O ano tem sido fantástico até aqui. Estou maravilhado. Grande comprometimento. O clube está quase falido, há pouco dinheiro, eventualmente salários atrasam, mas a diretoria se vira nos 30. É a melhor gestão em anos. Montou um time sem grandes estrelas, porém aguerrido, com alguns nomes experientes e moleques da base.

Mesmo que não dê para sonhar com voos mais altos, dá para fazer frente aos grandes clubes do país em competições de mata-mata.
Ainda mais com uma torcida que chega junto. Os sete mil de sempre às vezes já são 10, 12, até 15 mil torcedores. Graças a eles, saímos enfim da Série C e voltamos à B. Uma glória imensa.





De quem falo? Calma, não se irrite. Do Platense, time da minha família na Argentina. Um clube pequeno de Buenos Aires.

Mas, lendo rapidamente, não seria no que estão tentando – ou conseguiram – transformar o Fluminense? Torcer para clubes pequenos tem seu charme, sua graça. Só que o Flu é, repito, maior que Barcelona, o Real Madrid e o Chicago Bulls com o Michael Jordan. Juntos.

FOTO DE MAILSON SANTANA/FLUMINENSE FC.

Quatro jogos, quatro derrotas seguidas. Ontem, a derrapada da vez foi contra o Santos. Do improvável segundo lugar, vamos para a pausa da Copa do Mundo despencados na tabela, a apenas dois pontos da previsível zona de rebaixamento.

Levei ontem ao Maracanã um amigo argentino-brasileiro que mora nos Estados Unidos, junto com seu filho e um amigo, ambos de 16 anos. Para entrar no clima, emprestei uma camisa para cada um. Pegamos o metrô rumo ao Maraca. Entre o aguardo de uma liberação do tráfego à frente e outro – engarrafamento de trem, essa jabuticaba -, eu relatei nossa atual situação, mas tratei de sempre contextualizar com a história e o gigantismo do maior clube do Brasil.

Ou tentei. Como explicar para estrangeiros, in loco, que entre o Fluminense e o Platense há 20 mil Champions de distância?

Um público pífio e justo de 7 mil pessoas, uma equipe amedrontada em seu – por assim dizer – próprio estádio, jogadores incapazes de dar um drible, arriscar, o horror, o horror.

Não está o Flu hoje relegado ao papel de time com uns poucos moleques da base com outros experientes, vivendo incertezas de salários que não batem, sonhando com impensáveis títulos apenas em um mata-mata e vendo sua torcida minguar? Estes atuais sete mil de sempre já foram 15 mil. É a metade.

A derrota para o Santos foi merecida. Não por grandes méritos rival, que pouco fez numa péssima partida. Mas o Fluminense se furtou de jogar bola.

A começar pelo Marlon. Este jogador jamais poderia ser mergulhador. Ou pesquisador. Muito menos uma sonda em busca do petróleo no pré-sal. Ele jamais vai a fundo ao fundo. Tenta, meu filho. Erra. Erra de novo. Uma hora vai, e aí será gol.

Mas seria injusto falar apenas do Marlon. À exceção do Pedro e do Jadson completamente deslocado, há pouco a se elogiar. Abel segue errando. Por pior que o Sornoza seja, colocar o Jadson para armar o jogo quebra o Flu tanto na saída de bola quanto na criação.

Chamou-me demais a atenção o fato de o Fluminense, aguerrido até um mês atrás, ter entregue os pontos ainda no primeiro tempo. Gostaria de consultar no scout do Dedé a quantidade de passes para trás que o time deu ontem.

Tanto no primeiro quanto no segundo tempo, o juiz sinalizou os acréscimos, e o Fluminense, ao contrário do que era de se imaginar, não foi para cima. Pelo contrário, rolou irritantes bolinhas defensivas.

Chega o intervalo, e a torcida reclama. Os garotos americanos tentam entender os xingamentos.

– Fala: “Porra!” – provoca meu amigo a um dos meninos.

– FALA PORRA!!! – grita o adolescente americano, sem entender as risadas posteriores ao seu redor.

