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Emiliano Tolivia

Aquele bar ruim que você respeita

Aquele bar ruim que você respeita

Sabe aquele botequim, o velho bar de português, o cospe-grosso, o botecaço mesmo, que a gente sabe que não devia estar ali, mas adora? Ok, talvez nem todos saibam ou tenham adotado um para chamar de escritório. Seja por idade, seja por preferir “points da moda com letreiro em neon, visual requintado, camarão com sotaque, tofu defumado”, como canta meu eterno professor de gramática, o tricolor Paulinho do Cavaco, em “Saudade dos meus botequins”.

Suponhamos, porém, que o amigo leitor da Flupress entenda do métier, essa palavra tão démodé quanto a expressão démodé. Daqueles que pedem ampola em vez de garrafa, traçam o pernil do mostruário, rebatem com um digestivo e largam a pendura no prego.





Deu leitura? Pois bem. O Fluminense, este time do Fluminense, é aquele bar ruim que você respeita.

Para quem curte um aprazível pé-sujo, isso é um grandioso elogio. E, para quem atravessa a rua ao ver uma analogia, ainda está em tempo de conhecer. Recomendo.

A vitória sobre o Cruzeiro, da forma que foi, merece um brinde. Entre o torresmo e a moela do balcão lá na frente, tem Marcos Júnior, muito bem recolocado no time titular, e tem o Pedro. Vale uma pausa para nosso bravo Dom Queixote, que não é o de Cervantes, e até outro dia poucos apostariam um filé com abacaxi nele.

– O Pedro é bom. Ele precisa jogar. Você vai ver. Ele arrebenta – disse-me, algumas vezes pelos bares de Laranjeiras, um amigo dado a acompanhar a base com afinco.

Pedro comemora gol do Flu contra o Cruzeiro. FOTO: LUCAS MERÇON / FLUMINENSE F.C.

Sempre rebati de primeira, à la Gum. Pedro me parecia um jogador ainda um tanto quanto molenga, sem força e tempo para o profissional, de pé murcho e com uma fé inabalável de ser uma mistura de Ibrahimovic com Van Basten. Não retiro o que achava naquele momento, mas… hoje, já o vejo diferente. Consigo, enfim, constatar qualidades que nem por uma lupa eu enxergava.

Sim, o Pedro acredita ser o Van Basten – mas aquele passe de peito até que foi bonito… Olha no espelho e vê o Ibra – mas, rapaz, se ele não escorrega naquela chaleira contra o Cruzeiro, já pensou…

O pé está menos murcho. Falta ganhar mais disputas na cabeça, até por sua estatura. Mas é inegável que o começo de ano dele é bom, com gols e assistências. Não é fácil descolar um centroavante por aí e, se existe algo tão tradicional no Fluminense quanto pó-de-arroz, 1 a 0 e ganhar Fla-Flu, é ter um camisa 9 de ofício. Já que tal dourado foi virar ouro de tolo lá pelas bandas da Gávea, deu-se um jeito novamente.

Bar ruim, no entanto, não tem apenas coisa boa – por mais contraditória que seja a frase. A vitória foi maiúscula, mas achamos um gol. E, como quem vive de queixada é ouvidoria, é preciso avisar: são 38 rodadas ao todo.

O Cruzeiro é um habitual freguês do Fluminense. Thiago Neves jamais estragaria a festa. Mas, fosse o adversário o Real Madrid ou o Cosmos do Pelé, aquelas bolas no fim provavelmente entrariam. Com um a menos então… Gum é a personificação do time de guerreiros, mas é um só.

Renato Chaves tem alguma qualidade com a bola nos pés e no jogo aéreo no ataque. Frazan é esforçado. Porém, na maior parte do tempo, fico com a impressão de que são fantasmas, espíritos, hologramas, ideias. A bola sempre – sempre! – passa por eles. Por mais que marquem, estiquem a perna, desviem de leve, a desgraça redonda segue sua dolorosa trajetória rumo ao adversário. É desesperador.

Não fosse pelo Júlio César, nós estaríamos no Bar dos Esportes até agora reclamando do empate e das absurdas oito translações de acréscimo. Aliás, se na Copa de 2014 agarrasse este Júlio César de domingo, e não o ou7ro, aguardaríamos neste momento, ansiosos, o hepta da Seleção.

