Foto: Maílson Santana (Fluminense FC)

 

Prezados, é com muita honra (e um certo cagaço nas calças) que estreio minha coluna dominical aqui no Futebolzinho.

A responsabilidade de fechar uma semana de crônicas iniciada lá na segunda-feira pelo Caio Barbosa, passando, pela ordem, por Gustavo Albuquerque, João Boltshauser, Emiliano Tolivia, Dedé Moreira, Leonardo Bagno (outro recém-intregrado ao time) é tremenda. Todos grandes, todos cascudos no ofício da escrita.

O domingo me põe como o ponto terminal de uma jogada que vem sem erros de passe desde o Caio. Coube-me o papel de pivô, o jogador mais avançado deste futebol de 7 (antigo futebol soçaite) da crônica tricolor. Se a bola vem limpa, é minha obrigação estufar as redes nessa parceria que pretendemos estabelecer com você, caro leitor tricolor.

Na minha infância era o dia em que eu recebia a incumbência de ir à padaria, comprar o pão, escolher o galeto mais tostadinho para o almoço e dar uma passadinha na banca para trazer um exemplar do Jornal do Brasil debaixo das axilas. O meu velho separava as páginas de política e eu ficava com as últimas páginas do primeiro caderno, para saber a escalação do Fluminense e as expectativas para o jogo. Mais tarde rumaríamos ao Maracanã para tomar banho de pó de arroz do saudoso Careca e assistir às façanhas da geração que conquistaria o tri carioca e o Brasileiro de 84.

Ah, o Fluminense. Meu eterno ponto de retorno, minha Terra do Nunca. Aquele que faz secar o tinteiro da minha pena desiludida, cansada. E, com a mesma facilidade, me reconduz feliz à atividade de produzir essas maltraçadas linhas.

Fluminense que quase sempre está ali, no bico do corvo. Pela bola sete. Perto de fechar as portas. E continua a contrariar vaticínios, a interromper a confecção da lápide para uma cova que vai ficar sem ataúde para sempre.

No centro dessa vocação crescente para a sobrevivência, está a figura de Abel Braga. Que desfruta da confiança do torcedor, mas não de unanimidade, rodrigueanos que somos, cientes de que toda unanimidade encerra uma burrice.

Os tricolores se encontram localizados em uma encruzilhada identitária: buscam a paz no entendimento de que hoje somos o que podemos ser. Mas ao mesmo reconhecem, com um sentimento de frustração, de que não somos o que um dia já fomos e deveríamos, correndo, voltar a ser. Entre o time que supera as expectativas, e o time que deveria traduzir nossa grandeza e compromisso com o protagonismo, é travada uma contenda diária nas redes sociais sobre como devemos ajustar as aspirações e cobranças acerca do time e da gestão.

E neste ponto recaímos inevitavelmente na metáfora do copo meio cheio, meio vazio. Em nossa última partida no Brasileiro, contra o tricolor genérico de bombachas, foi possível pinçar um Fluminense para cada gosto, ou cada narrativa. O Time de Guerreiros, que não sucumbiu ante o campeão da América, a equipe que descolou um ponto precioso de empate que nem todos irão amealhar nos domínios gremistas.

E também o time que terminou o jogo com pouco mais de 29% de posse de bola. Que produziu apenas 224 passes em toda a partida, contra 615 do Grêmio, boa parte deles dentro do nosso campo. Que gerou 6 finalizações, contra 19 do adversário. Que teve em Sornoza seu maior passador, com 30 passes, em contraste com Maicon, maior carimbador de bolas do lado gremista, com 132 passes.

Sim, o mesmo Fluminense time que, todavia, poderia ter vencido a partida, pois produziu os dois lances de gol mais perigosos da partida, com Pedro, em cabeçada afetada pela vista embaçada, e Renato Chaves, em lance no qual sofreu pênalti de Kanemann.

 

Diferenças entre os modelos de jogo, gestão de tempo em campo e prioridades.

 

Grêmio e Fluminense opuseram dois modelos de jogo diametralmente opostos em campo, um propositivo e outro completamente reativo. Um estrangeiro recém-introduzido ao futebol brasileiro arriscaria dizer que duelaram em campo duas equipes também díspares em investimento, tamanha o contraste entre os papéis assumidos em campo.

Mas não chega a ser notícia nova dizer que o time do Grêmio é um grupo de jogadores reciclados, mesclado a um punhado de jogadores revelados/captados na base e alguns outros da casa que experimentaram uma evolução gradual, como Luan, ou receberam oportunidade tardia, como Marcelo Grohe. Aos ciganos Cortez, Cícero, André, Leonardo Moura, soma-se a juventude de Everton, Arthur, Lima, Pepê.

Nenhuma contratação milionária que ajude a explicar preguiçosamente o volume de jogo de um lado, e a dificuldade do outro em reter a bola e trocar mais do que 4 passes seguidos.

