Tricolores,

Com a parada do Campeonato Brasileiro por causa da Copa do Mundo, falar sobre o Fluminense exige um certo sacrifício para relembrar histórias que sejam interessantes. Se levarmos em consideração a recente saída de Abel Braga e as quatro derrotas consecutivas, inspirar-se no atual momento do clube para lembrar de alguma não seria uma boa ideia. Talvez seja por isso que a história a ser compartilhada hoje com vocês não guarde proporção direta com o tamanho do Fluminense. Contudo a tenho com carinho.

Estádio das Laranjeiras, meados da década de 90. O Fluminense jogava contra o Volta Redonda, partida válida por um campeonato qualquer desses que existiam naquela época (Copa Rio, salvo engano). Lembro-me que era de tarde e estávamos no meio da semana (uma quarta-feira talvez). O público era pífio, assim como o time do Fluminense, constituído quase que inteiramente por reservas e sub-20.

Importante ressaltar um ponto antes de continuar com a história: o Fluminense vivia o fim do jejum de 9 anos sem ganhar um título (que terminou em 1995 com o maior jogo da História do Futebol, como já escrevi aqui). Nossos resultados eram ou muito ruins ou frustrados com vice-campeonatos. A nossa torcida não aguentava mais passar os anos em branco. Tanto que tínhamos mais músicas novas para reclamar da Diretoria, do time ou do técnico do que para incentivar o Fluminense (ê, araruta! Sérgio Cosme, filho da…).

Feito o aparte acima, era intervalo e o placar naquele momento eu não faço a menor ideia. Dois meninos – provavelmente filhos de alguém da Comissão Técnica ou de dirigentes do Volta Redonda -, vestidos com a camisa do Voltaço, entraram em campo e rumaram-se para o gol que fica de costas para a arquibancada. Carregavam uma bola e ficaram batendo pênaltis, um (gordinho) para o outro (baixinho), enquanto o jogo não recomeçava. À torcida do Fluminense, entediada com a partida, restava observar melancolicamente aquelas duas crianças, vestidas com a camisa do adversário, dentro do nosso campo, divertindo-se.

Na Social, colada ao alambrado, avistaram uma criança, que regulava idade com os dois meninos, completamente uniformizada de Fluminense (chuteiras, meião tricolor, calção branco e camisa tricolor) e também com uma bola na mão.

Aquela turma do Bar do Fidélis – que naqueles tempos ficava junto ao alambrado, dentro da Social, com as cervejas sendo geladas em tinas -, muitas das vezes capitaneada pelo saudoso Hugo Carvana, começou a incentivar a entrada imediata em campo do garoto uniformizado de Fluminense. A ideia era que ele desafiasse um dos meninos do Volta Redonda para uma disputa de pênaltis para passar o tempo de todos e para demonstrar que tinha gente nossa em casa.

Depois de muitos pedidos efusivos pela entrada do garoto, finalmente convenceram os seguranças do clube, que autorizaram a entrada no gramado das Laranjeiras. O menino era bastante esguio e negro. Atravessou o campo num pique só, com um sorriso imenso e sem respirar.

A torcida presente foi ao delírio e a associação com a nossa recente contratação à época foi imediata. Aos gritos de “Luiz Henrique!” da pequena torcida presente, o garoto alcançou os dois meninos e, enfim, desafiou-os para uma disputa de pênaltis.

O gordinho e o baixinho decidiram entre eles quem seria o representante do Volta Redonda, ficando o cargo para o primeiro. Este imediatamente virou-se para o “Luiz Henrique” e fez sinal para que decidissem quem iniciaria a cobrança com uma breve disputa de par ou ímpar. Vitória do gordinho que escolheu iniciar batendo o pênalti. Luiz Henrique, portanto, iria para o gol.

Neste momento, a pequena torcida, antes entediada, correu para atrás do gol, concentrando-se naquele espaço da arquibancada, para apoiar o Luiz Henrique. O pessoal da social, por sua vez, concentrou-se do lado direito da Tribuna de Honra, ficando mais próximo do gol que receberia as cobranças. Tudo pronto para o início da disputa.

