Aguardo, com o coração partido, o fim da Copa do Mundo. E, com o coração apertado, a volta do Brasileirão. Sabedor de que será um segundo semestre bem difícil, hoje prefiro contar algo de bom – afinal, em se tratando de Fluminense, sempre há muita coisa boa para se escrever. Nada dessa turma que se apoderou do clube. Queria falar sobre a viagem que fiz com meu irmão Caio para Florianópolis, a fim de ver o Tricolor campeão da Copa do Brasil de 2007. Lá, aliás, encontrei também o Léo Bagno, que a partir daquele começo mágico da Legião virou um grande amigo. Tenho o prazer de dividir este espaço com ambos atualmente. 

Segue o causo. Direto do túnel do tempo.





***

Há 11 anos, o Fluminense retomava seu caminho e reencontrava seu tamanho ao conquistar pela primeira vez a Copa do Brasil. Estive em Florianópolis para ver a inesquecível vitória sobre o Figueirense. Como sempre, nada foi fácil – nem mesmo chegar lá.

Em resumo, viajei de avião e cheguei de carro. Foi um dia complicado desde o início. Vamos pelo começo da epopeia.

Talvez antevendo problemas, optamos, eu e Caio, por viajar na terça-feira, o dia anterior. Eram dois voos independentes, um para São Paulo, outro para Floripa, com três horas de intervalo entre eles.

Entrei cedo na redação para sair o quanto antes. Já na hora de partir, o chefe convoca uma reunião daquelas totalmente fora de hora. Especialidade da casa, foi esporro do começo ao fim – que nunca chegava.

Em determinado momento, foi preciso tomar a decisão. Levantar e ir embora, com o risco de demissão, ou perder o voo e a final. Abração aí!

Engarrafamento para chegar em casa, e ainda pior no trajeto ao Galeão. Chegamos enfim. Fila enorme na Gol. Sem ter feito check in online, o jeito foi furar a fila, contando – ou não – com a compreensão alheia.

Embarcados, em meio ao caos aéreo da época, começou o atraso. Havia vários tricolores viajando. Fizemos amizade com dois irmãos, Leonardo e Rodrigo. Não é exagero afirmar que acabamos com as Itaipavas de uns três quiosques.

Já no avião, a apreensão era pelo outro voo. Ao sermos informados pela aeromoça de que seria aquele mesmo avião, apenas com o número trocado, explodimos como em um gol.

De repente, sei lá de onde nem como, surge uma garrafa de Vodka. “Aroma” era o nome.

– Aroma, ê ê, Aroma, ei!!! – berrávamos, ao ritmo da música do Arouca, entre goles e goles que fariam inveja a hooligans russos e polonenses.

Em Guarulhos, aeroporto que daria muito bem para fazer a reforma agrária de tão grande que é, correria para reembarcar. Ao chegar no portão…

– Lamento, o voo aqui está no horário e vocês levaram “no show” – disse o lazarento Erik, funcionário de sotaque tão carregado quanto o gel em seu cabelo.

Começou então uma longa discussão entre dezenas de tricolores e a turma da Gol. Quando tentava ponderar com o bravo Erik, olho para o lado e vejo um conhecido, tal qual um urso polar, pulando o balcão de atendimento. No alvo, um camarada da empresa aérea que não teve ideia melhor que mandar um inacreditável piruzinho para o cliente.

Urso controlado, ânimos serenados, Erik diz que talvez – talvez… – haja um voo para Joinville no dia seguinte. Sai pra lá, gelzão.

Decidimos então: é para ser sofrido, vamos de carro.

Chegando na Localiza, encontramos os dois irmãos, que haviam tido a mesma ideia. Bonde fechado, partimos, bêbados e sem que ninguém soubesse, para uma viagem de 12h pela Régis Bittencourt.

Mais Dória que Haddad, Caio sai acelerando por uma daquelas marginais, sei lá qual delas. A multa da viagem veio com 15 minutos.

Optei por dormir. Acordo horas depois, carro parado, dia clareando.

– Chegamos? – pergunto, grogue.
– Nem perto disso. Furou o pneu.

Num frio daqueles, num descampado onde só se via uma choupana ao longe e mais nada, descemos do carro. Vesti as sete camisas do Fluminense que tinha levado e fui para a estrada sinalizar. De repente, dois caminhões dividem a curva.

– Ô Ó AEEEE, CACETAAAA, CUIDAD….!!!

E tome de tricolor pulando para o mato.

Em vez de meia-noite, chegamos meio-dia em Floripa. Sem a dormida planejada na casa de uma amiga, o jeito foi ir direto para o Mercado Municipal reabrir os trabalhos.

Hora de ir para o estádio. Logo na entrada do Orlando Scarpelli, vejo um tricolor com a camisa piano, de 92. Sim, a que o Flu perdeu um título da… Copa do Brasil. Não deu.

– Ô, amigão, você teve 15 anos para comprar uma camisa e vem logo com essa agourenta?????

E ROLA A BOLA

Não havia de ser nada. E não foi mesmo. Começa o jogo, gol do Roger – o verdadeiro e único possível -, atuações de gala de, quem diria, Fabinho Soldado e Fernando Henrique.

Na arquibancada, a consolidação de um novo formato de torcida e um interminável “Fluminense olê olê olê”, ao som de Yellow Submarine, que ficou meses para sair da cabeça.

Festa no hotel – foi o maior título da história do… Avaí -, uma noite de voltas intermináveis em busca de um bar aberto, sono dos justos, de penetra, no quarto de amigos jornalistas e hora de voltar para o Rio com o caneco na mala.

Não sem antes chorar como criança vendo o Globo Esporte no aeroporto.

Com sofrimento, com Erik, com Gol e gol, o Brasil era, novamente, tricolor.

– Eu não sei se foi a comissão técnica, a assessoria, o diabo a quatro. Mas é preciso dar os parabéns ao “jênio” que achou por bem não divulgar inicialmente o placar de um jogo-treino contra o Bangu – e que o Flu venceu! Piadas e memes se espalharam até que o placar fosse enfim “descoberto”. É incrível como essa turma expõe o clube a troco de nada.

– E, se não existe transparência em um jogo-treino contra o Bangu, imaginem em todo o resto…

– Bryan Cabezas? Sei lá quem é. Apenas sei que, por onde passou, quase não teve oportunidades. A ver.

– Douglas pelo Júnior Dutra só pode ser deboche.

– Kennedy fica no Newcastle. Cristiano Ronaldo pede Marcelo na Juventus. Só assim para entrar uma grana nos nossos cofres.

– Vivi para ver flusócio defendendo piscineiro. Inacreditável.

– Fica mais um pouco, Copa do Mundo!

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– “La Casa de Abel”

Jornalista e pitaqueiro, andou metendo o bedelho no GloboEsporte.com, LANCE! e no balcão mais próximo.