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Caio Barbosa / Flupress

A épica viagem do título da Copa do Brasil

A épica viagem do título da Copa do Brasil

Copa do Brasil: inesquecível.

A conquista da Copa do Brasil de 2007 teve, antes de a bola rolar, uma história épica que, salvo engano, contarei aqui pela primeira vez. A grande decisão aconteceu no dia 06 de junho, mas a história começou antes, bem antes. Tão logo o Fluminense venceu a semifinal, falei com Emiliano:

– Vamos para Floripa, né?





Ele, de pronto, disse que sim, mas ainda tinha um porém.

– Vamos de carro. É preciso que a gente dê nossa cota de sacrifício, se não, não vai rolar o título. E pode deixar que a cota é minha. Eu dirijo na ida e na volta. Tu vai de co-piloto.

Ele assentiu, já sem muita convicção, mas assentiu.

Para mim seria tranquilo, pois estava em transição do Lance! para o Globoesporte.com, onde iniciaria os trabalhos no dia 1 de junho. Mas como a rapaziada lá era maneira e o Emiliano era um dos chefes, não houve problema em adiar a estreia para o dia 7, para que eu pudesse ir a Floripa simplesmente assistir ao jogo. E como o Emiliano tinha uma pá de folgas a tirar, seria uma viagem divertida.

“Seria” vem do verbo “não será mais”. Uma semana antes da viagem, Emiliano chega e, constrangido, diz:

– Bicho, não vou de carro, não. Vamos de avião.

– Pô, de avião a gente vai gastar dinheiro, não vai dar a cota de sacrifício e vamos voltar de lá vice-campeões. Tô fora. Vou de carro.

– Carro não vai rolar. Minha mãe e minha namorada estão dizendo que é loucura, que a gente vai beber e morrer na estrada…

– Morrer em estrada? Ninguém morre em estrada, não. Fala para elas virarem a boca para lá. Vamos de carro.

– Vai lá e fala você. Eu não tô a fim de comprar briga com mãe e namorada de uma vez, não.

– Mas eu não tenho dinheiro para a passagem.

– Eu pago no cartão em dez vezes e você me dá. Vambora.

Eu achei que havia um certo bom senso nisso e, desta vez, assenti. Mas ainda preocupado com a dose de sacrifício que era preciso dar, e estávamos ignorando.

Os dias se passaram, o Emiliano comprou passagem para terça, a fim de que chegássemos à Ilha da Magia à noite, tomássemos uma meia dúzia por lá, e na quarta já comaçássemos o churrasco na porta do Orlando Scarpelli por volta das 9 da manhã, como de hábito.

A questão é que no dia anterior, segunda, eu tinha uma audiência no Fórum contra o Estado e a Polícia Militar, que havia arrebentado a minha cabeça exatos dois anos antes, em outra final da Copa do Brasil, que o Fluminense perdeu, após eu escrever no bloco de anotações o nome dos PMs que lincharam um sexagenário pelo simples fato de ele ter, por falta de opção, urinado dentro de um copo descartável.

A epopeia deste processo já foi contada aqui, mas resumidamente lembrarei que, uma semana antes da audiência, fui alertado pelo porteiro onde morava que de um misterioso carro preto, todo insufilmado, desceram dois caras, vasculharam e fotografaram o meu carro, que ficava estacionado em frente ao prédio. Apesar de eu ter como minha testemunha de defesa no processo um coronel da PM, fiquei receoso de passarem o rodo em mim e na minha família. Quando cheguei ao Fórum, lembrei da passagem comprada, da cerveja gelada, de tudo o que estava por vir e de uma vida que estava a perder, e abri mão da ação. Eu realmente fiquei com medo de ser executado pela Polícia, prática comum no Rio de Janeiro, e deixei para lá.

A final, a rigor, começava ali.

