Aproveitei que a gasolina voltou aos postos, enchi o tanque do DeLorean e voltei a 14 de março de 1993 em busca bons fluidos. Aos 12 anos, sem companhia adulta para ir ao Fla-Flu, me restou acompanhar a ala rubro-negra do colégio e pegar carona com o pai de um deles.

Seria minha primeira experiência na cadeira especial – eu, então, já um apaixonado pela arquibancada. Tive a sensação de estar sendo levado para o Theatro Municipal, enquanto gostaria de estar no Tivoli Park. Mas, que jeito, lá fui eu.

O Flamengo vinha de um improvável título brasileiro. Nós, de um ainda mais impensável – e roubado – vice da Copa do Brasil. A torcida rubro-negra estava daquele jeito que, sabemos, prenuncia a vitória tricolor. O lado pó-de-arroz, entusiasmado, fazia o impossível em número muito menor. Recordo-me que havia andaimes bem atrás do gol, no meio da Young Flu, para atrapalhar mais um pouco

O clássico chega ao segundo tempo, e Nélio abre o placar. Explosão no Maracanã.

– É hoje que o Emiliano vira flamenguista hahaha!!! –  agitava a camisa e se divertia um amigo, quase o mesmo até hoje, tanto na aparência quanto na soberba que as aves de rapina carregam ao acreditar que seu almoço já está morto.

Mas divertido também é ver o susto que essa nada bela ave toma ao descobrir que o rango está vivo. Um minuto depois, Vágner Tanque empata o Fla-Flu.

Praticamente sozinho na Especial, subo na cadeira e pulo tal qual a pulga que eu, de fato, era.

Vágner Tanque festeja: grande parceiro do Ézio

Aos 42, entra alguém dos juniores, que provavelmente só entrou no Mário Filho porque chegou no ônibus do clube. Nem um crachá seria capaz de convencer o mais dócil dos seguranças a deixá-lo entrar no gramado.

Mas ele entrou, correu para a área na cobrança do escanteio e virou a partida.

VIROU O “FLA-FLU DO ALEXANDRE”.

A explosão, desta vez, era do lado direito das cabines de rádio. Aquele bolo atrás do gol, tal qual um Big Bang, foi se desfazendo e espraiando tricolores por todo o universo da arquibancada.

Bem ali do lado, eu pulava e pulava e achei que nunca mais fosse parar de pular. Tive a sensação de estar pulando mais alto que a velha marquise e vendo o mar de tão alto que pulei.

– Se o Fluminense fizer mais um gol, eu vou jogar a camisa fora e comemorar também – bufava agora meu amigo flamenguista, enquanto escondia seu traje rubro-negro na bermuda.

Eu, ainda não iniciado na pilhéria, apenas sorri, até compadecido. Guardei para a posteridade, quando esperava valer um pouco menos e transformar o causo em texto..

Pego o DeLorean, de volta para o futuro, em sete de junho de 2018.

Relembro esta passagem de infância porque o Fla-Flu de hoje será – terá que ser – assim, desse jeitinho assim.

Poderia escrever um texto inteiro apenas com passagens semelhantes no “Clássico das Multidões” – e que vertem, invariavelmente, para o mesmo lado. Milagres seriam, caos não fossem corriqueiros. Vi gol espírita do Renato Carioca, do Dirceu na estreia do Júlio Saiazar, dobradinha do Nildo, os 163 gols do Ézio e paro por aqui para não derrubar o servidor do Futebolzinho.com.

Entre os 178 gols do Assis e os times da fase áurea da Unimed, fomos na mística do velho “timinho”. E funcionou. Pois, vamos novamente.

A Copa do Mundo pode esperar mais uma semana. Como aprendi desde cedo, com meu velho pai, hoje é dia de Fla-Flu. E, em dia de Fla-Flu, nada mais importa (mesmo que numa quinta-feira e em Brasília, numa inacreditável inversão de mando de campo).

Do lado de lá, o Flamengo terá um estádio apinhado de torcedores, o poderio do dinheiro da TV e de patrocinadores estatais – e por isso um time mais qualificado -, e grande parte da mídia em polvorosa para criar mais oba-oba com a liderança deles.

Do lado de cá, o Fluminense terá sua camisa. Nem sempre funciona diante do lanterna. Contra o Flamengo, porém, costuma ser suficiente.

***

É FLA-FLU, ABELÃO

Se o Fluminense vai precisar de muito suor e alguma dose de sorte, Abel Braga é o técnico certo no lugar certo. Ou qual outro treinador do Brasil é mais adepto do “vem, gol cagado”? E com um índice de sucesso maravilhoso e maravilhado dessa tática cardíaca?

