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Vira-Lata

O capitão do tri

O capitão do tri

No dia 17 de julho, Carlos Alberto Torres fez aniversário. 73 anos. Como se sabe, ele morreu em 25 de outubro do ano passado. Mas segue eterno, e seguirá enquanto existir futebol ou algo parecido: uma bola sendo chutada por dois meninos num futuro distante, num planeta longínquo. Seu gol – o quarto na vitória do Brasil sobre a Itália, na final da Copa do México, em 1970 – é um desses momentos inesquecíveis. Mesmo que você veja o lance duas mil vezes, a emoção, o arrepio, a alegria irão se repetir. Ao infinito e além.

Dias depois de sua morte, publiquei na “Folha de S. Paulo” um texto sobre o Capita. A ocasião permitiu que o colunista saísse da objetividade e se tornasse personagem da história, escrevendo em primeira pessoa. Um bastidor de futebol, que não costuma chegar ao conhecimento público. Republico a coluna “O dia em que Carlos Alberto Torres virou o Hulk” aqui como homenagem ao Capitão do Tri.





Carlos Alberto Torres foi um dos maiores laterais de todos os tempos, autor da última pincelada no quarto gol do Brasil na final da Copa de 1970, um carioca da Vila da Penha cheio de picardia. Foi também um jogador de estilo viril (o ponta inglês Francis Lee que o diga) – e um cara brigão. 

Em 1994 ­– época em que os jornalistas ainda tinham acesso aos vestiários, lado a lado com jogadores no chuveiro ou com tolhas amarradas na cintura – entrei no do estádio Ítalo del Cima e vi o Carlos Alberto Torres lá no fundo. Técnico do Fluminense, ele vivia um mau momento, com sucessivas derrotas e a ameaça de perder o emprego. Naquele o dia, porém, o tricolor jogara bem e vencera o Campo Grande por 5 a 0 – o centroavante Ézio fazendo a festa com os passes nojentos do meia Luís Antonio.

Carlos Alberto estava brigado com a imprensa, a quem atribuía um complô para derrubá-lo. Antes que eu pudesse abrir a boca, me acusou: “Você está no esquema”. Tomou-se de fúria e veio em minha direção: “Vai se ferrar!”. Dei cinco passos para trás e retruquei: “Vai se ferrar você!”. Ele prosseguiu, ficando verde como o Hulk: “Vai chupar caju!”. Dei mais dez passos para trás: “Vai chupar caju você!”. Os termos da discussão não foram bem estes, mas…

Em nossa dança de caça e fuga, chegamos aonde ficavam os armários de alvenaria. Foi minha sorte. O lateral Branco, que trocava de roupa, comprou o barulho: “Calma, capitão”, falou alto e me levou pelo braço até a saída.

Com mais um revés no jogo seguinte, Carlos Alberto foi demitido. Deixei a editoria de esportes do “Jornal do Brasil”, e nos perdemos de vista. Até que entrei no elevador da “Manchete”, e ele estava lá, sozinho. Gelei, mas comecei a dizer: “Capita, naquele dia…”. Me cortou na hora: “Esquece, garoto. É só futebol”.    

Depois, a convite dos jornalistas Fábio Lau e Marcelo Migliaccio, dei um depoimento gravado contando a mesma história, com mais detalhes e alguns palavrões, impublicáveis na coluna de jornal.  Aí vai:

 

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3 Comments

  1. Frank Cavaliere avatar

    Hahahah bela história!

  2. Paulo Alves avatar

    Muito boa!!!! Dei boas risadas aqui…. Tive o prazer de conhecer o capita e seu temperamento pouco explosivo hhaha

  3. Nelson Delgado avatar

    Parabéns pela história! Imagino que deva ter muitas outras legais para compartilhar! Meus parabéns e ainda bem que o Carlos Alberto não ficou mais bravo com você haha

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