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Flupress / Leonardo Bagno

Ser Fluminense

Ser Fluminense

Tricolores,

Eu tenho o privilégio de, haja o que houver, onde quer que eu vá, levar comigo as cores que herdei. Isso porque meu pai e minha mãe são Fluminense e foram eles quem me passaram o amor pelo verde, branco e grená. E é sobre essa herança, especialmente sobre o motivo dela ter sido aceita por mim, que eu gostaria de conversar com vocês hoje.





Inicialmente, importante contextualizar o que aconteceu durante essa passagem. Apesar de nascer em 1978 na Cidade do Rio de Janeiro, minha família mudou-se para Porto Alegre logo em seguida. Morei por lá durante seis anos, retornando para a Cidade Maravilhosa em 1984. Não tenho muitas lembranças sobre futebol nesse período. Minha relação com o esporte resumiu-se a participar de uma carreata em Porto Alegre para comemorar o título brasileiro de 1981 do Grêmio que o meu pai me levou. E só. Nunca tinha ido a um jogo de futebol – ou, se fui, não me lembro -, o que aconteceu somente no Rio de Janeiro.

Chegando aqui, fui morar em Laranjeiras (a nossa Meca). Tornei-me sócio do clube imediatamente, graças ao meu pai, e passamos a frequentá-lo desde então. Além de praticar natação, futebol de salão e passar o final de semana inteiro na piscina, jogando bola na Bené ou na society ou no ginásio ou nas quadras laterais, explorando a bocha ou o estande de tiro, o Fluminense ainda era o bicampeão carioca daquele ano e viria a conquistar o título de campeão brasileiro em cima do Vasco da Gama – clube contra o qual jogávamos com 11 vassouras e vencíamos por 2×0, gols de Piaçava -.

Percebe-se, com isso, que o cenário para eu ser Fluminense era amplamente favorável: pais tricolores, eu frequentando semanalmente o clube e títulos importantes sendo conquistados.

Contudo, foram esses fatores que realmente me fizeram ser Fluminense?

Parque aquático Jorge Frias de Paula

Frequentar o clube sempre foi prazeroso durante a minha infância. Nos finais de semana, havia tanto sócio no clube que era necessário chegar bem cedo à sede para conseguir espaço dentro d’água em uma das quatro piscinas. Eu não estou exagerando. A concorrência era tamanha que não era raro a foto do dia seguinte no O Globo ser a do parque aquático do Fluminense, retratando como ficaram lotadas as piscinas no dia anterior. O Mundialito que o Fluminense produzia (campeonato de futebol de salão disputado pelos alunos) era enorme e levava uma gama imensa de sócios para dentro do clube. Os jogos do Fluminense nas Laranjeiras também faziam com que as dependências do Flu ficassem apinhadas de gente. Enfim, tudo contribuía para que o carinho pelo clube surgisse e ficasse, mas posso afirmar que isso não foi determinante no meu caso.

Ézio comemorando gol com o time em Laranjeiras

Meu pais serem Fluminense também era outro fator importante (especialmente o meu pai que me levava aos jogos), porém não decisivo. Há diversos exemplos de filhos que torcem por outros times que não os de seus pais. Além do mais, não me lembro de ter sido forçado a torcer pelo Tricolor em nenhum momento. Em Porto Alegre, por exemplo, usava a camisa do Grêmio quando tinha meus 5 anos e ia andar de bicicleta no Parcão (espécie de Aterro do Flamengo deles). Minha irmã, outra vez, ainda bem pequena, escolheu a camisa do Flamengo (influência do meu avô paterno) para vestir dentre várias outras numa brincadeira que meu pai fez com a coleção de camisa de futebol que ele tinha. Ou seja, não houve pressão familiar alguma nesse sentido.

