Escrevo este post antes de Fluminense x São Paulo. Enquanto você lê o texto, eu provavelmente ainda estou no interior do Paraná, num feriado sem acesso à internet, botando a cabeça pra descansar, também do Fluminense.

E essas ocasiões são boas porque posso abordar alguns temas não diretamente ligados ao que acontece nas quatro linhas.





Hoje quero falar com vocês sobre marketing, relacionamento com a torcida e o que isso tem a ver com o Fluminense.

Na minha opinião é um puta paradoxo a Flusócio ser um grupo que, segundo dizem, é egresso da arquibancada. Esses sete anos desde que Peter assumiu, fazendo seu sucessor, tem sido terríveis para o torcedor. E infelizmente é assim desde o primeiro dia. Lembro como se fosse hoje da primeira partida de Libertadores na gestão Peter: um Engenhão vazio em razão de uma precificação absolutamente equivocada nos preços dos ingressos.

De lá para cá, quase nada de bom foi feito para enfrentar os gravíssimos problemas que o Fluminense enfrenta no que diz respeito à torcida, em suas mais diversas interpretações.

Somos um clube grande cujo número de torcedores apresenta nítida diminuição em todas as pesquisas. Podemos contestar – e o fazemos! – mas é muito triste quando nos colocam no mesmo patamar que clubes regionais como Bahia, Vitória e Sport, por exemplo. Chegamos no nível patético de apenas 1% da população e, querendo ou não, é com esse dado que temos que lidar.

E o que faz o clube para aumentar sua base de torcedores? Eu pergunto e respondo: nada. Menos que isso. Atrapalha.

Com o público carioca, que frequenta o estádio, o tratamento só piora. Frequentemente nos deparamos com filas injustificáveis para o tamanho da torcida naquele determinado jogo, jamais vimos qualquer ação que fosse determinante para que mais gente comparecesse aos jogos. A impressão que me passa é a de que os dirigentes do Flu acham que a torcida é uma espécie de mal necessário.

Recentemente – sob a justificativa de que o aluguel do estádio é caro – colocaram todo mundo em área restrita, no “anel” inferior, fazendo com que o sentimento seja de perplexidade por parte da maior parte dos torcedores. E como essas ações geralmente vêm em dupla, criaram – ou apoiaram – a regra de que as gratuidades devem ser trocadas com antecedência. Como se crianças, idosos e deficientes, pudessem se dar ao luxo de casar o programa “ir ao jogo” com outro de “buscar o ingresso no dia anterior”.

Amigos, futebol é experiência. Quando ela é boa, vira hábito. Quando ela é ruim, cai em desuso.

A experiência da torcida do Fluminense nos estádios tem sido ruins. E isso, ao menos no ponto que estou levantando, nada tem a ver com a qualidade do time em campo.

Nossa diretoria não investe no hábito do torcedor. Dá de ombros pra ele. Cria entraves de todos os jeitos.

Sim, hoje talvez não sejamos mais os “quinze mil de sempre”. Esses caras estão abaixando o sarrafo. Precisam investir nisso, abrir a mente, inovar, buscar alternativas.

De um lado, temos um Maracanã de mais de setenta mil lugares, que vive vazio, e do outro uma enorme parcela da torcida que não frequenta os estádios e que adoraria passar a fazê-lo. Parece ironia, mas é apenas incompetência. Nunca vi ou ouvi o clube falando em parcerias com empresas para ações no Maracanã, nunca vi ou ouvi o clube fazendo força para que novos torcedores passem a frequentar os jogos. Nosso torcedor da Baixada Fluminense, de São Gonçalo, de tantas regiões… Esses caras estão abandonados. Mas pro Fluminense está tudo certo. Deve ser desejo, só pode ser desejo, que sigamos com a pecha de clube de elite, até que nossa torcida míngue completamente.

Ações com mulheres? Campanhas em escolas públicas? Ações segmentadas com clientes tricolores da empresa X? Nada. Nunca.

Bota o ingresso caro, joga a culpa no preço do Maracanã, abre uma pequena parte do estádio e pronto.

Que torcida chata!

Vão pro inferno. Acordem. O Fluminense não é nada além do que é, foi e será sua torcida.

Olhem, eu não tenho competência nem obrigação de pensar em soluções para esse assunto tão importante.

Abad, que pediu voto, tem. Seu grupo, que pediu voto, tem. Lembro até hoje da ênfase que dei à torcida na entrevista que fiz com o Abad antes das eleições. E lembro de como ele respondeu, cheio de interesse em convencer o leitor da Flupress de que com ele a banda tocaria diferente.

Mentiu. Ou se omitiu. Ou as duas coisas.

Nosso presidente é incapaz de criar, de inovar, de propor. É especialista em reclamar, em justificar. E, é claro, em aprovar as contas de quem hoje é obrigado a colocar a culpa.

Mas mesmo com um presidente ruim, poderíamos ter um marketing funcionando. O que temos é uma piada. Não há ideias e, se há, elas nunca se materializam. Um copo comemorativo aqui, uma boa sacada ali, mas, de resto, mais um acorde na desafinada canção que virou a gestão de nosso clube.

Ah! Mas o marketing não tem que cuidar de sua torcida. Mentira! Tem. E tem que cuidar muito.

Mas vamos admitir que não tem, por puro apego ao debate?

O que fazem que justifique algum aplauso? Um patrocínio ridículo dessa Vale Express que atrasa reiteradamente parcelas nada condizentes com o valor de nossa camisa? Ou um dos tantos escambos, com colchões e quetais, que fazem com nosso manto?

Torcedor precisa se sentir importante. Não adianta apontarmos o dedo para nós mesmos, como tantos fazem bobamente, e dizer algo do tipo “eu vou! Custe quanto custar, em qualquer circunstância eu te sigo”. Maravilha. Seria ótimo que só tivéssemos torcedores assim. Mas qual o apetite de vocês para brigar com a realidade? As coisas são como são, a não ser que alguém ou algo as transformem.

E isso geralmente, em casos parecidos, vem das cabeças que realmente sabem construir pontes aonde não parece ter alternativas de passagem.

Nas empresas e no mundo corporativo, jogam essa missão na galera do marketing.

Já no Fluminense a jogam na galera da arquibancada.

Farelos.

Ou invertemos essa lógica ou em breve não teremos mais qualquer ponte para seguirmos.

44 anos,  é advogado, autor da Ação Popular que possibilitou a volta do Pó de Arroz aos estádios e escreveu sobre Fluminense no Blog do Torcedor do Globoesporte.com entre 2012 e 2018.