Lá estavam os indígenas postos em sossego, na Bahia, quando de repente chegaram os portugueses, com vestimentas ridículas, papo mole e espelhos. A recepção foi com peixinho assado na lança e muito afeto. O fim, todos conhecemos.

Como também estavam postos em sossego o pessoal na África, quando a mesma turma da pesada apareceu – assim como outros que falavam diferente, mas, no fim, queriam o mesmo. O fim, todos conhecemos.

Não citarei mais casos e catástrofes para não tropeçar no mau gosto. Mas, em grandes eventos negativos, quase sempre estão todos postos em sossego, até um fato novo causar o caos absoluto.

Pois, estava posto em sossego o Fluminense no fim de 2010. Campeão brasileiro e com um patrocinador forte. Ok, nem tão em sossego assim. Roberto Horcades não era exatamente um exemplo de grande presidente e havia enorme dependência da Unimed, sem a devida construção de um Plano B.

Havia, no entanto, algum sossego após o fim da década de 90. O título depois de 26 anos – seguindo a Copa do Brasil de 2007, a volta à Libertadores em 2008 e a arrancada de 2009 – gerava clima positivo e a esperança em um crescimento constante do clube.

E aí… BUM.

Chegou ao poder a turma da atual gestão (inclusive, com meu voto, como já disse em outra coluna). Coligada, mandando mais, mandando menos, ora rachada, ora dentro, mas nestes quase oitos anos teve melado para todo mundo se lambuzar.

Chegamos, então, ao absurdo estágio atual.


Este é meu sexto texto na Flupress, e ainda não caiu no meu colo um “pós-jogo”. Torço por uma partida de meio de semana tanto quanto um gol do Pedro. Porém, quando fico com receio de não ter assunto para escrever, a criatividade de errar e/ou gerar crise da gestão Pedro Abad, infelizmente, me socorre.

Minha ideia inicial era abrir o texto puxando para o duelo contra a Chapecoense, mas não há trinca de vitórias que seja capaz de apagar o tamanho do dano que estão fazendo ao Fluminense. A sensação é de ter que aproveitar enquanto é possível, e eu não vou esconder isso.

As ótimas atuações são méritos do Abelão e dos jogadores. Eles pregam calma e humildade. Sabem quem faz o oposto? Sim, os torcedores de gestão. Basta uma varrida pelo Twitter para encontrar uma turma que andava bem sumida. E que desaparecerá de novo, se assim for preciso (toc toc toc).

A reportagem de Rodrigo Capelo na Época de quarta-feira é aterradora. Os números estão lá. As manipulações de balanço, a maquiagem de dados, os erros em sequência, a dívida impagável, a incompetência generalizada (vamos chamar de incompetência)… Como pode alguém defender este buraco no qual nossa avestruz enfiou a cabeça?

Como, eu não sei. Mas está tudo nas redes sociais. E os que até ontem defendiam com unhas e dentes Peter Siemsen, agora fazem a egípcia, o homem que abre na barreira. Nada é com eles. Nem com quem aprovou as vergonhosas contas.

São essas pessoas que vão pedir seu voto no ano que vem, tricolor. Anote bem onde estão – inclusive em grupo com nomes diferentes, usando a rasteira tática dos partidos políticos.

Estávamos postos em sossego. Não podemos mais.

“Nos deram espelhos. E vimos um mundo doente”.

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A CRISE DE PETER E ABAD

Não conheço, mas admiro bastante o Rodrigo Capelo e seu trabalho. Faz o que pouquíssimos jornalistas têm talento e paciência – dentre os quais, eu me incluo. Dito isso, farei um rápido papel de ombudsman-que-ninguém-pediu-opinião.

Os dados são impecáveis, mas ficou bem leve para o atual presidente. O clube está se esfacelando no colo dele, Pedro Abad não foi lá revirar passado algum. Ou, sem querer, descobriu uma nova espécie de dinossauro. Abad não é arqueólogo – é fiscal da Receita Federal e ex-presidente do Conselho Fiscal.

E a bagunça política nas Laranjeiras não retarda a recuperação tricolor. Ela é a maior razão dessa crise – e Abad é partícipe de tudo.

Há herança maldita? Sem dúvida. Construída também pelo seu sucessor, unha e carne antes e durante a eleição. O movimento em andamento para jogar tudo nas costas do Peter não deveria colar – e percebam que já existe a narrativa de “o Peter acabou com o Fluminense, o Mário construiu dívidas, etc”. Fizeram? Sem dúvida. Com o aval de todos ali.

Em alguns momentos, Pedro Abad soa como vítima tentando o impossível, tal qual um Tenente Dan discutindo com Deus, sob a tempestade, para salvar o barco Jenny. Essa história, convenhamos, não é verossímil nem em “Forrest Gump”.

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NADA A DECLARAR?

E o senhor Peter Siemsen, antes tão dado a ligar para chefias de redações quando algo não lhe era favorável, não irá se pronunciar? Nada? Sobre os números vindo à tona? Ou sobre o que estão tentando colocar somente na conta dele?

Este espaço, aliás, está aberto.

– Mesmo incomodado com a crise política, como deixou claro, Abel e seu comovente Fluminense seguem sonhando alto. Sábado é dia de, enfim, ganhar da Chapecoense – porque não é possível este Real Madrid todo…

– A torcida não compareceu na bela vitória sobre o Atlético-PR. O horário horroroso ajudou, e o preço, não. Cada um sabe onde seu calo aperta. Mas estamos naquele momento em que vale fazer um esforço a mais para prestigiar o time (de promoção, eu já desisti).

– Há quanto tempo eu não sentia tanta vontade de que chegasse logo o próximo jogo.

– Paulo Autuori quer sair. Entendo, se levarmos em consideração quem comanda o clube. E o vazamento da questão médica do Kléber é absurdo e amador. Mas este, especificamente, não pode ser o único motivo. Se sair de fato, ao menos que seja com transparência.

– Ô, Abel, rapidamente: não tem como testar outro zagueiro no lugar do Renato Chaves, não? No nível do mar, ele destoa demais. Deve ser muito oxigênio. Ou tapem as narinas dele, sei lá.

– Se tem algo que funciona no Fluminense é a produção de copos e livros. Pena que não fazem gols, mas são ótimos. Em breve, teremos mais.

– A arquibancada não pode vaiar o presidente do clube? Sério, os caras se superam. Eu, hein!

– Usei no fim do texto inicial um trecho da música “Índios”, da Legião Urbana, dos tricolores Renato Russo e Dado Villa-Lobos. Uma homenagem que, tenho certeza, meu irmão Caio Barbosa vai adorar.

– Já é sábado?

 

Jornalista e pitaqueiro, andou metendo o bedelho no GloboEsporte.com, LANCE! e no balcão mais próximo.