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João Bolt

Ousar é necessário

Ousar é necessário

Em 1969 o Fluminense tinha um time formado por ótimos jogadores, quase todos contratados por preço baixo ou formados em casa. Os competentíssimos Oliveira e Assis vieram do futebol paraense. O craque Samarone foi achado na Portuguesa Santista, mesmo clube de onde veio o extraordinário lateral esquerdo Marco Antônio, ainda juvenil. Lula, outro craque, veio do Ferroviário de Natal, que nem existe mais. Cláudio, o Garcia, veio da Prudentina de São Paulo. Todos frutos de um trabalho que hoje tem o pomposo nome de “captação” feito com maestria. Denílson, o Rei Zulu, era prata da casa. Apenas o goleiro Félix e o zagueiro Galhardo já eram conhecidos no futebol quando chegaram ao Fluminense.

O Fluminense tinha em mãos um time barato montado com competência ao longo dos anos anteriores. Mas era um time que não fazia gol e não ganhava de ninguém. Se não tivesse contratado o centroavante Flávio dificilmente teria conquistado os inúmeros títulos que vieram a seguir.





Em 1980 o Fluminense tinha um time quase inteiro formado em casa, fruto de um trabalho de base espetacular nos anos 70. Trabalho de Pinheiro, José Faria, Nilson Mattos, Píndaro, entre outros nomes, que elevaram a formação de jogadores nas Laranjeiras ao patamar de excelência. Vindo de suas categorias inferiores o Flu tinha Paulo Goulart, Edevaldo, Tadeu, Edinho, Rubens Galaxe, Deley, Mário, Robertinho e Zezé. Poderia ter ainda Pintinho, Arturzinho, Gílson Gênio, Erivelto, Zé Roberto e outros tantos forjados no clube que já tinham ido embora. Ainda assim, se não tivesse contratado Cláudio Adão não teria conquistado o título daquele ano.

Em 1983 o Fluminense repetiu a receita de 69. Tinha ótimos jogadores descobertos antes de despontarem para o futebol como Paulo Victor, Jandir e Tato. Tinha jovens craques prestes a estourar como Ricardo e Branco. Tinha o já craque Deley, formado em casa. Tinha jogadores competentes contratados sem nenhum alarde como Aldo, Duílio e Leomir. E tinha feito um Campeonato Brasileiro bem apagado, sendo eliminado na segunda fase ao ficar em 3º lugar em um grupo que tinha Goiás, Náutico e Rio Negro. Se não tivesse contratado a dupla Assis e Washington no meio da temporada, certamente não teria ganho o carioca de 83. E se não tivesse contratado Romerito no ano seguinte, provavelmente teria parado por aí.

Em 1995 o Fluminense tinha os ótimos Lira, Djair e Aílton. Tinha o ídolo Ézio em curva descendente. E tinha uma série de jogadores esforçados como Lima, Sorley, Ronald, Rogerinho e Leonardo que funcionaram muito bem no esquema montado pelo técnico Joel Santana. É até desnecessário dizer que teria passado a temporada em branco se não tivesse contratado Renato Gaúcho.

Tirando a era Unimed, marcada por investimentos pesados, e os tempos da Máquina Tricolor do presidente Francisco Horta, quando também foram feitas grandes contratações, estes foram basicamente os momentos em que o Fluminense deu certo nos últimos 50 anos. O trabalho de garimpar e formar jogadores não só é louvável como, no cenário atual, indispensável, questão de sobrevivência. No entanto há um limite de onde se pode chegar com ele. Alguma ousadia é sempre necessária.

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João Claudio Boltshauser avatar
João Claudio Boltshauser (Bolt pra facilitar) curte escrever sobre o Fluminense Football Club, em especial sobre sua história. Aquela que traduz a predestinação para a glória.

12 Comments

  1. A dita “captação” anteriores visava tão somente o engrandecimento da instituição, o que infelizmente não acontece nos dias de hoje, onde jogadores são trazidos no único intuito financeiro, menosprezando até a capacidade técnica. Pobre Fluminense…

    ST!!

  2. Abigail Cavazos avatar

    Grande texto! Sou Flamenguista que ia aos estadios na epoca do Ezio… grandes duelos!

  3. Perfeito, Bolt. Você apontou em cada um dos times a importancia de contratações de gente que veio resolver. hoje, não estamos nem perto dessa realidade. Mas há um ponto no qual vale a pena debruçar: os jogadores captados ou da base em cada uma das equipes tiveram tempo pra jogar. Um time se monta e se entrosa jogando junto. Nossa política de base atual não é voltada para formar jogador pro time principal. É VOLTADA PARA VENDER JOGADOR na primeira proposta. O uso da base como celeiro pro time de cima é uma das coisas que distinguem clubes grandes e pequenos. O fluminense de Abad e Teixeira tem postura de times minúsculos. A base joga seis meses e quem pode virar jogador sai imediatamente. A conta não fechará. Abs

  4. Dedé Moreira avatar

    Reforçando o Gustavo

    O Grêmio segurou a molecada e hoje colhe fruto em forma de títulos e não em forma de retorno financeiro

  5. Regina Carino avatar

    Sou neta de pescador e adoro histórias bem contadas…
    Parabéns pelo texto, João Claudio!

  6. Thiago Reis avatar

    Excelente!!!!
    É sempre bom mostrar fatos pra fundamentar uma argumentação.
    A história mostra o caminho.

  7. João Claudio Boltshauser avatar

    Obrigado, Abigail. Obrigado, Regina.

  8. João Claudio Boltshauser avatar

    João Ricardo e Gustavo, as dificuldades hoje em dia são bem maiores. As restrições financeiras são enormes. Os jogadores, quase todos, sonham em jogar na Europa, e não no Fluminense. Todos eles tem empresários que trabalham diuturnamente pra tirar o máximo dinheiro possível em todas as situações. Mas mesmo com tudo isso é preciso encontrar um ponto de equilíbrio entre todos esses interesses para se conquistar alguma coisa. Me parece claro que o clube ainda não chegou lá. No momento está sendo um mero clube de passagem.

  9. Valterson Botelho avatar

    Beleza João. Você é muito bom. O Fluminense e a torcida tricolor lhe devem muito.

  10. João Claudio Boltshauser avatar

    Obrigado pelas gentis palavras, Valterson. Grande abraço.

  11. Tarik Moussallem avatar

    Prezados Bolt, Gustavo e Dedé: não acham que isso de segurar os principais valores da base só será possível quando deixarmos de ter orçamentos deficitários? Desde que acompanho o Flu, todo ano precisamos recorrer a receitas extraordinárias. Bem, vejo a gestão Abad tentando acabar com isso (prometeu fazê-lo até 2019, e me parece uma das únicas promessas em que houve avanços). Sem deixar de lado erros terríveis, especialmente no futebol, considero louvável a perseguição verdadeira desse objetivo. O que acham?

    No mais, excelente texto! STs, galera!

  12. João Claudio Boltshauser avatar

    Tarik, os balanços do clube tem mostrado um deficit crescente. Não é a minha praia mas tenho impressão que o Fluminense tem reduzido custos no futebol e aumentado no resto do clube. No mais, sem dúvida que enquanto o clube for deficitário será muito difícil reter bons jogadores.

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