Começo esta coluna citando novamente um amigo. Desta vez, um risonho tricolor de quatro costados (anda meio redondinho, mas se procurar, encontra os costados), sempre presente aos jogos no Maracanã. O danado não pode ver um livro de autoajuda dando mole que compra, empresta, divulga, faz campanha, emoldura…

Tal qual um flusócio repetindo “e-ticket, e-ticket, e-ticket”, meu querido companheiro de arquibancada, em dado momento, tinha em “Sapiens” a resposta para qualquer questão da humanidade. De topada com o dedinho aos buracos negros do universo.





– Sapiens explica – repetia.

Pois nosso querido Trator deu agora de ler “O Poder do Hábito”. Espinguela caída, unha encravada, tétano, difteria, sarampo ou coqueluche? Como diria Tim Maia, leia o livro – não o “Universo em Desencanto”, mas “O Poder do Hábito”.

Como a grande maioria dos brasileiros, não lerei a obra. Ficarei apenas na orelha, me informarei pela manchete e confiarei nas opiniões dele. Até porque aqui quero dar o crédito e finalmente, após toda essa lenga-lenga que não interessa a ninguém, chegar ao meu ponto: ir ao estádio é hábito, e estão tirando isso da torcida do Fluminense.

Chegar mais cedo no estádio, parar no mesmo botequim, cumprimentar os garçons de sempre, encontrar a rapaziada, contar as mentiras pela milésima vez, ficar no local de costume, comprar cerveja no camelô de fé e ir embora. Dali a uns dias, voltar à primeira casinha e repetir tudo novamente, como se fosse a primeira vez.

Toda essa rotina fica prejudicada, inicialmente, quando não se sabe em qual estádio o clube vai jogar. Los Larios, Edson Passos, Engenhão, Raulino de Oliveira… O tricolor, esse nômade, se viu obrigado a criar grupos de Whatsapp para poder encontrar os velhos companheiros de lutas e de glórias.

Firmamos o Maracanã. Bola muito dentro. É nossa casa. Mas começou outro suplício. Vai ter Torcida Organizada? Onde está a Bravo? Tem união? Não tem bateria? E lá vamos nós, de túnel em túnel, em busca da turma.

Aos poucos, minha rapaziada e eu fomos nos mudando de lugar. Gostamos de assistir ao jogo em pé. “Fundamos” a Flu-Escadinha, bem abaixo da Bravo 52. Em pé no cimento, perto da zoeira, ambulante ao alcance da mão. Não era preciso entrar junto.

Aqui um aparte. Não sei se acontece com vocês, mas temos uma particularidade. Vamos todos juntos à entrada. A roleta, porém, parece um vórtex, um teletransporte, que despacha todos para um canto diferente. Podemos ser 20. Ao passarmos por aquela catraca, somos 20 Johns Travoltas, sozinhos, procurando um abraço amigo.

Nos reencontramos, porém, na escadinha. Ou reencontrávamos.

Será que abre a Superior? Opa, abriu. Lugar de sempre. Ih, não abriu? É só o curralzinho? E aí, ficamos no meio? Cadê esses caras? OOOOÔ, AQUI, RAPAZ! Estão no outro túnel. E tome de “licença, licença, licença…”.

Entendo perfeitamente a questão de reduzir custos para seguir jogando no Maracanã. Aos poucos, nossa venda antecipada está crescendo, o que aumenta a chance de abrir o setor preferido do tricolor. Mas hábitos se movem com a velocidade de uma placa tectônica. Leva tempo. E não adianta brigar contra a natureza.

Assim como tenho minhas manias, todos têm. Decidir ir ao jogo e comprar no dia. Chegar na hora. São inúmeras. Claro que mesmo esse torcedor, em um jogo de 60 mil pessoas, vai se programar melhor. Em uma partida de 15 mil, desculpem, não deveria. Em vez de culpar esse cara que se dispõe a sair de casa, é preciso ajudá-lo a entrar a tempo de ver o pontapé inicial.

O Fluminense acerta no setor popular. Isso tem impulsionado as vendas antecipadas, a presença de público e deixado a imagem mais bonita na transmissão. É um processo. A questão da gratuidade precisa ser resolvida urgentemente – e aqui entra a culpa do poder o público também.

Os tempos mudaram. Ok que não seja mais possível estacionar quase aos pés do Bellini, beber cerveja de garrafa no interior do Maracanã, jogar um chinelo na cabeça do adversário que vai bater o escanteio. Mas é preciso respeitar o hábito do torcedor. Ir ao estádio é hábito. Mania de velho mesmo.

É “o poder do hábito”, dizem. Não faço ideia se o livro é sobre isso. Talvez não. E eu não lerei essa autoajuda.

Cartas para nosso querido e risonho Trator.

– Será possível que o Fluminense não consiga dar duas alegrias seguidas? Que atuação ruim contra o Bahia. Pela lógica, o Inter que se cuide!

– Marcelo, solta o Ayrton Beijoca, pelo amor de Assis!

– Há de existir alguma outra opção para o Gilberto que não seja o Léo.

– Não faço ideia de quem seja este Paulo Ricardo de Olhar 43. Mas há de ser melhor que o Frazan.

– Ao Maraca na segunda-feira! O horário é ruim, mas vamos abrir aquela superior e fortalecer a Flu-Escadinha.

– E-ticket.

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Jornalista e pitaqueiro, andou metendo o bedelho no GloboEsporte.com, LANCE! e no balcão mais próximo.