Foto: Maíílson Santana (Divulgação FFC)

Primeiro se foi o CEO que certo dia cogitou de colocar uma tela de led na camisa do Fluminense para alternar o texto do patrocínio.

Marcus Vinicius Freire iniciou seu estágio de luxo no Fluminense com muita pompa e circunstância, embora ele mesmo admitisse não conhecer o mundo do futebol. Criou uma vice-presidência comercial que fez muita espuma, muita permuta e trouxe pouco dinheiro. Teve até escambo com fábrica de colchões e patrocínio master pago com cheque pré-datado.

Depois observamos atônitos à renúncia coletiva de cinco vice-presidentes do clube, todos pertencentes àquela estranha coalizão de grupos políticos, Cacá Cardoso à frente, não menos pomposos. Uma turma que salpicou seus cartazes de campanha com logotipos de multinacionais, nenhuma delas vista posteriormente na camisa ou nos backdrops do Fluminense.

O vice de finanças, menina dos olhos desses aventureiros, prometia uma complexa reengenharia financeira, bancada por um grupo de investimentos inglês que compraria nossas dívidas de curto prazo e causaria com isso um alívio no fluxo de caixa de 60 milhões de reais. Uma operação que, segundo ele, seria viável graças à transparência (???) e credibilidade (???????) da gestão Abad. Uma história da carochinha já esquecida, mas servida como um grande alento ao caos financeiro instalado no clube.

No campo, o time acumulava alguns resultados animadores, com um futebol pouco vistoso mas extremamente operário, e cá estávamos nós fazendo projeções na parte de cima da tabela. Este que vos escreve chegou a fazer na crônica de estreia uma ilusória projeção de 22 pontos  antes da parada para a Copa, que nos colocaria hoje na terceira posição.

Até que Paulo Autuori anunciou sua saída, aborrecido com os constantes atrasos de salário, e coincidência ou não, o frágil castelo de cartas em que apoiávamos nossas esperanças começou a desmoronar, junto com as lesões musculares de Pedro, Gilberto, Marcos Júnior, Gum e cia. Depois do empate sem gols obtido a fórceps com o Grêmio, foram 4 derrotas seguidas, dez gols sofridos e três marcados. Uma sequência iniciada com uma atuação indigente contra o então lanterna Paraná Clube.

Autuori foi um executivo de futebol heterodoxo. Chegou dizendo que não negociava com empresários e não indicava jogadores, embora tenha sugerido a contratação do zagueiro Nathan Ribeiro. Ironizado por suas falas empoladas e sem objetividade no início de sua passagem, a ele foi atribuído um crescente papel de escudo nº 2 da diretoria nos bastidores e conselheiro de Abel em questões de campo.

Restava ao cada vez mais isolado Pedro Abad a proteção generosa de Abel Braga.

Em um clube em constante crise como o Fluminense, as narrativas sempre buscam culpados e ao mesmo tempo algumas figuras para serem eximidas de culpa.

Ninguém se encaixa tão perfeitamente no último caso quanto Abel.

Em torno da sua imagem se misturam a figura do treinador campeão brasileiro de 2012, do jogador formado no Fluminense e que atribui ao clube sua formação como homem e cidadão, do cara bonachão e de coração aberto, do ser humano gigante que foi capaz de retornar ao trabalho dois dias após a dolorosa perda do filho, do técnico paternal que adota os jogadores como filhos e extensão de sua família.

Para continuar fazendo de Abel o esteio de suas parcas esperanças, boa parte da torcida tricolor construiu ao longo do tempo uma percepção que acabaria por blindar o comandante. Quando o Fluminense vence, é Abel quem extrai leite de pedra. Quando perde, recai sobre a incompetência dos dirigentes e sobre a fragilidade técnica do elenco toda a responsabilidade.

Não importa muito que desde o título brasileiro de 2012 Abel não emplaque um trabalho consistente no Fluminense. Em um clube frequentemente assombrado por salários atrasados, elencos curtos e instabilidade política, sempre é possível fazer vista grossa a escolhas táticas equivocadas e apostas em jogadores medíocres como Maranhão ou Romarinho em jogos cruciais. Narrativas não se apegam a fatos, números, e sim a sentimentos.

