Em 25/11/2010, o candidato da Flusócio a Presidente do Fluminense falou ao Globoesporte: (link: http://globoesporte.globo.com/futebol/times/fluminense/noticia/2010/11/candidato-apoiado-por-patrocinador-peter-siemsen-espera-dobrar-receita.html)

Como todos sabem Peter ganhou a eleição e, posteriormente, foi reeleito. Presidiu o clube de 2011 a 2016, quando elegeu seu sucessor, Pedro Abad, também candidato da Flusócio.

A seguir, alguns trechos dessa entrevista:

Perguntado sobre a dívida do clube, Peter respondeu:

“Hoje, a situação do Fluminense, em termos de gestão, é muito ruim. Isso é consequência de gestão. Se você observar, quando o Horcades assumiu, a dívida era de R$ 92 milhões. Quando o David Fischel assumiu, era de R$ 40 milhões. Hoje nós estamos ultrapassando a marca de R$ 350 milhões. Receita, o clube tem. O problema está na gestão. Acho que nessa fórmula não tem pirotecnia, não tem milagre, não tem messias. A fórmula é puramente gestão, trabalho competente, bem-feito e transparência. O custo do Fluminense hoje é muito alto.”

Perguntado sobre cortes no futebol ao tentar equacionar ( o termo equacionar é bem antigo pra eles) a dívida Peter falou:

“Hoje o Fluminense fatura em média R$ 60 milhões por ano, mais um investimento que a Unimed faz. O investimento que a Unimed faz hoje está muito bem planejado conosco. Estamos trabalhando com o Celso o planejamento para os próximos três anos, e o investimento será mantido no elenco e na comissão técnica, de modo que essa espinha dorsal não será mexida. No ponto de vista do Fluminense, R$ 60 milhões arrecadados são R$ 60 milhões com um trabalho absolutamente arcaico, malfeito e que, com uma mudança de filosofia de gestão, com mudança na capacidade de quem está gerindo e trabalhando, podemos aumentar de forma exponencial esse receita. Hoje temos uma meta de buscar uma receita de R$ 120 milhões, e não mais de R$ 60 milhões. Temos uma capacidade, acredito que em três anos, de quase dobrar o valor de faturamento do Fluminense, que seria mais que suficiente para você equacionar, a uma taxa financeira baixa, a dívida. E não só mantendo o investimento da Unimed, como o aumento do investimento do clube no futebol e nas outras área.

Depois de 7 anos e meio gerindo o Fluminense, no dia 20/06/2018, a Flusócio coloca em seu blog uma entrevista da Netflu com o executivo da Ernst & Young Alexandre Rangel, que fez um trabalho no clube e chegou a algumas conclusões:

Um aparte: A entrevista foi colocada pelo grupo político que gere o clube há quase 1 década com um tom de “estamos no caminho certo”, quase como uma comemoração, mesmo num dos momentos mais terríveis da história do Fluminense dentro e fora dos campos.

Passados 8 anos de Flusócio no comando do clube, o executivo contratado chegou a algumas conclusões:

“Eu conheço bem todo o projeto. O projeto teve alguns pilares. O primeiro era fazer o orçamento do clube. O Fluminense nunca teve um orçamento estruturado antes.” Depois de 8 anos, nem orçamento o clube tinha estruturado.

“E aí saíram várias recomendações de profissionalização do clube, estabelecido dentro de várias normas, até para evitar que esse tipo de situação de descontrole financeiro acontecesse”. Depois de 8 anos, o descontrole financeiro permaneceu.

“O Fluminense tem muita coisa a fazer. O Fluminense tem uma necessidade muito urgente de se profissionalizar. Ele perdeu aquele senso de clube nacional. Precisa extrair o máximo da torcida que tem, gerar muitas receitas e cortar custos de maneira muito forte.” Depois de 8 anos, o Fluminense não é mais um clube nacional.

“Todo o processo de recuperação financeira é um processo de anos. Não estamos de recuperação de dois, três anos, mas de diversos anos. O Fluminense está no seu segundo ano de tentativa de equacionar contar.” Depois de 8 anos falando em equacionamento das dívidas (pauta de campanha do Abad), a gente descobre que é apenas o segundo ano em que isto está sendo tentado.

“Equacionar contas significa corte de custos”

No fim da entrevista a Flusócio coloca assim no seu blog:

“Mais uma vez convocamos todos os tricolores neste momento difícil para apoiarem a instituição e seu processo de recuperação econômica. São tempos difíceis, mas que podem ser superados como inúmeros outros de nossa história.”

Amigos, é muita cara de pau. Mais que isso, é sacanagem com o torcedor. Torcedor esse que em sua grande maioria apoiou a Flusócio, confiando a eles um segundo mandato mesmo quando a gestão Peter quase levou o Fluminense de volta pra segunda divisão.