Por fim, mesmo o clube sendo multicampeão naquele período (foi tricampeão carioca em 83-84-85 e brasileiro em 84), não fui a nenhuma das finais disputadas. A única que poderia ter ido foi a final do Brasileiro. Meu pai, provavelmente preocupado com a minha segurança, acabou não me levando nas partidas decisivas. Alguém até pode me questionar que, mesmo não tendo acompanhado presencialmente as conquistas, os títulos foram comemorados, por exemplo, na escola, perturbando a vida dos amiguinhos não-tricolores. Isso certamente seria um fator determinante no processo de escolha do meu time. Ocorre que eu não me lembro de absolutamente nada daqueles títulos. Na verdade, a única lembrança que possuo é do meu pai me acordando para ir ao estádio das Laranjeiras, com uma faixa de campeão para mim, a fim de recepcionar o time após o título brasileiro. Todo o restante que eu sei sobre os referidos títulos veio depois, por conta da minha curiosidade e das fitas de VHS que meu pai levava para casa. Ou seja, também não foram os títulos conquistados que me fizeram amar o Fluminense.

Só que aquela noite, nas Laranjeiras, foi especial. Não pelo título em si, mas pelo primeiro contato com algo que realmente fascina: a nossa torcida. Em memória de criança tudo é superlativo. Daí que os devidos descontos devem ser concedidos. Lembro-me de ver o gramado completamente tomado, assim como as arquibancadas. Morteiros explodiam, pessoas corriam de um lado para o outro, bandeiras e bandeiras e bandeiras tremulavam em todos os lados que se olhava. Lembro-me perfeitamente de um jipe adentrar o gramado, abrindo caminho pela multidão, e uma pessoa, na parte de trás do carro, empunhando uma bandeira gigante do Fluminense, a maior que já tinha visto até então. Na ocasião, tinha apenas 6 anos.

Com 8 anos vem a primeira lembrança que tenho quando o assunto é conhecer futebol e, por conseguinte, ser Fluminense: Copa do Mundo de 1986, disputada no México. Vi absolutamente todos os jogos e, indo contra a maré, torci efusivamente pela Argentina de Maradona na final contra a Alemanha. E eu sei que já era Fluminense porque me lembro muito bem de ver o nome do Paulo Victor no banco de reservas da seleção em um dos jogos e comemorar justamente por ele ser jogador nosso. Lembro-me também de ser confortado pelo meu pai, após a derrota do Brasil para a França (graças ao Asa Negra, também conhecido por Zico, que deu, inclusive, origem à palavra “zica”*), dizendo-me que ainda tinha o tetra carioca a ser conquistado, o que acabou não virando realidade graças à uma decisão estapafúrdia que a Diretoria tricolor tomou à época, perdendo uma partida para o Americano por WO (vale pesquisar sobre o assunto ou perguntar ao Bolt).

Portanto, se o fato de frequentar o clube não foi determinante para a minha escolha nem os títulos conquistados nem a simpatia dos meus pais pelo Tricolor, o que me fez ser Fluminense afinal?

Pré-jogo na Eurico Rabelo

Após viver aquela noite nas Laranjeiras, experimentei, um pouco mais velho, o que sacramentou o meu amor pelo Fluminense. Vocês já vivenciaram um jogo com cem mil tricolores no Maracanã? Pois bem, ver a nossa torcida chegar ao estádio é o fenômeno mais bonito da natureza. Não à toa, volta e meia vê-se a torcida, ainda hoje, aplaudindo-se após alguma cantoria desenfreada na Eurico Rabelo durante o pré-jogo. Se eu fosse guia turístico no Rio de Janeiro, botaria os gringos num ônibus, com o segundo andar aberto, e ficaria dando voltas nas ruas no entorno do Maracanã, das 15h às 16h, em dia de jogo do Fluminense, servindo caipirinhas. Sucesso certo! Não existe espetáculo mais lindo do que ver um mar de camisas verde, branco e grená. Ou tem?

Desfile das bandeiras da Força-Flu.

