Teor zero de brincadeira: eu realmente não faço a menor ideia sobre de que forma essa turma que controla o Fluminense encara jogos e campeonatos. Eu sei como eu encaro. Sei como meus amigos de arquibancada encaram. Um jogo do Fluminense é uma espécie de batalha, dentro das guerras que são os campeonatos. Só vale ser o vencedor. Só vale ser o campeão. É assim em qualquer clube grande no planeta. E, se não é assim, não é grande.

Aí você tem uma batalha, daquelas entrincheiradas, difíceis toda vida. Do outro lado, um clube que tem vencido tudo, jogando em casa.

E você briga, se defende do jeito que dá, ataca quando consegue espaço. Luta.

O Fluminense foi assim. Tem que ter muita má vontade para analisar nossa estreia no campeonato sem admitir que os caras correram 110% (exceção de sempre ao Renato Chaves que só faz trotar). Mas, salvo se você está diante de um time parelho ao seu, só a luta costuma ser muito pouco. O futebol não nasceu ontem e tenho certeza de que estou repisando uma insossa platitude.

Jogadores valentes, dando o máximo. Pinta até aquela esperança de uma vitória improvável. Um bom ataque. Depois outro. Pode dar. Tem que dar.

E então, lá do banco, sai a estratégia mortal, a bala de prata para matar o atual campeão brasileiro.

João Carlos, mas se quiserem podem fazer igual ao Abel e o chamarem de “poderia das sorte”

Pois o “poderia dar sorte” entrou ali na frente. Deu duas ou três bundadas no zagueiro, fez uma cama de gato com rara plasticidade, abriu os braços, deu meia dúzia de cusparadas no chão.

E não fez uma jogada. E não finalizou uma bola de primeira. E nem de segunda, porque não as matava.

No banco não tínhamos alguém bafejado pela sorte como o atacante da Cabofriense, que chegou na sexta e jogou no domingo, rompendo um antigo preceito instituído pelo Abel sobre hierarquia no grupo. Mas tínhamos o Marcos Jr e o Matheus Alessandro, que, mesmo azarados, eram opções mais inteligentes. Poderiam abrir os espaços na espera da enfiada de uma bola mais profunda. Afinal, naquele momento, o Corinthians empatava em casa e era todo ataque.

Não deu. 2 x 1 pros caras. Mas “jogamos bem”, “fomos valentes” e “estamos no caminho certo”, até porque “esse time ainda irá surpreender”.

As aspas do Abel são bacanas. Frases de história em quadrinho. Rápida assimilação. Ninguém leva a sério, ninguém na imprensa retruca o cara e o barco segue seu rumo, com a bússola completamente despirocada.

Mas se por um lado já estamos acostumados com essa retórica de pelada amassando o Fluminense, ainda temos ouvidos para reparar quando o nosso comandante sai da batalha caprichando ainda mais nas bobagens.

“Poderia dar sorte” é um soco no estômago. Eu não consigo imaginar qualquer outro treinador de time grande falando seriamente algo assim na imprensa. E também não me conformo com a ingratidão do Abel com a sorte. Ou vocês acham que um gol do Richard, de primeira, bola no alto, vindo de uma tabelinha aérea entre Gum e Pedro, e saído de um daqueles laterais jogados no bololô já não é sorte o suficiente?

“Pra virem vaiar, que fiquem em casa”, pataquada ouvida no jogo contra aqueles peladeiros da Bolívia, é um soco na cara. Quem vai controlar a legitimidade da arquibancada? Quem pode fazê-lo? Foram seis mil abnegados, loucos, para um Maracanã ‘inferior’, quase dez da noite. E então o time faz um primeiro tempo assustador e as primadonas não podem ser vaiadas? Nunca pensei que esse discurso da Flusócio, esse coitadismo ultrajante, fosse infectar o Abel. Que merda.

Mas voltando ao brasileirão, batalha perdida. Página virada. Não faltou sorte. Faltou estratégia, faltou ousadia, faltou jogador qualificado, faltaram opções, faltou peso na nossa camisa, cada vez mais leve, faltou, em suma, o que tem nos faltado há anos: futebol de time que se vê campeão.

Domingo tem mais. E é contra outro time mais forte que o nosso, o que será, aliás, a tônica dessa guerra.

Abel, Abad e seus colaboradores diretos desejam mais sorte. Mas na verdade estão brincando com ela, na via da transformação sistemática de um clube gigante em um coadjuvante que não incomoda mais ninguém.

Há alguns meses dava até para cair na esparrela de que a retração era fruto da reorganização interna. Hoje nem isso dá. Estamos vendendo o almoço e não está dando pra comprar o jantar.

Mas isso é papo para outras oportunidades. Não faltarão, nessa volta da Flupress com tanta gente boa, em casa nova e em formato mais plural.

Por ora é agradecer ao pessoal do Futebolzinho.com e aos companheiros Dedé, Caio, Bolt e Emiliano pela caminhada que se inicia.

E torcer para que venham logo os 72 pontos.

Setenta e dois.

Abraços tricolores.

CURTA:

– Quem sou eu para falar que o Abel colocou o tal do João Carlos porque ele é jogador de seu filho? Não sei se foi isso, e o que eu acho fica comigo. O que sei é que eu esperava do Abel uma postura mais adequada na própria contratação do jogador. O Fluminense é muito grande para dar margem a esse tipo de especulação e nosso treinador, além de sério, tem que parecer sério.

– E o Henrique, que saiu de graça do Fluminense e que ainda receberá grana alta do clube, estava lá, com seu gel de sempre, titular do campeão brasileiro, do outro lado da batalha. Ainda bem que não jogamos a premiere league para ter que passar o mesmo dissabor com o Cavalieri. A Flusócio é um case extraordinário.

– Saiu notícia ontem sobre o interesse da FIFA em reorganizar o mundial de clubes a partir de 2021. 24 clubes, 4 ou 5 da América do Sul. Eu continuo sonhando. Só não tenho dado sorte.

44 anos,  é advogado, autor da Ação Popular que possibilitou a volta do Pó de Arroz aos estádios e escreveu sobre Fluminense no Blog do Torcedor do Globoesporte.com entre 2012 e 2018.