É fato que muita coisa precisa mudar no Fluminense em termos de governança e gestão. E é óbvio que não pode ser a Flusócio a liderar esse processo. Não tem mais credibilidade e capital político perante o torcedor para fazer as mudanças necessárias.

Nem a Flusócio, nem aqueles que, sabendo exatamente a situação do clube, uma vez que passaram anos denunciando, a eles se juntaram nas vésperas da eleição passada.

Vamos voltar a uma das passagens da entrevista do Alexandre Rangel: “Equacionar dívidas significa corte de custos”.

Será? Eu espero que tenha sido força de expressão, porque matematicamente você pode equacionar dívidas aumentando receita também. Ou não?

E como se aumenta receita? Sendo campeão, lotando estádio, disputando competições importantes, trazendo visibilidade pro Fluminense, aumentando a quantidade de sócios.

E já que citei Peter, um fracassado na gestão de Fluminense e o Alexandre Rangel, que até onde sei, nunca geriu um clube de futebol, é preciso citar (mais uma vez, já o fiz antes, mas todas as vezes que vocês mostrarem um caminho medíocre, farei questão de pontuar que há outro) Ferran Soriano, executivo de sucesso nesse ramo de negócio totalmente particular:

Ferran fala que quando chegou ao Barcelona (que não era uma potência, tinha problemas financeiros) tinha 2 alternativas:

1 – Abordar o imprescindível e urgente saneamento econômico, limitando os investimentos e passando os próximos 2 ou 3 anos com austeridade (A Flusócio fala em mais anos).

2 – Reestruturar a dívida, investindo imediatamente no produto (jogadores) para gerar receitas e iniciar a roda de crescimento (o círculo virtuoso).

No seu livro, Ferran conta que escolheu a segunda opção porque mesmo com risco financeiro maior, nada se comparava ao risco de mercado. O risco autêntico era o de perder cotas num mercado crescente.

Amigos, é ou não é o que está acontecendo com o Fluminense, segundo a visão do próprio executivo contratado pelo clube?

Estamos perdendo mercado! Nada pode ser mais grave do que isso!

Ferran Soriano ainda conta como fez isso.

No primeiro ano objetivos factíveis e de fácil comunicação: Classificar pra Champions, redução de 20% nas despesas e incremento de 35% nas receitas.

Volto ao Fluminense. Será que classificar pra libertadores é tão difícil assim nesse novo formato? Não é. Afirmo que é uma meta perfeitamente possível apenas com uma gestão de futebol razoável.

Outra ação tomada e que diz respeito aos recursos humanos: “Sobre os recursos humanos, substituímos sete dos nove membros do comitê da direção, para assegurar que realizaríamos as mudanças em velocidade de uma “revolução”.

Já escrevi uma vez que o Fluminense precisava de uma revolução. Abad escolheu um executivo do vôlei (Marcus Freire já demitido) que nunca fez futebol e o Marcelo Teixeira, que está no clube há anos, teve a oportunidade de fazê-la mas falhou.

Sobre Projeto Esportivo, Ferran também disse como fez:

A responsabilidade do projeto esportivo foi dada aos técnicos contratados, com os quais foi compartilhada a estratégica geral do clube, dando tempo e confiança para trabalharem. Estes técnicos escolheram os investimentos (os jogadores que seriam contratados), tendo em conta as limitações econômicas, mas com o critério esportivo como principal referência.

Decidiu-se por compor um elenco equilibrado, com jogadores com talento, mas com alto nível de comprometimento e fome (grande ambição) por êxitos esportivos. Construir uma equipe de colaboradores comprometidos e com talento, e que tenham o necessário equilíbrio de habilidades e atitudes, me parece um objetivo que deveria ser perseguido por qualquer gestor de qualquer empresa ou indústria (inclusive em um clube de futebol).

São 8 anos sem projeto, sem planejamento, sem caminho, sem meta, sem gestão.

8 anos.

A boa notícia é que, por vezes, muitas vezes, ainda mais no medíocre futebol brasileiro, uma boa gestão de campo compensa uma gestão ruim fora dele.

E falando de campo, estamos em plena Copa do Mundo e a quantidade de times tecnicamente limitados que fazem jogos duros com países que são potência no futebol é enorme.

A era da inteligência coletiva, da ocupação de espaços, da preparação física, tática e até psicológica chegou. As grandes referências técnicas, os caras que desequilibram jogos, não jogam no Brasil.

Sejam bem vindos Marcelo Oliveira e Paulo Angioni. De vocês, esperamos essa boa gestão, que não ocorreu com Abel e Autuori, nem com Abel e Marcelo Teixeira.

De vocês esperamos a classificação pra Libertadores 2019 e/ou o Título da Sulamericana. Nada menos do que isso. São metas do tamanho do Fluminense.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dedé Moreira avatar

Blog do torcedor do flu no Globoesporte, Futebolzinho.com. Gestão Técnica de Futebol e Análise de Desempenho pela Universidade do Futebol.