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Flupress / Leonardo Bagno

A Torcida do Fluminense – Parte 1

A Torcida do Fluminense – Parte 1

Tricolores,

Depois de dois causos de experiências minhas em jogos, acho que chegou a hora de começar a conversar com vocês um pouco sobre algo que me fascina desde os primeiros anos de vida: a torcida do Fluminense. E, para falar sobre isso, nada melhor do que retornar cerca de 30 anos no tempo para tratar de dois jogos que mais me marcaram quando criança. Um aconteceu em 1987 e o outro, dois anos depois (este abordarei no próximo sábado).





O jogo de 1987 foi contra o São Paulo, no Maracanã, e ocorreu no dia 08 de fevereiro (veja o gol da partida abaixo). Coisas do futebol brasileiro, a partida era válida pelas quartas-de-final do Campeonato Brasileiro de 1986 (competição na qual o Botafogo foi rebaixado – minuto 1:34 do vídeo -, mas foi beneficiado com uma virada de mesa e jogou a primeira divisão em 1987, assim como o Coritiba). Eu estava de férias escolares e retornava para casa com a minha família de um clube serrano que frequentávamos em Nogueira – RJ. Meu pai, sabedor da existência do jogo, planejou o retorno logo após o almoço e, estrategicamente, pegou a Francisco Bicalho, que estava, assim como nos dias de hoje, completamente engarrafada por causa do jogo.

Eu, que não fazia ideia do que estava acontecendo, na inocência dos meus 9 anos, comecei a notar que em todos os carros e ônibus havia pessoas com a camisa do Fluminense. Carros e mais carros com bandeiras de todos os desenhos e tamanhos nas janelas com o verde, branco e grená. Alguns completamente cobertos com bandeiras imensas do Fluminense. Comecei a achar aquilo tudo espetacular. Para onde eu olhava mais tricolores via. Todos entusiasmados e radiantes. Alguns, mais exagerados, soltavam morteiros, criando uma atmosfera caótica e bélica fantástica. Gritos de “NENSE” ocorriam invariavelmente.

Naquele jogo, o público pagante foi de 50.669, segundo o site http://www.rsssfbrasil.com/miscellaneous/attfluminense.htm. Contudo, importante ressalvar que não era raro a evasão de renda naquela época. Um problema que todos os clubes viviam ao jogar no Maracanã da SUDERJ e não conseguiam se desvencilhar. O público presente, certamente, contava com mais 10 mil pessoas neste número dado como final. Facilmente.

Quando finalmente chegamos no final da Francisco Bicalho, meu pai, em vez de pegar a esquerda, em direção à nossa casa, virou para a direita, em direção ao Maracanã, e imediatamente puxou o freio de mão, passando o carro para a minha mãe. Tirou-me do carro ali no meio da rua mesmo e rumamos para a bilheteria para comprar ingressos.

Meu coração bateu tão forte que não sei explicar com palavras o que senti naquele momento. A alegria e emoção de finalmente ir a um jogo cheio e decisivo do Fluminense eram, como já dito, indescritíveis. Fazer parte daquele “exército” que se dirigia ao “campo de batalha” era motivo de orgulho e, claro, criava um sentimento único de pertencimento.

Assim como hoje, ficamos muito tempo presos nas intermináveis filas do Maracanã, sem nenhuma autoridade para organizá-las. Era um cenário de selva, onde a lei do mais forte provavelmente prevaleceria. Só que ali eu recebi a minha primeira lição do que é a torcida do Fluminense. De maneira ordeira, todos esperavam na fila pela sua vez. Evidente que volta e meia aparecia um esperto para furar a fila, que era imediatamente rechaçado pelos demais aos gritos de “Aqui não é Flamengo!” – argumento suficiente para qualquer tricolor se dar por conta de que não está se comportando como um tricolor deveria. O meu fascínio por nós começara.

Mesmo com a boa educação por parte da nossa torcida, somente tivemos acesso aos ingressos com a partida já iniciada devido à morosidade dos bilheteiros do estádio. A correria para a entrada do Bellini era generalizada. Todos indo em direção às roletas para enfrentar mais uma guerra. Não havia organização alguma. As pessoas chegavam àquele ponto de todos os sentidos, sendo impossível saber onde estava o final da fila, que, na verdade, era inexistente. Parecia uma cena do seriado The Walking Dead. Um aglomerado de pessoas, todas espremendo-se para conseguir acesso às entradas. O verdadeiro mar de gente. Não tinha como ter controle de absolutamente nada uma vez dentro desse mar. Os movimentos eram ditados pela massa e a única coisa que se podia fazer era encolher os braços para protegê-los. Deixá-los esticados era um convite e tanto para que fossem quebrados. Ainda mais os de um menino de 9 anos.

Recebi, então, a segunda lição. Os tricolores em volta, ao me verem no meio da multidão, faziam força no sentido oposto para que eu pudesse, na medida do possível, respirar e não ser sufocado, mesmo com o meu pai me protegendo o máximo que podia. O meu fascínio, então, aumentou.