Na sua coluna de sexta-feira o Dedé expôs como o modelo de jogo do Fluminense exige uma dose elevada de transpiração e correria atrás da bola, que faz do seus jogadores autênticos guerreiros, mas que dificilmente se sustenta ao longo da temporada, em função da sobrecarga muscular que produz. Um modelo que obriga o time a fazer marcação baixa e sair do próprio campo em contra-ataques de 50, 60 metros com muita frequência.

O Grêmio, por sua vez, quando perde a posse da bola, movimenta logo em seguida de dois a três jogadores em direção ao portador da bola para retomá-la imediatamente, ainda na sua intermediária de ataque, para retomar o caminho ao gol adversário em poucos metros. Responsáveis pelo escape inicial do contra-ataque, Jadson e Richard foram os que mais sofreram com esta marcação incessante (seis e cinco perdas de posse, respectivamente).

Um estilo de jogo que também exige doação física, porém menos desgastante do que correr sistematicamente atrás da bola.

Cabe aqui também estabelecer um paralelo entre a forma como Renato Gaúcho/Grêmio miram a temporada e como Abel Braga/Fluminense a contemplam. Nas 4 primeiras rodadas do gauchão o Grêmio mandou a campo seu chamado “time de transição”, formado em sua maioria por jogadores da base e alguns reservas do profissional, comandados inclusive por outro técnico, César Bueno . E só não estendeu ainda mais a pré-temporada do time titular porque a molecada havia somado apenas um ponto em 12 possíveis, aproximando o clube até da possibilidade matemática de rebaixamento.

Não que o Grêmio, a exemplo do Palmeiras, tenha 3 jogadores de qualidade por posição. É o  modelo de jogo que responde pelo rendimento da equipe. Quando precisa, Renato não hesita em lançar mão de Jael, o Cruel no ataque, e os gols saem. De Jaílson, na contenção, e a contenção funciona. Até o Cícero, que saiu daqui valendo menos que a popularidade do Temer, entra e performa.

É bem verdade que o tricolor gaúcho se vira obrigado a atrasar o retorno dos titulares ao trabalho em função da disputa do Mundial de Clubes, mas ressalte-se aqui que nem mesmo o risco de rebaixamento no estadual alterou significativamente o planejamento traçado. Essa maneira como o Grêmio esnoba olimpicamente o Ruralito, e ainda assim o vence, chega a ser curiosa.

O Fluminense, por sua vez, enxerta em uma pré-temporada curta a disputa de uma Florida Cup que não vale nada. Se vê obrigado a arranjar no sufoco uma logística para voltar correndo ao Rio de Janeiro para jogar um estadual que vale tão pouco quanto. Registra prejuízos seguidos com públicos de 800 e poucos pagantes, mas na hora de garantir sua permanência em uma competição que remunera substancialmente a cada avanço de fase (Copa Brasil), empaca diante do Avaí.

E nessa toada, em apenas 8 rodadas, já perdemos Ibañez (ainda na estreia do Brasileiro) por mais de um mês, e Ayrton Lucas e Pedro para depois da Copa. Contra o Grêmio, Marcos Jr. e Gum foram poupados, com incômodo muscular. É o caso de se perguntar se essas lesões guardam relação com o acaso, ou se guardam relação simultaneamente com o modelo de jogo e com o planejamento da temporada.

Publico esta coluna sem fazer ideia do que resultará daqui a pouco do embate entre Flamengo e Corinthians, mas já antecipo que na melhor das hipóteses uma vitória dos gambás paulistas e uma vitória nossa diante do Paraná amanhã pode nos colocar em igualdade de pontos com o arquirrival na ponta da tabela, mas com desvantagem nos critérios de desempate. E se uma vitória pode nos colocar em tão boa condição no campeonato, é evidente que nem tudo está errado no gerenciamento do elenco. Longe disso! O Fluminense hoje transmite a certeza de que na pior das hipóteses jogará feio mas será muito competitivo. Que ninguém o vencerá sem morrer um pouco em campo. De alguma forma, a mística do “time que se recusa a perder” está resgatada.

Enfrentaremos na Vila Capanema o lanterna do campeonato. O único time que ainda não venceu no certame, ao lado do Ceará. O Paraná Clube tem o pior ataque da competição, com míseros 3 gols, e não sabe o que é balançar as redes há 3 rodadas.O time dirigido por Rogério Micale tem um dos 3 piores inícios de campeonato dos últimos 10 anos.

Aliás, dos 4 jogos que nos aguardam até a parada para a Copa, dois deles serão contra atuais habitantes da zona de rebaixamento: Paraná (fora) e Santos (casa). Os outros dois serão contra o Flamengo, em Brasília, e Atlético-MG , no Independência. Duas vitórias e dois empates nesses 4 jogos nos dariam 22 pontos e 61,1% de aproveitamento. Um índice que tem boas chances de nos colocar entre a vice-liderança e a terceira posição do campeonato.

Com todos os percalços e desfalques, é uma meta plausível. Se vira, Abelão. Vem junto, torcida!

PS.: Pedro, como a camisa 9 está ficando confortável em você. Volte logo e continue a provar que eu estava errado. Está é para o meu amigo Rafael.

 

 

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Tricolor juramentado, jazzófilo, servidor público e ranzinza em doses seguras.