Tem, sim! Subir as rampas do Maracanã ao som da torcida do Fluminense, tomar o rumo de um dos túneis de acesso para a arquibancada, ficar momentaneamente cego por causa da claridade que advém do sol numa tarde de domingo e, ao se ambientar, deparar-se com milhares de bandeiras nossas, desfraldadas, aos gritos incessantes de “NENSE”, faz qualquer criança que tenha amor no coração tornar-se tricolor. Soma-se a isso as centenas de bandeiras da Young-Flu, da Força-Flu, da File Tricolor, da Garra Tricolor e da Influente dando a volta olímpica no anel antes do time entrar em campo e a espessa nuvem de pó-de-arroz que impossibilitava a visão do gramado de qualquer ponto da arquibancada quando o time o adentrava. Pergunto-lhes: como torcer por outro time? Qualquer um, diante de tal cenário, encheria o pulmão e gritaria até perder as forças: “NENSE”, “NENSE”, “NENSE”! Pois foi o que eu fiz.

Ou seja, sou tricolor por causa de nós. E isso me faz acreditar que o Fluminense é a sua torcida. Evidente que nossos ídolos são importantes, nossos títulos são numerosos, nossas vitórias são épicas e nossa História é a mais rica. No entanto nada disso faria sentido se nós não estivéssemos na arquibancada, nas cadeiras, na geral. A nossa torcida faz o Fluminense F. C. ser quem ele é e este só existe por causa daquela.

E o que isso significa? Que a gente precisa perseverar. Não podemos deixar o Fluminense de lado. Por mais difícil que seja, por mais maltratados que sejamos pelas autoridades públicas e pela própria Diretoria quando rumamos para o estádio e enfrentamos longas filas mesmo num jogo com dez mil pagantes, temos que superar essas adversidades. Porque não estamos ali a passeio. Estamos ali como legítimos representantes da instituição desportiva mais tradicional e importante do mundo: o Fluminense F. C. E é preciso perseverar. Eternamente.

O Fluminense F. C.

Saudações Tricolores,

Leonardo Bagno

* Não faço a menor ideia da veracidade do que afirmei acima, mas que faz todo o sentido, faz!

 

ACRÉSCIMO DE TEMPO: + 3

46min: Está virando promessa de político, eu sei. O segundo jogo que mais me marcou quando criança virá no próximo sábado.

47min: Dois jogadores de 31 anos pelo Douglas. Bom, eu não sei quem são esses dois jogadores, pois eu não presto atenção nos outros times. Só leio, vejo e vou aos jogos do Fluminense. Nada mais me interessa. Só que, como disse, conheço o Douglas e se tem alguém querendo pagar dinheiro por ele, que se venda! Jogador com certa habilidade, mas com problema sério de saúde. A relação custo-benefício desportivo parece ser, para mim, negativa. Boa sorte ao jogador e vida que segue.

48min: Gum foi visitar o Scudi. Muito bacana a iniciativa do clube e do jogador. Que Scudi se recupere o mais breve possível. Um cara super alegre com quem tive o prazer de dividir algumas caravanas para ver o Fluminense jogar por esse país. E que os responsáveis por este ato de violência sejam punidos! A começar pelo resultado do jogo desta quinta, já que todos os criminosos eram vascaínos.

 

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Leonardo Bagno avatar
Eu sou Fluminense. O resto não importa.

2 Comments

  1. Welma Reis avatar

    Meu avô era um vascaíno doente e pra tá no rol dos netos favoritos do melhor avó vc tinha q torcee pro Vasco; meu pai, apesar de dizer que perdeu o encanto com futebol, ta sempre ouvindo pelo rádio aos jogos do Botafogo. Eu sou do interior da Bahia. Nunca fui ao Rio. Mas entendo isso de ser Fluminense por conta da torcida. Me lembro de assistir a alguns jogos do Vasco com meu avô pela tv e ficava encantada com aquela torcida verde, branco e grená. Aí fui crescendo numa paixão por literatura e música. Nelson Rodrigues com aquela paixão encantadora e Chico Buarque que posso jurar que escreveu pra mim a rrceita de virar casaca de neném, mas trocando o preto e branco pelo tricolor.

    Amo teus textos pq só alimentam ainda mais essa paixão chamada Fluminense.

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