Caro amigo Alvaro,

Que grata surpresa receber sua simpática missiva ao fim do jogo de ida da semi da Copa do Brasil. Como é do seu feitio você aparece compartilhando conhecimento, exaltando nossos grandes das artes e, o traço que mais admiro em sua prosa, indicando onde e como podemos mitigar nossa ignorância. Após o conciso  e inspirado perfil biográfico do rubro-negro Wilson Baptista com que me brindou nos primeiros parágrafos da sua carta a referência ao livro “Wilson Baptista: o samba foi sua glória! “, do Rodrigo Alzuguir, foi mais do que uma cortesia, a entendi como um auxílio necessário a um neófito na história da música popular do meu naipe.

É verdade que logo depois você não se furtou a relatar o “mico” do lançamento do hit “Samba Rubro-Negro” em um malsucedido Fla-Flu de 1955. Fato que eu desconhecia, mas que confirma de maneira insofismável duas verdades não muito confortáveis para nós. A primeira é que o Flamengo sempre se dá mal em campo quando se deixa levar pelo clima festivo e faz dos seus jogos no Maracanã instrumento de promoção, seja comercial, pessoal ou política.

A segunda verdade é que desde priscas eras os botafoguenses tem encontrado mais diversão nas derrotas do Flamengo do que com os próprios triunfos. Note que em 1955 Flamengo x Botafogo se enfrentaram apenas 3 vezes. No Rio-São Paulo ficaram no 0x0 e nas duas partidas pelo Carioca o Flamengo venceu por 1×0 e 2×0. Dado seu vasto conhecimento sobre a história do nosso certame praiano nem preciso dizer que em 1955 o Flamengo foi Tri Campeão Carioca pela segunda vez.

Percebi sua preocupação com uma possível decepção da torcida do Flamengo no jogo de volta como genuína e por ela agradeço. Mas a considero ligeiramente despropositada, por não acreditar que o Flamengo, mandante, portador da obrigação moral de propor o jogo e partir pra cima do adversário, vá copiar a postura, me perdoe pela rudeza do termo, pusilânime que o Botafogo adotou na quarta-feira. Você há de concordar que tal comportamento tático foge à natureza rubro-negra e, ao contrário do atual time alvinegro, aconteceu tão poucas vezes em nossos 121 anos de vida que a mera probabilidade de sua ocorrência em um jogo decisivo no qual entramos em ligeira desvantagem é estatisticamente desprezível.

Não foi porque não quis que o Botafogo não partiu pra cima do Flamengo, foi porque não sabe como faze-lo. Joga na retranca, esperando um erro do adversário ou, estes bem mais improváveis, um acerto de seus esforçados, mas limitados jogadores. Jogadores que, pude observar isto ontem, rendem bem mais quando se dedicam a jogar o violento esporte bretão do que quando se preocupam apenas em entrar deslealmente nas bolas, intimidar a arbitragem e se dedicar ao anti jogo. Que foi o caso do destemperado Pimpão e do limitadíssimo Carli, que para o bem do esporte, apesar da inépcia e covardia do árbitro anabolizado, já estão devidamente excluídos da partida decisiva. Assim como o inseguro Muralha, que cavou a própria expulsão.

Finalizando, Marechal, não há como não se solidarizar com seu lamento pela primitiva exibição de racismo e intolerância no estádio e não fazer coro à sua crítica à direção do Botafogo, vergonhosamente lenta na condenação do ato antissocial. Infelizmente o presidente do seu clube coloca os aplausos que angaria entre seus poucos seguidores muito acima do bom senso e da responsabilidade que o cargo que ocupa exige. E tem se mostrado um tolo, incapaz de escolher o lado e os aliados certos nas batalhas que tem travado. Lamento por você e por tantos outros alvinegros, mas a politica clubista é intrinsicamente venal e dela afasta os melhores. Você, sim, reúne em sua pessoa os predicados necessários à representação da torcida alvinegra. Mas isto você já faz muito bem sem precisar se envolver.

Quarta-feira que vem saberemos quem irá à finalíssima, do meu lado sigo confiante e até empolgado com a chegada do nosso treinador gringo. Que apesar de não ter agradado ao Jair Ventura, mostrou em pouquíssimo tempo que tem algo a ensinar aos nossos botocudos. A acusação de xenofobia foi um exagero, mas nisso dou um desconto pro Jair. Jair é Flamengo raiz, e como qualquer rubro-negro comum, Jair nunca está satisfeito.

Forte abraço,

Arthur

Foto: Nilton Claudino

Pra quem não leu a carta original do Alvaro Marechal:

Carta ao parceiro Arthur Muhlenberg

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Urublog, o Blog do Torcedor do Flamengo liderada por Arthur Muhlenberg.