Quem está acostumado com meus textos talvez até estranhe. Considero-me um critico combativo a tudo de ruim que vem sendo feito nos últimos ano quando o Fluminense entra em campo. A regra é falar sobre partidas sofríveis, perebas envergando nossa camisa, sucessão de jogos nos quais apresentamos um péssimo futebol, fruto da desastrosa proposta de Fluminense que emana da direção do clube e que vem nos apequenando campeonato após campeonato.

Mas hoje é o dia de negar o óbvio.





De ir inclusive contra os fatos. Porque eles até costumam seguir a lógica, mas nem sempre é assim.

Ontem não foi.

Dormir foi difícil. Perder pro Botafogo de Pimpão, Kieza e Lindoso é dose pra mamute. Time sofrível, sem opções viáveis de jogo, com uma camisa que tem lá o seu peso, mas que, honestamente, não mete mais medo em ninguém.

Talvez fosse dormir melhor se o time do Fluminense tivesse jogado o mesmo futebol modorrento dos últimos anos, das últimas temporadas.

Mas o feio, o truncado, o irritante, isso tudo deu lugar a algo que move o coração do torcedor como o vento move o moinho: a esperança.

Que jogo, meus amigos. Que jogo. A grandeza do Fluminense nunca esteve apenas nas conquistas. Um time é grande ou pequeno em função dos caminhos que trilha. E é possível sim celebrar vitórias como a de ontem, ainda que desacompanhadas de qualquer pontuação na tabela.

Ontem me vi menino. Ontem senti prazer vendo meu clube querido. E será sempre assim quando me deparar com um time que alia raça e um futebol bem jogado.

E o Fluminense jogou pra cacete.

Vi um time consciente, marcando lá em cima, ocupando os espaços. Vi um desenho tático funcionar brilhantemente com dois alas ofensivos, dando amplitude ao jogo, invertendo os lados das jogadas, ultrapassando pelos dois flancos e fazendo com que o meio de campo funcionasse para ditar o ritmo, uma vez que a defesa adversária tinha que se desdobrar para cobrir uma área enorme na qual criávamos.

E criamos muito. Vinte e duas finalizações, algumas provenientes de jogadas muito bem trabalhadas.

Vi dois laterais com desenvoltura, com gana pela linha de fundo (infelizmente o Marlon não atingiu o nível do Ayrton, que saiu machucado), vi nossos volantes pegando firme e saindo fácil pro jogo, escolhendo bem os passes, vi um Sornoza que há muito tempo não jogava como um 10 de verdade propondo o jogo, chegando para finalizar e vi um centroavante que jogou como se já estivesse pronto, abrindo espaços, fazendo o pivô, achando bons passes.

Uma pena que nossa zaga, que foi firme por baixo, tenha perdido para o pragmatismo de um futebol sem graça com o qual tantas vezes ganhamos nos últimos anos. Dois gols surgidos de cruzamentos que poderiam ter sido cortados. Duas falhas que nos tiraram pontos, mas não nos tiraram a certeza de que temos um time capaz de evoluir e de brigar na parte de cima da tabela na via de um futebol de verdade.

Uma pena também que nossa opção de velocidade, um Marcos Junior brigador e valente, não esteja no nível do resto do time. Se ali estivesse um cara com mais recursos acho que teríamos feito os gols que não vieram mesmo após duas dezenas de chances criadas.

Bato palmas também para o Abel, a quem tanto critico por erros absurdos de leitura do jogo. Ontem ele acertou. Laterais cansados que foram bem recuados para a linha de quatro para abrir espaços para Pablo Dyego e Robinho continuarem dando amplitude ao jogo que massacrou os donos da casa por quase 90 minutos.

Curti a partida do Robinho enquanto esteve em campo. Tem cara de songa monga, às vezes se comporta como songa monga, mas tem futebol bem acima do que exibe o titular. E aí tem dedo do Abel na recuperação de um jogador que pode e deve ganhar mais chances para alcançar a titularidade.

Enfim, depois de muito tempo, ressurge em mim a esperança. Depois de muito tempo eu torço pro tempo passar rápido para ver meu time de novo em campo.

Um jogo? Sim, não há dúvidas de que é muito cedo para cravar alguma coisa.

Mas o primeiro passo também faz parte da caminhada.

O de ontem eu espero que seja o primeiro de tantos outros.

Se o Fluminense jogar o que jogou no resto do campeonato vai ser difícil de ser batido.

Os fatos, as estatísticas e até mesmo os três pontos perdidos podem ficar à espera de um crítico mais linear.

Não esperem isso de mim. Ontem reencontrei o Fluminense.

E ganhando ou perdendo, sendo Fluminense de verdade, isso me basta.

Parabéns à equipe. Ao Abel. À torcida que foi para nosso salão de festas.

Coisas boas virão se o Fluminense voltar a jogar neste campeonato.

Abraços tricolores.

CURTAS

– Quero ver o Nathan jogando de novo. Pela primeira partida que fez, parece ser bem melhor que as demais opções da zaga. É importante que tenhamos ali uma saída de bola mais qualificada.

– Uma pena a contusão do Ayrton. Marlon não tem a mesma mobilidade, apesar de eu reconhecer que tem um bom cruzamento, coisa rara nos laterais de hoje em dia.

– Partida primorosa do Gilberto. Primorosa. Muita vontade e excelente técnica. Está sendo nosso melhor jogador.

– Espero da diretoria do Fluminense apenas uma coisa para o jogo de volta: reciprocidade.

44 anos,  é advogado, autor da Ação Popular que possibilitou a volta do Pó de Arroz aos estádios e escreveu sobre Fluminense no Blog do Torcedor do Globoesporte.com entre 2012 e 2018.