Finalmente passamos pelas roletas. Hora de subir as rampas do Maracanã, momento mágico para qualquer um, especialmente para uma criança. Os torcedores que chegavam vivos até aquele ponto pulavam e corriam para alcançar as arquibancadas, gritando palavras de ordem em prol do Fluminense. Aquele ambiente completamente insano me entorpecia de tal maneira que a sensação que eu tinha era da inexistência do tempo. Tudo era especial. Do cheiro de pólvora misturado com o de urina ao barulho causado pela cantoria, gritos da torcida e explosões de morteiros.

Olhando para todos os lados para conseguir absorver os mais minúsculos detalhes, esquecia-me de correr para chegar na arquibancada. Meu pai me puxava pela mão, ansioso por chegar logo no Maracanã propriamente dito e ver o jogo. Quase no final da subida, veio um estrondo. Sem entender o que tinha acontecido, olhei para o meu pai, que estava com os braços para o alto, sorriso no rosto e dizendo continuamente: “- Gol do Fluminense! Gol do Fluminense!”. O barulho era ensurdecedor mesmo sem estarmos sentados na arquibancada. A estrutura de concreto do estádio balançava. E aquela atmosfera caótica que já existia antes do gol tornou-se ainda mais caótica. Tratava-se de uma catarse coletiva.

No meio daquela balbúrdia, aumentamos a velocidade da corrida para, enfim, alcançarmos a arquibancada. Depois de entrar e sair por várias vezes para achar um túnel de acesso que desse para passar pelas pessoas, encontramos um espaço apertado para sentarmos no que um dia foi um estádio de futebol. De frente para o sol, num calor infernal do Verão carioca, acompanhamos o restante do jogo para o meu total deleite.

Não me lembro do jogo em si. Lembro-me, entretanto, da nossa torcida, colorida e cheia de bandeiras, com os degraus do Maracanã completamente batizados de pó-de-arroz. Aquele cenário era encantador. Lia e relia, como se tivesse teste surpresa no colégio no dia seguinte, todas as faixas da nossa torcida: Força Flu, Garra Tricolor, Young Flu, Influente, Maricá Flu, Fiel Tricolor… Só parava de ler quando a torcida se manifestava por conta de alguma jogada realizada no campo. Assim que terminava a jogada de perigo, retomava a leitura.

Foi quando aconteceu o terceiro evento que me marcou e que demonstrou novamente a diferença da nossa torcida para as demais: o placar do Maracanã anunciou o primeiro gol do América, que disputava, por sua vez, as quartas-de-final contra o Corínthians, no Pacaembu. Imediatamente a torcida do Fluminense começou a aplaudir o resultado parcial do Diabo, seguido de gritos de Sangue! A nossa torcida, por alguns instantes, deixou de lado o Fluminense e concentrou-se em apoiar o América. Aliás, para que não digam que isso ocorreu apenas por ser o simpático time rubro da Tijuca, cabe registrar que este somente sumiu do cenário nacional justamente por causa da safadeza que fizeram com ele no campeonato Brasileiro de 87. Lembra-se da virada de mesa para colocar de volta Botafogo e Coritiba na primeira divisão, que mencionei acima? Pois bem, um dos prejudicados foi justamente o América que, revoltado com a situação, recusou-se a jogar o que seria a segunda divisão do Brasileiro daquele ano, que foi o que lhe ofereceram. Ali foi o início da derrocada de um clube que já duelou de igual para igual com Fluminense, Botafogo, Vasco e Flamengo. Inclusive, no Brasileiro de 86, eliminou o Corínthians e disputou a semifinal justamente contra o São Paulo, que acabou eliminando o Fluminense num jogo de volta para lá de polêmico.

Enfim, depois do jogo, com a vitória de 1 x 0 assegurada, fui para casa ainda mais tricolor, orgulhoso não somente pela vitória, mas especialmente por saber que fazia parte de uma torcida diferente.

De uma torcida que, desde sempre, não segue o rumo da obviedade, do comum. Tanto que assim diz Nelson Rodrigues sobre nós: Pode-se identificar um Tricolor entre milhares, entre milhões. Ele se distingue dos demais por uma irradiação específica e deslumbradora.

 

Saudações Tricolores,

Leonardo Bagno

ACRÉSCIMO DE TEMPO: + 2

46min: Emprestamos o Reginaldo para contratar o Luan, que foi vendido no recesso do Campeonato Brasileiro. Sem Reginaldo e sem Luan, contratamos o Digão. Não sei nem o que comentar sobre isso.

47min: Em 2014, no Copa do Mundo no Brasil, Fred foi execrado pela mídia e pelos demais torcedores, sendo chamado de cone. O mesmo tratamento acontece com Thiago Silva e aconteceu com o Branco, em 1994, e com o Félix, em 1970. Todos têm uma coisa em comum: ligação com o Fluminense. Incomodamos demais!

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Leonardo Bagno avatar
Eu sou Fluminense. O resto não importa.

2 Comments

  1. Frank Cavaliere avatar

    Muito boa história!

  2. Bruna Personal avatar

    Parabéns pelo texto

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