É preciso ressaltar que nesta última passagem Abel foi além de emprestar sua experiência e carisma na proteção de um presidente perdido. Foi fiador político do mesmo, sempre ressaltando sua retidão e caráter, e garantindo que desde o primeiro dia de trabalho jamais lhe fora ocultada a situação de penúria financeira do clube. Mesclou-se de tal forma à paisagem que até seu filho empurrou um jogador medíocre por ele agenciado ao nosso elenco. Abel foi amortecedor de crises, mas também parte do problema.

Talvez nenhum clube esteja sendo tão convidado pelo destino a sair do lugar comum e buscar novos modelos quanto o Fluminense. E, ao mesmo tempo, nenhum clube parece tão avesso a abandonar a ortodoxia quanto o Fluminense. Enquanto muitos clubes brasileiros abriram suas portas a uma nova geração de treinadores como Fábio Carille, Jair Ventura, Roger Machado, Fernando Diniz, Thiago Larghi, Maurício Barbieri, os tricolores alimentaram a certeza que ruim com Abel, muito pior sem ele. Um dogma que encerra discussões, e nos torna reféns da imperiosidade de apenas evitar o pior.

Não muito diferente daquele indivíduo que está infeliz no casamento, mas aprecia a segurança que o matrimônio lhe traz, em face dos riscos que o divórcio e a liberdade impõem. Sair da zona de conforto é a última opção da maioria das pessoas.

Mas não é apenas no campo e bola que os tricolores resistem a mudanças. Até no Conselho Deliberativo já vi pessoas defendendo a necessidade de não expor para a imprensa e para o mundo do futebol nossas mazelas. No Fluminense ainda é forte a crença de que varrendo a poeira para debaixo do tapete estamos melhor resguardados. E  assim, após 7 anos do grupo político que chegou ao poder prometendo uma rigorosa auditoria, nenhuma auditoria de verdade foi feita.

O Fluminense não pode mais adiar seu encontro com a verdade. É preciso abandonar a contabilidade paralela que maquia números, que esconde dívidas com clubes e agentes, que aprova prestações de contas fajutas e impede a responsabilização legal de dirigentes. Não há mais margem para varrer nosso futuro para debaixo do tapete.

Mas enquanto este dia não chega, cabe ao Fluminense pensar na sua vida no curto prazo sem Abel, que enfim sentiu o esgotamento de suas energias e optou por se dedicar à família. Os nomes de Zé Ricardo e Dorival Jr estão sendo analisados para o cargo de técnico, enquanto Paulo Angione (cuja escolha em sua primeira passagem pelo clube foi duramente criticada pela Flusócio ) deverá ser anunciado nas próximas horas como o novo velho diretor de futebol do Fluminense. O elenco, que já é escasso em opções, pode se ver ainda mais reduzido com a venda de 2 ou 3 jogadores para se colocar salários em dia e manter o esquema de pejotagem e ação entre amigos. Pedro e Ayrton Lucas estão entre os mais especulados.

Lá vamos nós ajustar nosso sarrafo novamente para os 47 pontos e torcer para que Abad e a Flusócio permitam que o Fluminense continue existindo em 2019, quando enfim o Fluminense realizará uma nova eleição, provavelmente com velhos nomes e velhas crenças.

Este pobre escriba, no entanto, torce para ser (positivamente) surpreendido pelos fatos.

Ao Abel fica minha gratidão por ter suportado o conturbado ambiente das Laranjeiras até o limite das suas forças e por ter sido mais do que um técnico, ou um escudo, o cara que tentou impedir o quanto pôde que o Fluminense se abandonasse, a ponto de se abandonar. Erros à parte, Abel Braga inscreveu seu nome na eternidade do Fluminense, enquanto Pedro Abad e seus cúmplices lutarão para desaparecer de nossas memórias sem deixar vestígios.

 

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Tricolor juramentado, jazzófilo, servidor público e ranzinza em doses seguras.