Prezado amigo Marechal,

Bem podes imaginar a alegria provocada pela chegada de sua carta à minha desprestigiada caixa postal. Na profunda irrelevância da minha correspondência habitual, precedida por faturas de TV a cabo, resumos de notícias que não solicitei e cobranças sem fim, sua tréplica luzia como gema preciosa e provocou a mesma sensação do anúncio de um novo livro do autor preferido, daqueles que temos que começar a ler imediatamente.

Às vésperas de um jogo que se anuncia tão definidor para o resto do ano, tanto do Flamengo quanto do Botafogo, é absolutamente natural que nós, torcedores, procuremos extravasar a tensão acumulada através de atividades amenas que não estejam contaminadas pelo clima bélico com que se deixou envolver o jogo de quarta-feira. Diante das práticas vândalas dos biltres que insistem em deturpar o que o torcer tem de melhor, as diligências de caráter epistolar, mesmo quando provocativas, estão entre as mais benignas.

Marecha, apesar de nossas incontornáveis diferenças clubisticas o bom senso me obriga a concordar com sua teoria sobre a memória do jogo e o atavismo inerente em cada toque do pé na bola. Para mim o Flamengo x Botafogo de amanhã não existe, o que existe é a mera continuação do Flamengo x Botafogo ancestral da primeira vez em que nossos sportmen cruzaram os bigodes. E não falo do jogo de ida em General Severiano pelo Carioca de 1913, aquele 1×0 safado com gol da efígie Mimi Sodré. Falo da primeira vez que nossa rapaziada do Lamas enquadrou a playboyzada que fundara o Grupo de Regatas Botafogo em 1891 e que estava angariando simpatizantes entre as nossas minas, em um domingo na praia em frente à Corrêa Dutra.

Se o Flamengo deve a algo ou a alguém o milagre de sua gênese aqueles jovens bem-nascidos de Botafogo estão entre nossos supostos credores. Porque você sabe, Marechal, que a rivalidade entre Flamengo x Botafogo não nasceu em campo de futebol ou raia de remo. Nasceu da honesta, eterna e atávica disputa entre turmas de bairros contíguos pelas melhores mulheres da área. Um comando que já vem impresso no DNA de qualquer ser vivente, buscar as maiores chances de se reproduzir e transmitir às gerações futuras suas melhores características. Não é clubismo admitir, Marechal, que no mister de transmitir às gerações futuras suas melhores características, a pujança da torcida do Flamengo e seus assombrosos índices de crescimento atestam o triunfo da rapaziada do Lamas na questão fundamental da disputa. Isto é um eloquente exemplo que o podemos chamar de atavismo-raiz.

Mas se o jogo é sempre o mesmo, mudam os protagonistas e em sua carta você cita Zico, Romário, Rivelino, Messi, Robinho, Didi e, que honra ao moleque, Vinicus Junior. Como o imortal Valdir Pereira, Vinicius Jr. vai formar com los blancos no Real. Esperamos que ao contrário do que aconteceu com Didi em 1959, a joia rubro-negra não enfrente os ciúmes e preconceitos das outras estrelas de Madrid e possa mostrar nos relvados europeus o futebol de inventividade, malícia e abuso que começa a exibir por aqui.

No primeiro jogo da semi o moleque chegou a entrar em campo, numa das mais curtas atuações de sua carreira, saindo antes mesmo de tocar o balão para substituir o nosso goleiro expulso. Um pragmatismo de Reinaldo Rueda que muito preocupou a quem espera do treinador colombiano ousadias ofensivas e um Flamengo sempre prafrentex. Preocupação que foi parcialmente dissipada com a escalação de Vinicius Jr. no onze titular no ultimo jogo do Flamengo pelo Brasileiro. Rueda ainda é um mistério, mas a verdade numérica e estatística, Marechal, é que sob seu comando a série invicta do Flamengo já supera a do Corinthians. Vamos ver se ele mantém los cojones afuera no jogo de quarta-feira e efetiva o moleque de ouro do Real, digo, do Flamengo.

Vai ser um jogo terrível, disto não há duvidas. Esperemos que não tão mal jogado quanto o jogo de ida. E, principalmente, sem a barbárie institucionalizada que o cercou. Concordo com suas criticas à politica de preços do Flamengo, mas discordo de uma suposta má vontade com os alvinegros. O Flamengo esfola a todos os torcedores nas bilheterias, e os do Botafogo, ainda que muito mais escassos, ainda não fizeram por merecer qualquer distinção.

Talvez, quem sabe, um dia, se o Botafogo vier a ganhar alguma coisa além de comentários elogiosos da intimorata crônica esportiva tupiniquim e da piedosa simpatia que os azarões naturalmente angariam, este quadro pode vir a mudar. Por enquanto o Flamengo só quer ganhar o jogo de quarta e ajudar o Botafogo a se se focar nas competições remanescentes onde seu desafio não é pequeno. Na Libertadores lutarão em uma inédita quarta-de-final e no Brasileiro, tudo indica, na já tradicional pugna anual pela fuga ao rebaixamento.

Não pretendo com isso diminuir o Botafogo, sei bem quanto vale o que já foi até agora conseguido. Por isso mesmo vejo o Flamengo como mais favorito do que nunca para o jogo de quarta-feira. Para o alvinegro a derrota iminente poderá ser relativizada, nuançada, amenizada e contemporizada com os unguentos argumentativos das competições simultâneas, do menor poderio econômico, do belo trabalho feito até agora, etc, etc, etc. Ao Flamengo, diante de um improvável fracasso nada haverá além do vexame para o qual não serão aceitas desculpas. Se o Flamengo perder será a tragédia. Se perde o Botafogo será só mais um dia como tantos outros.

Para me despedir em tom mais amistoso e menos profético roubo uns versos de Vinicius, não o Jr., mas do Receita de Mulher do botafoguense de Moraes, que com brilho bem maior do que minha prosa ilustram os reais motivos de nossa rivalidade. Um forte abraço ao amigo.

As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize elegantemente em azul,
como na República Popular Chinesa)
( . . . )
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.

Mengão Sempre

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Urublog, o Blog do Torcedor do Flamengo liderada por Arthur Muhlenberg.