Já cobri o Abelão de elogios neste espaço. Dedé tem sido um crítico contumaz, com dados e bons argumentos. Gustavo perdeu a paciência na última rodada. Eu costumo rebater, mas preciso que nosso técnico me ajude.

Que péssima noite do Abel na última segunda-feira, contra o lanterna Paraná. O horror. O que foi a demora infinita para colocar Pablo Dyego e Matheus Alessandro? A a opção por Robinho no lugar do Marcos Júnior?

Leio aqui que Douglas será o substituto do Marcos Júnior. Com isso, avança o Jadson para a armação e o Sornoza para encostar no (respira…) João Carlos.

Não, Abel, mil vezes não!

Foi exatamente o feito contra o Grêmio, apenas com Dodi (Dôdi, Dódi, sei lá…) em vez do Douglas. O time se ressentiu de uma opção de velocidade, já que o Gilberto ficou preso na marcação, e passou o primeiro tempo inteiro levando sufoco.

Com esta formação escalafobética, o Flu perde a organização de meio-campo do Sornoza, que costuma nada acrescentar como segundo atacante. Abre mão, também, da boa saída de bola do Jadson lá atrás, e entrega a ele a tarefa de enfiar as bolas agudas. Para correr, restará novamente o Gilberto, já que o Marlon… bom, é o Marlon.

No momento em que escrevo, faltam algumas boas horas para o jogo. Repense, Abelão. Simule no botão, jogue no videogame, vá até o botequim mais próximo e troque uma ideia com tricolores, jogue xadrez, toque piano, beba vinho, mas pelo amor de Assis, não entre com essa escalação.

E, se entrar, não espere até os 30 minutos do segundo tempo para colocar os moleques corredores. Não tenho a pretensão de ensinar nada a respeito, mas me permito um pitaco: futebol não é Mega Sena, para ficar repetindo bilhete até sair o prêmio. O que você está fazendo errado vai continuar dando errado, inapelavelmente.

O Fluminense vai ganhar. Mas o “contra tudo e contra todos” não deveria envolver fogo amigo.

***

VAI, MONSTRO!

A Copa do Mundo vai chegando e, na minha bolha, vejo uma turma grande de rivais detonando o Thiago Silva. Qual é a questão afinal? É porque ele se emocionou e chorou na disputa de pênaltis nas oitavas de final contra o Chile em 2014? Porque foi honesto ao pedir para ser o último a bater por não se sentir confiante, mesmo deixando sua vaidade de lado em favor do time?

Nas quartas, Thiago Emiliano da Silva não apenas foi o melhor em campo, como fez um dos gols na vitória contra a Colômbia, que garantiu a vaga à fatídica semifinal.

Meu xará não esteve em campo no 7 a 1, quando choraram Júlio Saiazar, que levou sete gols pela proa, e David Luiz, que desde a segunda bola na rede achou por bem virar centroavante.

Até acho que o Thiago não deveria ser o capitão – no Fluminense, aliás, era o Luiz Alberto.

Mas quão ruim é um jogador que há dez anos é eleito um dos melhores, quando não o melhor, zagueiro da Europa? Os europeus não devem saber nada de futebol. Nem o Tite. Eles é que entendem.

Aham.

– Existe há algum tempo no Fluminense a discussão sobre realizar ou não clássicos na proporção 90/10. Porém, a gestão Abad/Peter/Flusócio conseguiu inverter um mando de campo. Contra o maior rival. No Maracanã, mesmo em minoria, a torcida do Flu dá conta no canto e na garra. É tão habitual quanto tradicional a vitória tricolor – também – nas arquibancadas. Pois esta diretoria conseguiu a proeza de, no próprio mando, fazer o 90/10 ao contrário, em Brasília. Darei irônicos parabéns, pois me faltam adjetivos para criticar.

– Depois de levar o Henrique Dourado e tentar o Abel semana sim, semana também, o Flamengo quer Wendel, segundo a imprensa portuguesa. A história se repente há mais de 100 anos – e não adianta nada.

– Agora, custa, no momento da venda, colocar uma cláusula que impeça negociar o jogador com algum clube rival durante X anos? Pelo visto, para a atual gestão, custa.

– O último jogo acabou há quatro dias, e o Marlon ainda deve estar errando passes por aí.

– Pedro, Ayrton Beijoca, Marcos Júnior… Sei que o esquema do Abel exige muito dos jogadores, mas chega a ser falta de sorte os melhores se machucarem ao mesmo tempo. O elenco, além de mediano, é curtíssimo.

– Fecharei o texto com uma foto do Super Ézio. É autoexplicativo.

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Aquele bar ruim que você respeita
– “La Casa de Abel”

 

Super Ézio: eterno

 

 

Jornalista e pitaqueiro, andou metendo o bedelho no GloboEsporte.com, LANCE! e no balcão mais próximo.