O torcedor quer ter orgulho do seu time. Quer ir aos jogos achando que o Fluminense irá vencê-los. Quer sentir que não importa o adversário, que não importam as probabilidades. Quer ver o Fluminense de camisa centenária jogando como gigante, competitivo, mordendo, propondo o jogo. Quer olhar a tabela e mirar o topo. Quer ganhar, chegar no trabalho no dia seguinte e tirar onda com todo mundo. Quer olhar pro seu filho e renovar a alegria da escolha rodada após rodada. O torcedor que ser feliz.

 

Mas querem saber? O torcedor aceita quando não dá. É do jogo. Vinte clubes, apenas um campeão. Comemora-se a classificação para a Libertadores, vibra-se coma a vitória sobre o rival acima da tabela. O futebol talvez seja o entretenimento que mais imita a vida, com suas alegrias e tristezas, vitórias ou percalços. A dor renova os sentimentos, cria compromisso com o triunfal retorno ao êxtase, à catarse de uma bola vadia entrando aos 45 do segundo tempo.





 

Já comemoramos e bebemos até cair, já choramos a derrota mais doída. Nós, os tricolores, já vimos o diabo de frente, já fomos feridos e desenganados. E retornamos com voltas olímpicas que fizeram nossos algozes vivenciarem a inveja em sua plenitude.

 

O torcedor aceita quase tudo. Do frango constrangedor ao pereba sem sangue. Seguimos firmes. Camisa tricolor de segunda pele, sonhos os mais impossíveis. Um dia o mundial ainda vem. Aceitamos pagar com suor, lágrimas e bile a incompetência de treinadores e dirigentes. Ninguém enverga, ninguém dobra os joelhos. Seguimos. Fim de semana tem de novo. Vamos ganhar, nós repetimos como se quiséssemos enganar o óbvio.

 

O torcedor só não aceita covardia. Porque o torcedor, embora às vezes não pareça, também é humano.

 

O Fluminense de hoje está tomado por covardes. E não me refiro aos jogadores e ao treinador da vez que desconhecem o peso da camisa que vestem. Refiro-me aos covardes da caneta, aos desqualificados que se arvoram em achar que podem culpar o torcedor por algo de errado no clube.

 

Dia desses o formidável cronista esportivo e tricolor, Marcos Caetano, foi incisivo em sua conta do twitter. Aspas: “Vou desenhar, para que os idiotas da Flusócio possam entender: em 116 anos de história do Fluminense, nada, absolutamente nada deu errado por culpa da torcida. Tentar culpar os torcedores pela possível venda de Pedro é o último e mais abjeto refúgio dos canalhas”.

 

Já li e reli algumas vezes. Confesso que nada posso acrescentar à síntese de seu pensamento. Prossigo porque, humano, atendo meu fígado para que siga.

 

Eu não aguento mais essa desfaçatez com o torcedor do Fluminense. Provavelmente Marcos Caetano respondeu em sua conta do twitter ao inacreditável Danilo Félix, diretor de alguma coisa no Fluminense e eminência parda do grupo político mais perverso que já pisou em Laranjeiras.

 

Perverso, não tenho dúvidas. Porque só a perversão muito bem acabada é capaz de resumir quem deliberadamente acoberta sua incompetência transferindo a culpa exatamente para quem não pode absorvê-la.

 

Danilo, que sempre foi a voz mais proeminente da Flusócio, escreveu – usando de ironia só vista em textos de idiotas – que não dará para segurar o Pedro se a torcida não comprar o barulho do time.

 

Dias depois, o mesmo conselheiro debochava na mesma rede social de quem reclamava das péssimas condições de compra presencial de ingresso. “Fica na fila porque quer. Hoje tem e-ticket”, dizia do alto de sua incapacidade cognitiva misturada com desfaçatez.

 

Covardia. E ele sabe disso. Sua narrativa é um acinte ao torcedor e fere de morte o propósito do próprio clube, além de esquecer que metade da população desta cidade simplesmente não tem acesso a crédito.

 

Discursos assim me lembram o dono de restaurante que reclama que a clientela não sabe apreciar uma boa comida; ou do cineasta que bota no público o motivo da baixa bilheteria de seu filme.

 

Não pode ser só burrice. Não pode. É burrice também, mas é, acima de tudo, covardia.

 

A torcida do Fluminense precisa querer ir ao estádio. Não é inteligente – nem honesto – medi-la pela régua dos tais quinze mil de sempre. Tem gente que consome o Fluminense todo jogo, tem gente que vai bem menos, tem gente que não tem vontade de ir e tem gente, acreditem, que nem sabe ainda o quanto é bom ver seu time no estádio.

 

E qualquer diretoria do Fluminense precisa trabalhar essa realidade inexorável: há vários torcedores de diferentes perfis em nossa torcida. Se para muitos o Fluminense é uma questão de fé, para tantos outros simplesmente não é.

 

Vamos julgar? É inteligente julgar?

 

Ou vamos trabalhar para que a experiência avassaladora de um estádio de futebol no meio de nossa torcida seja realmente a melhor experiência possível?

 

Eu acho que o torcedor tem que reclamar de um elenco ridículo como o nosso, montado de uma forma absolutamente amadora, eu acho que o torcedor adoraria ter um ídolo em campo, desses rifados pela Flusócio em sua cruzada de nos diminuir; eu acho que o torcedor adoraria ver alguém da diretoria garantir que o ídolo que está nascendo não será vendido a preço de banana; eu acho que o torcedor adoraria não ficar confinado num setor do Maracanã porque a direção do clube não tem competência pata tratá-lo de outro jeito que não seja como gado; eu acho que o torcedor adoraria se sentir representado por um presidente de verdade!

 

Lavem a boca para falar de nossa torcida. O trabalho que vocês estão fazendo é porco, é desastroso. Mistura incompetência com falta de entendimento sobre nosso tamanho e aspirações. Isso para ser polido.

 

A torcida do Fluminense não é apenas solução, é a ÚNICA solução.

 

Ironizá-la, demonizá-la, culpá-la, revela apenas o distanciamento entre clube e arquibancada e bota luz na única verdade absoluta que se escancara para qualquer tricolor após sete anos de gestão desses incompetentes que brincam de dirigir o clube: vocês não merecem o Fluminense.

 

Lavem a boca para falar de Fluminense. Vocês não honram a camisa que vestem.

 

CURTAS

 

– Vender o Pedro antes da evidente convocação para a Seleção não seria apenas burrice. Seria algo muito pior.

– A Flusócio está transformando a experiência Maracanã num suplício. São diretamente culpados pela desconexão evidente entre clube e seu torcedor

– Marcelo Oliveira fez outra péssima partida. Outro zero pra ele.

44 anos,  é advogado, autor da Ação Popular que possibilitou a volta do Pó de Arroz aos estádios e escreveu sobre Fluminense no Blog do Torcedor do Globoesporte.com entre 2012 e 2018.