Se nosso chope está meio cheio ou meio vazio, as próximas 36 rodadas dirão. De um jeito ou de outro, acredito que esteja morno como um cobertor curto. Tão tradicional nas Laranjeiras quanto o que listei anteriormente são as lesões. Ao menos a estrutura vem melhorando gradativamente, e podemos contar hoje com o Filé e não um pajé.

Uma rezadeira ou o Gum santo guerreiro lá no alto da prateleira, porém, pode vir a calhar para defender um time feio, mas que mata um dragão por jogo, e a gente respeita.

SEQUÊNCIA FAVORÁVEL

E se precisamos que o Fluminense jogue uma decisão a cada rodada, nada mais justo que esperar o apoio da torcida. Desde que cometeram o crime com o Maracanã, lá nos idos de 2010 (saudades, 2010…), a torcida nunca se reencontrou de verdade. Mas isso é assunto para ser destrinchado em outra oportunidade.

Conto com uma presença maior da torcida para empurrar o Fluminense o jogo todo, deixar a vida na arquibancada, sair suado, rouco, cansado – e, principalmente, para tirar a gente daquela porcaria de Sul Inferior.

Graças ao bravo Gepe, no último domingo os cruzeirenses assistiram à partida em melhor localização que a torcida da casa, em decisão absolutamente nonsense. Como se já não bastasse o inacreditável novo esquema feito pela mesma polícia para a retirada das gratuidades, em dias anteriores ao jogo. Tudo, enfim, para atrapalhar a vida do torcedor.

Apesar dos clássicos neste início de Brasileirão, a tabela é até favorável (São Paulo em casa, Vitória fora, Botafogo no salão de festas, e Atlético-PR e Chapecoense em casa). Uma boa sequência agora pode ser determinante não só para o já famoso mantra dos 46 pontos, como também para sonhos mais altos.

DISSERAM QUE ELE NÃO VINHA…

Achou que não ia ter cornetada na diretoria? Achou errado! Qual não foi minha surpresa ao ver, após a heroica vitória sobre o Cruzeiro, um Pedro Abad todo faceiro dando entrevista coletiva. Não é possível.

O presida não dava as caras desde a conquista da Taça Rio, quando, evidentemente, saracoteou pelo Mário Filho. Se até a Flusócio voltou toda serelepe a publicar um texto em seu blog após dois meses, bem como vários perfis de apoio à gestão em toda a rede, imagina se o prócer não ia dar as caras? Imaginou certo.

E aí o tempo passou. Explicações sobre o Scarpa? Não tem. Sobre o desastrado e-mail do Marcelo Teixeira abrindo mão de uma fortuna pelo Diego Souza? No hay. Respostas ao Conselho Deliberativo do clube? No, no, no.

Eis que surge o Abad para reclamar da arbitragem “apesar da vitória”. Ora, ora. “Apesar da vitória” fica ali, se equilibrando entre o cinismo e o oportunismo – este escancarado na promessa de “estudar uma promoção para o jogo contra o São Paulo”.

Em que pese o Fluminense praticar preços relativamente baixos, se comparados aos demais grandes clubes, e o absurdo de o Maracanã não ter mais fisicamente um setor popular, a pergunta é: para que esse discurso, se não vai cumprir? Jogar para a galera? Que galera?

Para pra ver quem quer.

– Prova – mais uma – de que o elenco é curto é ver João Carlos e Luan Péres chegando e já jogando. Pela lógica, no domingo estreia o Dodi.

– Oito minutos? Não invadiram o campo, não teve infarto, a arquibancada não caiu, o Cometa Halley não atingiu a Terra. Isso não é acréscimo, é prorrogação.

– Conca não vem, não preciso mais pensar sobre essa possibilidade.

– Gum em ano par costuma dar caldo.

– Seleção Sub-20 convocada. Nenhum jogador da maior base de todos os tempos das galáxias. Zero. É muito Samorim para pouco Xerém.

– E, se estão subindo todo mundo ao mesmo tempo para cobrir necessidades do profissional, lamento informar: os culpados são de casa da mesma forma.

– Alguém sabe do Robinho? Anda tão sumido que a família já deve estar preocupada.

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Jornalista e pitaqueiro, andou metendo o bedelho no GloboEsporte.com, LANCE! e no balcão mais próximo.

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