Aos gritos de “Nense!”, Luiz Henrique caminha-se para o gol e aguarda atentamente a cobrança. O gordinho espera por Luiz Henrique, que assente com a cabeça o início da brincadeira. O gordinho corre em direção da bola, todo desengonçado e sem velocidade, e chuta… no ângulo! Luiz Henrique sequer se mexeu. Silêncio nas Laranjeiras. Os tricolores entreolham-se, surpresos com a força e com o local do chute.

Luiz Henrique busca a bola no fundo das redes e prepara-se para a sua vez. Gordinho assente com a cabeça. Luiz Henrique toma distância e corre, com uma velocidade incrível para uma criança daquela idade, alcança a bola, chuta… para fora! Uma grande parte da torcida leva as mãos à cabeça, lamentando-se. O restante prefere encorajar o tricolorzinho para a próxima batida. Afinal, nada estava perdido.

Mesmo ritual. Gordinho pronto. Luiz Henrique idem. É a segunda série de cobrança. A corrida do gordinho para a bola é novamente lenta e o trejeito de jogador de futebol permanece inexistente. Depois de alguns segundos, finalmente alcança a bola e… no ângulo! Estupefatos, os tricolores esbravejam desaforos em direção ao gramado, não acreditando no que estavam presenciando.

Luiz Henrique pega a bola no fundo da rede novamente. Nem sujado o uniforme havia, pois não pulara na bola mais uma vez. Caminha-se até a marca do pênalti, ajeita a bola com os pés e coloca-a na marca de cal, aguarda o gordinho, que faz o sinal de positivo com a cabeça. Luiz Henrique corre ainda mais rápido para a bola. O intuito é encher o pé e soltar uma bomba para o gol. Grande expectativa nas arquibancadas das Laranjeiras. O chute vem, exatamente com a força prometida e… para fora!

Dois a zero era o placar daquela disputa infantil. A torcida tricolor, ávida por uma vitória, seja lá em quê e como, estarrecida com o que via, clama por João de Deus do mesmo jeito que fizera em 1980. Precisávamos da ajuda divina. O jogo dos profissionais não importava mais.

Gordinho apronta-se para cobrar a sua terceira cobrança. Luiz Henrique, atordoado, ajeita-se no gol, sem graça. Dava para perceber no semblante dele que, dessa vez, ele pularia independentemente de onde a bola fosse. Todos atentos para os movimentos do gordinho. Este inicia a sua característica corrida em slow motion, segundos passam até alcançar a bola, chute e… ângulo! Como pode um menino cobrar três pênaltis, numa velocidade de cágado, com compleição física digna de um nerd que só faz comer pizza e jogar videogame, no ângulo? Nossa fase era realmente negra.

A torcida estava toda de pé, de saco cheio de perder – ainda que fosse disputa de cuspe à distância – e enraivecida. Lançando mão do seu vasto repertório de músicas de protesto, não se fez de rogada e determinou: “O Flu é tradição! Não é humilhação!”.

Os jogadores retornaram para o segundo tempo. Luiz Henrique deixa o campo entristecido e sem cobrar a sua terceira cobrança. A disputa não terminou. Melhor assim.

Saudações Tricolores,

Leonardo Bagno

 

ACRÉSCIMO DE TEMPO: +3

46min: Anunciamos o nosso novo técnico. Será o Marcelo Oliveira, bicampeão Brasileiro com o Cruzeiro e campeão da Copa do Brasil com o Palmeiras. Sinto-me aliviado diante do cenário que estava se pintando à nossa frente. Que ele consiga desenvolver um bom trabalho, pois conhece de futebol. Seremos campeões (sabe-se lá como)!

47min: Sempre alvissareira a notícia de que nossos foram às Laranjeiras protestar pacificamente. É a certeza de que não estamos satisfeitos com os resultados e cientes do lugar inadequado que o Fluminense ocupa atualmente. Se a instituição não defende a sua honra, a torcida defenderá!

48min: Thiago Silva foi um monstro no jogo de ontem. Jogou tudo e mais um pouco. Que TS3 (agora TS2) siga seu caminho vestindo a amarelinha e que ele cumpra sua promessa de retornar às Laranjeiras para encerrar sua carreira. Os “flamenguista pira”.

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Eu sou Fluminense. O resto não importa.