depois a gente falar dele:

 Chances Claras 1º tempo:

 – Tiago Silva acerta a trave num escanteio.

 – Miranda raspa de cabeça e Paulinho perde na pequena área, sozinho, numa bola que dava até pra dominar.

 – Gol da Bélgica, lance fortuito, escanteio que Gabriel Jesus erra a cabeçada, a bola bate no Fernandinho e entra.

 – Neymar leva na linha de fundo, toca pra trás e Kompany bloqueia o chute do Jesus na pequena área.

 – Gol da Bélgica, num contra-ataque muito bem executado (falaremos adiante).

 Chances de Gol 1º tempo:

 – Chute frontal pra fora do De Bruyne.

 – Chute de Coutinho de fora da área que Courtois defende sem rebote.

 – Chute de fora do Marcelo que Courtouis espalma.

 – Jesus erra uma cabeçada sozinho dentro da área.

 – Marcelo leva a linha de fundo, cruza, a bola pega na zaga e Courtois defende num reflexo (essa aqui eu fiquei na dúvida em colocar como chance clara).

 – Courtois defende chute de Coutinho de fora da área.

 – De Bruyne bate uma falta e Alisson espalma.

 – Kompany finaliza um escanteio e Alisson defende.

O primeiro tempo acaba aqui.

 2 a 0 Bélgica. No placar de chances claras, 3 a 2 Brasil. No placar de chances de gol, 5 a 3 Brasil.

 E falaram besteiras como nó tático e sobre como a Bélgica foi superior no primeiro tempo. Até foi, em efetividade, apenas isso.

 Foi um grande primeiro tempo, de dois times muito fortes e que produziram demais ofensivamente.

 Chances Claras 2º tempo

 – Hazard entra sozinho pela esquerda (direita da nossa defesa) e chuta raspando.

 – Douglas Costa pedala, carrega e chuta cruzado pra um defesaço (mais um) do Courtois.

 – Gol do Brasil

 – Frimino gira, chuta da pequena área e a bola passa raspando.

 – Renato Augusto perde sozinho.

 – Coutinho perde sozinho dentro da área.

 – Courtois busca no ângulo um chute do Neymar.

 Chances de gol 2º Tempo

 – Marcelo carrega na linha de fundo, cruza e ninguém chega pra finalizar.

 – Paulinho carrega a bola e Courtois sai no seu pé.

 – Douglas chuta, Courtois espalma e Neymar chuta fraco no rebote.

 O segundo tempo termina com 6 chances claras de gol pro Brasil contra 1 da Bélgica. E 3 chances de gol contra zero da Bélgica.

No fim do jogo, o Brasil termina com 63% de posse de bola, 24 finalizações, 10 no gol, contra 8 finalizações da Bélgica, 3 no gol.

 Nos números, um massacre. Mas, eliminados.

 O Brasil deu azar e sorte e azar são componentes de um jogo de futebol.

 Isso não significa que a Bélgica não mereceu o resultado.

Num jogo desse quilate, é absolutamente natural que o time que sai na frente, se coloque em posição de espera e saída em transição.

 E, essa copa mostrou, que muitas vezes estão baixando as linhas de marcação pro último terço do campo, dificultando cada vez mais a produção ofensiva.

 Mesmo assim o Brasil chegou e chegou muito, mesmo num cenário de dificuldade.

 A título de comparação, a própria Bélgica contra a França teve 59% de posse de bola, mas finalizou apenas 8 vezes contra 16 do seu adversário. Aqui sim, um exemplo, de dificuldade de penetração, principalmente depois que o jogo ficou 1 a 0 França.

 Voltando ao Brasil, Tite foi muito inteligente no pré-jogo.

 Eu e mais algumas pessoas escrevemos no twitter que a Bélgica não jogaria com o Brasil com Lukaku, De Bruyne, Hazard, Mertens e Carrasco.

 Tite acertou em cheio a opção belga. Preencher o meio pra fazer dobra de marcação, principalmente no lado esquerdo do Brasil.

 Sem Mertens pela direita, Tite promove, corretamente, a volta do Marcelo que teria espaço pra apoiar, se juntando a Neymar e Coutinho que também cai por ali.

 Pra vocês terem uma ideia de como o jogo concentra ali. O Brasil trocou 463 passes certos. Os dois primeiros no quesito foram Coutinho com 69 e Marcelo com 64, Neymar teve 47 passes certos (180 passes certos).

 O trio pela esquerda foi responsável por 38,8% dos passes de todo o time, num modelo que funcionou muito bem, uma vez que trouxe muita finalização e volume de jogo.

 Na Direita Fagner, Douglas, William e Paulinho trocaram 93 passes no total, quase a metade.

 As costas do Marcelo

 A Bélgica explorou com Lukaku nas costas do Marcelo. Não!

 Lukaku puxa esse tipo de contra-ataque pelo lado direito do campo. É comum, acontece com Mourinho no Manchester quando Mourinho quer jogar em transição.

 Contra o Brasil houve a tentativa, mas não aconteceu.

 Na jogada do segundo gol Belga, Lukaku vem por dentro, pelo meio, onde Fernandinho teve 2 chances de matar o contra-ataque e não o fez.

 A Bélgica consegue então criar a superioridade numérica no lado esquerdo do campo, mas não nas costas do Marcelo (ele está lá) e sim porque Coutinho demora mais na recomposição que dois jogadores belgas na transição. Marcelo está ali marcando, mas eram dois contra um e De Bruyne, que joga demais, acerta um belo chute.