Tomamos uma meia dúzia na segunda mesmo, e na terça fomos para o Aeroporto, que já estava apinhado de tricolores. Eram tempos de caos aéreo e Marta Suplicy, ou seja, o voo, que tinha conexão em São Paulo, atrasou. Não havia problema, afinal, faltavam mais de 24 horas para o jogo. E as geladeiras do Galeão estavam abastecidas de Itaipava. O problema é que o voo atrasou três horas, e acabamos com as Itaipavas do aeroporto. Mas o pássaro de aço, enfim, chegou, e embarcamos rumo a São Paulo. Mas não havia cerveja no avião. Desespero. Até que surgiu uma garrafa de Absolut, ou mais de uma, sei lá. Alívio. A festa continuava. Até chegar em Guarulhos.

– Senhores passageiros, lamentamos informar, mas os senhores deverão fazer a troca da aeronave para seguir a Florianópolis. A Gol agradece pela preferência.

Até aí, tudo ótimo. Trocar de aeronave significaria beber mais uma meia dúzia em Guarulhos antes de seguir viagem. A questão foi: e o avião do trecho SP-Floripa? Sumiu. Desapareceu. Não havia mais voo. Fim de jornada, fim de aventura, fim de final de campeonato, fim de tudo. O pau começou a quebrar no aeroporto e eu, tirando lucidez sabe-se lá de onde, pensei: “vamos sair dessa confusão. Ainda faltam 18 horas para o jogo. São 3 de manhã. Se a gente ficar na confusão, vai todo mundo para a cadeia, e aí que não vai ter jogo mesmo”.

Quando o Emiliano tentava me tirar da confusão sem sequer me achar, eu já estava no balcão da Localiza.

– Quero um carro, por favor. Duas diárias, com seguro e quilometragem livre.

– Duzentos reais, senhor. Habilitação?

– Não trouxe.

– O senhor vai dirigir como?

– Isso é comigo, com todo o respeito. Eu quero o carro. A senhora é da polícia ou da locadora (risos)?

– Meu senhor…

– Minha senhora, o carro. Aliás, se eu deixar o mesmo em Florianópolis amanhã, numa agência de vocês, daqui a 8 horas, fica mais em conta?

– Em Florianópolis?

– Sim.

– Não. Fica muito mais caro. Oitocentos reais, porque alguém vai ter que trazer o carro para cá.

– Gente, mas eu vou gastar 200 para ir e vocês gastam 600 para voltar? Como assim?

– É assim…

Como eu não tinha tempo nem por que ficar ali discutindo contrato, às 3 da manhã, pedi:

– Me dá o carro. Bota aí os 800…

– Habilitação. Eu preciso de uma.
Como eu não queria mais perder tempo…

– Emiliano, vem cá. Trouxe a habilitação? Me empresta aí.

Mais chegado na cerveja do que na vodka, o rapaz mal conseguia falar. Apenas balbuciava palavras incompreensíveis. “Nense, porra”, foi a única coisa que entendi. Mas ele me deu a habilitação.

– Este senhor que vai dirigir o veículo?

– Minha senhora, por favor. São 3 da manhã, tá frio, não tem avião. Bote os seguros que a senhora quiser na apólice. Deixa que eu cuido dele, do carro, do contrato. Eu só preciso da chave, sim?

Chave na mão, contrato assinado, chega o carro. Na hora de entrar, chegam duas figuras. Um como eu, outro em coma, tipo o Emiliano. Eram os caras da vodka.

– Vocês vão de carro?????

– Vamos!

– Putz, podemos ir com vocês? – perguntou um deles, dando a certeza de que ali estavam mais dois doentes.

– Claro. Você nos deu a vodka, agora a gente dá a carona.

– Não, pô. A gente ajuda. Quanto ficou isso tudo? – perguntou de novo, dando a certeza que ali estavam dois doentes, mas gente finas.

– Cara, deu oitocentas pratas. Mas agora já foi, no cartão, em 35 mil vezes. Você paga o pedágio ou quanto achar justo.

– O justo é a gente dividir o pedágio, a gasolina e a grana. Toma aqui quatrocentos.