Acho que foi o único momento engraçado do jogo.

O que há com essa molecada, não a yankee, mas a do Flu? Jogo 0 a 0, e o Ibañez, que seria substituído, achou por bem pedir maca em vez de dar dois rolamentos para fora do campo. Só uma bala perdida vindo do morro da Mangueira teria justificado.

Pablo Dyego, talvez o jogador mais forte do elenco, solicita jogada sim, jogada também, atendimento médico. Fazemos cera contra nós mesmos!

Douglas desfila em campo e acredita ser o novo Fernando Redondo – mas o argentino pegava e não era nada suave. Onde está o sangue nos olhos? A vontade de fazer valer o pão com ovo nosso de cada dia?

A ideia é cair? Porque o caminho está sendo bem desenhado. Se for, remontemos o time, já que da gestão Flusócio não é possível esperar nada. Vai na arquibancada, chama a turma.

Desireé, vai segurar teu ursinho no gol. Rapaziada da Bravo que canta o jogo todo, segure a lateral na base do fôlego. A turma das organizadas fica na contenção dando bico para tudo que é lado. Tem vendedor de cerveja tricolor? Distribui ali no meio. Dá umas latinhas para o Romerito chegar na frente. E completa com o Pedro.

Vamos perder? Vamos. Mas ao menos nos sentiremos mais representados. Porque, hoje, nada ali soa parecido como o Fluminense que nós imaginamos que ainda exista.

Fora Abel? Eu não compro essa ideia.

Abel está errando muito. Escalou errado contra Grêmio, Paraná, Flamengo… Mas o time que entregaram a ele é péssimo. Acredito, honestamente, que mandar o Abel embora seria eximir a gestão Pedro Abad de culpa pela montagem de um elenco incapaz de realizar a milésima refilmagem de “Carrossel”.

Cabisbaixo, saio com meus três convidados do Maracanã. Para os garotos americanos, ficarão as boas lembranças do diferente: pegar metrô lotado na hora do rush, beber cerveja na rua, ver alguma festa de uma torcida diminuta atrás do gol.

E para por aí.

Se os meninos americanos vão ou não acreditar que o Fluminense ainda é um gigante, e não o Platense, é o de menos. Mas, e a molecada brasileira? Estamos ficando cada vez mais para trás. E não falo no calor do jogo. Esperei boas horas para desopilar o fígado e escrever com a cabeça.

Contar história é fácil. Mas, se já não conseguimos mostrar na prática o clube gigante que somos, o que diferencia afinal o Fluminense do Platense? Não basta acreditar, é preciso mostrar, é preciso ver.

Pois não estamos vendo nada. Ontem, novamente, fomos a sombra de um gigante.

– Fui pela primeira vez no setor Leste. Definitivamente, não curti. Aquele ar de restaurante a quilo arrumadinho, animadores e, ATENÇÃO!, pessoas cortando barba e cabelo é demais para mim. O estádio não precisa ser uma grande geral. Entendo haver locais mais gourmetizados. Mas barbeiro? E a com a bola rolando?

– Triste a gestão que somente consegue vitórias no tribunal. Flu venceu mais uma batalha contra o Gustavo Scarpa. Ok, bacana. Mas só se chegou a esse ponto por incompetência do Flu – e à posterior péssima postura do jogador.

– Quatro derrotas seguidas. Alguém sabe por onde anda o presidente Pedro Abad? Ou o vice-presidente de futebol Fabiano Camargo? Entrevista? Explicações? Que nada. Passarão o mês da Copa escondidos e trocando figurinhas?

– Onde havia o estádio Célio De Barros, destruído e abandonado, agora há um circo. Nada mais emblemático.

– Mateus Norton, Dudu… É esse o trabalho de excelência realizado pelo Marcelo Teixeira em Xerém?

– Rússia x Arábia Saudita? Es um partidazo! Vamos à Copa.

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Jornalista e pitaqueiro, andou metendo o bedelho no GloboEsporte.com, LANCE! e no balcão mais próximo.