 No segundo tempo, Tite coloca o Miranda no Lukaku e o Brasil não sofre com esse tipo de situação.

 Enfim, não há nenhuma chance de gol da Bélgica criada porque o Marcelo apoiou e demorou a recompor.

 Em números individuais, Marcelo fez 1 desarme e 3 interceptações roubando 4 bolas pelo Brasil, mesmo com tanta ação ofensiva. Fagner, por exemplo, fez metade, 1 desarme e 1 interceptação.

Filipe Luis contra o México, fez 4 desarmes e 0 interceptações, ou seja, mesmo número do Marcelo contra a Bélgica.

Falar em avenida Marcelo desafia o senso comum. Marcelo joga e é multicampeão pelo Real (que pode comprar quem quiser). Pelo seu lado desfilam craques como Mbappé (eliminado na Champions pelo Real com Marcelo fazendo gol), Robbin, Messi e o Real continua ganhando tudo e dominando o futebol europeu com o Marcelo sendo considerado o melhor do mundo na posição ano sim, outro também.

Vocês imaginam o Zidane e os analistas de desempenho de Madrid escalando uma avenida por onde seus adversários desfilam? Pois é!

Imagina se Marcelo fosse da base de Flamengo ou Corinthians… Daqui a pouco vão pedir o Jorge ou o Guilherme Arana no lugar dele.

 Erros de Tite

 Eu acho que Tite errou (pouco mas errou) nas convocações. Mas vou me ater apenas a esse jogo.

 Erro 1 – Fagner

 O time da Bélgica é muito forte fisicamente. Já que soltou o Marcelo pela esquerda, poderia ter entrado com o Marquinhos na direita mais preso. Fagner perdeu a maioria das disputas com Hazard e Marquinhos jogou no PSG nessa função quando a zaga era Tiago Silva e David Luis.

 Era pra ter mudado pra esse jogo e escalar um time mais pesado, mais forte fisicamente, ainda mais que Fernandinho era a única opção pra substituir Casemiro.

 Fernandinho é um jogador que faz uma função no City num modelo do jogo de posição. Diferente da função de Casemiro, que é de suporte e força.

 Fernandinho não desarmou contra a Bélgica. Mas fez 4 interceptações, sua maior característica.

 Com Fernandinho no meio e Fagner na lateral, o time ficou muito baixo e frágil fisicamente.

 Erro 2 – Jesus

 Morreu abraçado. Se “o campo fala” como ele mesmo diz, a escalação do Jesus pela temporada já era pra ser contestada. Jesus sequer é titular do City, enquanto Firmino brilhou no Liverpool.

 E Firmino seria outro que daria força, altura pra esse time. Presença na área.

 Erro 3 – Demora na leitura e substituição equivocada

 Com 2 a 0 Bélgica e o adversário todo entrincheirado a entrada de Firmino era óbvia.

 William joga aberto pela direita e seu drible é um drible de velocidade que busca a linha de fundo. Dentro da área, Jesus brigava com a zaga da Bélgica.

No 1 a 0 já era pra ter metido o Firmino. No 2 a 0 era o óbvio.

 Mas ele demorou. Deixou pro intervalo.

 E comete um erro ainda maior. Tira o William, abre o Jesus pela direita e entra com o Firmino.

 Ora, ele tira o especialista e praticamente improvisa Jesus na direita, lugar onde raramente jogou na carreira.

 Com quase 20 do segundo tempo, ele enfim acerta a escalação, Douglas Costa entra.

 Douglas é diferente de William. Ele leva muitas veze pra dentro, o que obriga o meio campo a fazer a dobra. Quando essa dobra acontecia, Douglas virava na esquerda e pegava Marcelo e Neymar livres.

 Essa substituição deu um volume de jogo muito grande pro Brasil. O jogo acaba com aquela sensação de que se tivesse mais 10 minutos o Brasil empataria.

 Esse tempo que acabou foi o tempo que Tite demora pra mexer.

 Bélgica x França

 A Bélgica mantém Mertens e Carrasco no banco. Vai de novo com o trio em cima da defesa adversária.

 Hazard duas vezes e uma defesa do LLoris num escanteio são chances claras de gol da Bélgica.

 Chances tão claras (até mais), em quantidade e em qualidade, quanto as que teve contra o Brasil. Num jogo, duas entraram, ontem não entrou e o primeiro tempo acaba 0 x 0.

 No segundo tempo, logo no início sai um gol de bola parada pra França. E aí o jogo se complica porque o time da França é muito forte, se defende muito bem e tem o contra-ataque.

 Lloris, Varane, Kanté, Pogba, Griezmann e Mbappé são muito bons, jogadores muito acima da média nas suas funções e em todos os setores do campo.

 Felaini quase faz de cabeça, mas no fim a França termina com mais chances de gol, mais finalizações e merece o resultado.

 França que mudou seu time depois do primeiro jogo contra a Austrália. Com a entrada de Giroud, Griezmann, Mbappé, Matuidi e Pogba flutuam, enquanto os zagueiros estão presos.

 Favoritíssima (pra mim junto com o Brasil) antes da copa. Favoritíssima pra ganhar a final.

Dedé Moreira avatar

Blog do torcedor do flu no Globoesporte, Futebolzinho.com. Gestão Técnica de Futebol e Análise de Desempenho pela Universidade do Futebol.