Naquele momento conhecíamos os irmãos Leonardo e Rodrigo, que viraram nossos irmãos, e eu tive a absoluta certeza de que não morreríamos na estrada e seríamos campeões.

– Mas quem dirige? – perguntou o Leo.

– Eu, óbvio. Não vou dar o carro na mão de um bêbado, nem fodendo – brinquei.

– Mas vai devagar – ele ponderou.

– Se eu for devagar, vou dormir. Entra e dorme você, que daqui a pouco a gente está lá.

Já não dava mais para dormir. No banco de trás, Emiliano e Rodrigo já dormiam um em cima do outro. Ou seja, pé na estrada.

Três da manhã, Rodovia Régis Bittencourt (a rodovia da morte) e nós quatro no único carro da estrada. O resto, só caminhão. Daqueles de cinco eixos. 4 horas depois, Leo, já curado do porre, pede para dividir a direção. Eu aceito. Cinco minutos depois, POU!, estoura o pneu, carro no acostamento, tensão. Caminhões a 160 km/h. Um frio mortal. Não conseguia trocar o pneu. A tensão era tanta que os outros dois curaram do porre e vieram ajudar. Pelo menos com apoio moral. Conseguimos. De volta ao carro, ao aquecedor, retomei o volante até o primeiro posto. Um café. Dois. Para descongelar. Um chocolate quente também. Alguém pediu uma cerveja. Volta para o carro.

O dia clareou, Nense pra cá, Nense pra lá, deu meio-dia, chegamos a Floripa. Dormir? Nada. Trocar de roupa. O frio e o sereno na hora de trocar o pneu molharam a calça. A sensação era a pior possível, mas a sede era imensa. Paramos no Mercado Municipal e encontramos a diretoria tricolor, já de porre. O único sóbrio era o Alcides.

– Porra, Alcides. Nego já tá no veneno? Clima de já ganhou? Que porra é essa?

– Relaxa, Caio. Deixa nego beber. São duas décadas sem título nacional. Para de encher meu saco, bebe sua cerveja e depois me diz se a gente ganhou ou não – disse o danado, explicando suas razões para crer no título.

Tranquilizei-me, tranquilizei a galera e disse: “vamos beber mais meia dúzia. Seremos campeões”. Tomamos mais uma meia dúzia de meia dúzias, e fomos para o estádio. Cadê que tinha táxi. Não tinha. Esperamos meia hora por mim. Até que chegou Sandro. Gordo. Imenso. Só tinha um dente na boca. O lateral esquerdo. Dentro de um Fiat Uno caindo aos pedaços. A visão do inferno.

– Vocês vão para o estádio?

– Vamos.

– Puta que pariu. Que maravilha.
Imaginei que ele estivesse de zoeira com a nossa cara. Ou que fosse nos levar, só de raiva, para a sede da torcida organizada do Figueirense. Alguma merda ia dar. Mas não.

– Eu sou Avaí, gente. Vou levar vocês e esperar vocês na porta. Vai ser minha última corrida hoje. Faço questão de ficar na porta do estádio para olhar para a cara daqueles imundos perdendo a final para vocês. Fiquem tranquilos. Quando acabar o jogo, eu estarei lá. Feliz da vida, para levar vocês pro bar. Tá vendo esse dente aqui? É o único que tenho, para rir desses merdas. Vai dar Fluminense. Pode me cobrar – disse Sandro, o taxista.

Diante de tanta coisa, não havia como dar errado. O resto vocês já sabem. O gol foi do lateral esquerdo, o mesmo dente do Sandro.

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Caio Barbosa avatar
Jornalista desde o século passado. Estudou na Universidade Federal FLUMINENSE e foi setorista dos clubes cariocas, inclusive o FLUMINENSE, pelo Diário Lance!, UOL/Folha, Jornal Extra e Globoesporte.com

3 Comments

  1. Leonardo Bagno avatar

    Hahahahahahahahahaha… Que maravilha!

  2. Regina Carino avatar

    Hahahahahahahahah…que grande e bela história!

  3. André Fernandes avatar

    HAhahahah história sensacional

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