Renato chora após marcar o gol da sua vida

Se o Fla-Flu começou 40 minutos antes do nada, como sentenciou Nelson Rodrigues, o Gol de Barriga, a maior representação do grande clássico do futebol, teve início uma semana antes daquele inesquecível 25 de junho de 1995. A gestação daquela barriga santa começou dia 18, no acanhado Estádio Odair Gama, em Três Rios. Poucos têm noção disso. Oficialmente, apenas 4.018 tricolores. Quem esteve lá, no entanto, lembra que pelo menos 10 mil de nós nos acotovelamos e levamos o Fluminense a uma vitória que foi imprescindível para a conquista histórica do domingo seguinte.

Os mais jovens talvez não saibam, mas o maior Fla-Flu de todos os tempos não foi uma finalíssima. O jogo valia pela última rodada do octogonal final e o Flamengo tinha dois pontos a mais que o Fluminense na penúltima rodada. E jogava contra o Volta Redonda na Gávea. E sabemos bem que, em nenhuma circunstância, nossos maiores fregueses perderiam aquele jogo no ano do seu centenário, com Romário & Cia. Portanto, se o Fluminense não vencesse o Entrerriense no Odair Gama, o Fla-Flu acabaria sendo um jogo de entrega das faixas para a Dissidência. Mas a torcida tricolor não deixou isso acontecer. Jamais deixaria. Somos nós que damos as cartas. Há um século é assim.

Só que a tensão gerada pelo necessidade de “vencer ou vencer” aquele jogo, me lembro bem, travava o time em campo, e a torcida na arquibancada. Um 0 a 0 insistente nos fazia torcer por um inimaginável tropeço dos fregueses a fim de nos manter vivos na tabela para a decisão do dia 25. E a todo momento alguém perguntava sobre o andamento da partida na Gávea. Ninguém sabia. Até surgir o berro que mudou a história:

– VOLTAÇO 1 a 0 NA GÁVEA, RAPAZIADA! VAMBORAAAA”

Era mentira. O Flamengo vencia e venceu por 5 a 0. Mas foi aquele berro a senha para a arquibancada explodir e incendiar o time, que chegou aos 3 a 0, sem sustos. A torcida, empoderada, para usar a expressão da moda, passou o jogo ­cantando a música que seria o hit do domingo seguinte: “o primeiro, zero a zero; o segundo, três a um; o terceiro foi quatro a três-ês, e essa p**** virou freguês”, a sensacional paródia de Asa Branca, do genial Luiz Gonzaga, que até hoje faz sucesso na arquibancada.

Ouso dizer que aquele berro gerou não só vitória, mas o restante da confiança que faltava para o sucesso naquele que foi o maior jogo da história do Maracanã. Não conheço absolutamente nenhum tricolor que tenha ido ao estádio naquele Fla-Flu sem a certeza do triunfo. Uma certeza que a gente via nos olhos dos jogadores às vésperas da partida, do Wellerson ao Leonardo, passando, claro, pelo Renato Gaúcho.

O imortal Nelson Rodrigues vaticinava: quando o Fluminense precisa, acontece o suave milagre. Os tricolores vivos, doentes e mortos aparecem. Os vivos saem de suas casas; os doentes, de suas camas; e os mortos, de suas tumbas. Certamente foi um desses mortos que berrou “VOLTAÇO 1 a 0 NA GÁVEA, RAPAZIADA”. O resto, meus amigos, a história conta com requintes de crueldade para os nossos fregueses. Por isso a dor de barriga deles não passa.

Salve a torcida tricolor. É dela o Reino do Céu.

P.s: o texto já foi publicado no livro “O Fluminense Somos Todos Nós”, oficial do clube, organizado pelos amigos Heitor D’Alincourt, Dhaniel Cohen e Carlos Santoro.

Caio Barbosa avatar

Jornalista desde o século passado. Estudou na Universidade Federal FLUMINENSE e foi setorista dos clubes cariocas, inclusive o FLUMINENSE, pelo Diário Lance!, UOL/Folha, Jornal Extra e Globoesporte.com