O professor Leo Samaja, que coordena o maior (e mais completo) curso para treinador da América do Sul, realizado pela AFTA (Associação de Treinadores de Futebol Argentino), disparou semana passada nas redes sociais:

“Há meses leio extensas matérias de treinadores de base postando em redes sociais sobre losangos, transições, metodologias e belos conceitos científicos da bola. Começou a Copa São Paulo e esperava ver tudo isso na prática. Belo mundo da internet!”

Há pouco tempo atrás escrevi sobre isso na página do Flu no Globoesporte ( Por um novo modelo!) mas parece muito claro que o problema abrange o futebol brasileiro como um todo e seus profissionais, incluindo base e profissional: O discurso completamente desalinhado da prática!

Escrever sobre isso é a parte mais fácil. Um, dois livros, alguns cursos e pronto: Os conceitos e o arcabouço teórico estão todos presentes num texto sobre futebol.

Sim, a teoria é muito necessária.

Mas e a aplicação? Como fazer com que a teoria vire prática? Como desenvolver uma metodologia que seja efetiva nesse sentido?

É evidente que o Brasil perdeu terreno com a evolução do futebol na última década.

Estamos formando mal, o jogo jogado aqui é de péssima qualidade, as prioridades na formação de jogadores parece que estão invertidas.

Façam agora um exercício e se imaginem coordenando as divisões de base de um clube. Alguém viu um menino e indica pra um teste.

E começa a conversa:
– O garoto é bom?
– Muito.
– É veloz?
– Não.
– Marca bem?
– Não.
– Chuta forte?
– Não.
– Cabeceia bem?
– Também não.
– É driblador?
– Não.
– Fisicamente é forte?
– Não.

Muito possivelmente esse menino nem ia treinar. E se treinasse, muito provavelmente seria mandado embora nos primeiros treinos, porque seria atropelado por meninos fisicamente mais fortes e atleticamente mais velozes.

Porém, todas as características citadas acima, caem como uma luva em grandes gênios recentes do futebol como Iniesta, Deco, Xavi…

Os citados, a olho nu, não possuem nenhuma valência que chamariam a atenção e são 3 dos maiores meio campistas da história.

E, nesse contexto, a entrevista que Xavi deu ontem, é uma porrada na cara do futebol brasileiro.

Dentre muitas genialidades Xavi falou algumas coisa que me chamaram muito a atenção:

A primeira é com o compromisso do jogo bem jogado, do protagonismo, de gostar de ter a bola e saber o que fazer com ela. Evidente que não é o único caminho para as vitórias, mas sem nenhuma dúvida são esses os times que ficam na história.

E esse compromisso é de poucos. E por ser de poucos, treinadores como o Guardiola são tão valorizados. Porque os grandes clubes hoje buscam mais que títulos, buscam identidade. O futebol, antes da taça, é paixão e emoção.

Também disse que no futebol atual há mais Simeones do que Guardiolas. Fato. É muito mais fácil jogar defendendo espaço curto e atacando espaço longo do que jogar defendendo grandes espaços e atacando espaços mínimos. A segunda forma requer muito mais recursos dos treinadores e dos jogadores.

Outro ponto que chama muito a atenção: “ O Barcelona prevê o que vai encontrar, trabalhamos o esquema tático contra 9 jogadores (treino que se reproduz no jogo – adição minha), onde o nosso zagueiro precisa conduzir e dividir, sempre em espaços pequenos”

Os zagueiros participando das ações ofensivas são uma das melhores formas de criar superioridade numérica, mas como fazer isso se eu exijo na minha base que o zagueiro seja um mero rebatedor e que não corra riscos?

Perguntado quantos jogadores são capazes de jogar em espaços tão curtos foi seco: Isso pode ser treinado! Revela como é fundamental o aprendizado.

Ainda sobre aprendizado fala de Casemiro, titular da seleção brasileira e que mostra como a gente trabalha e forma meio campista por aqui:

“ Casemiro fica sozinho no meio pra fazer a cobertura. Busquets não consegue fazer isso, porque é lento. Mas Casemiro tem dificuldades com todo o resto proque não trabalhou esses fundamentos; tem outras características, é mais defensivo, rouba mais bolas. Mas não domina o espaço-tempo. Se Casemiro tivesse sido estimulado com 12, 13, 15 anos teria essa capacidade. Por que Kross tem? Na Alemanha trabalharam. Por que Thiago Alcântara tem? Porque esteve na escola do Barça.

E explica de forma didática como achar os espaços nos diferentes tipos de marcação a quem são submetidos. Treinamento, aprendizado, modelo com arcabouço teórico e aplicação prática.

O que se vê no Brasil? Marcação forte e velocidade.

O futebol atual é um jogo de tomada de decisão, é um jogo cerebral.

A velocidade deve ser contextualizada nesse sentido.

A chave do jogo é a velocidade, mas não a velocidade atlética.

– É uma velocidade relacionada ao jogo, portanto com a bola;

– É uma velocidade mental: pensar a ação com antecedência;

– É uma velocidade orientada para a intenção da jogada. Na fase de construção ela é moderada, na zona de definição elevada;

– É uma velocidade que deve ser precisa. Não adianta ser veloz e errar passes ou decisões. A precisão incrementa a velocidade;

– É uma velocidade inteligente. Antecipar gera vantagem. Intuir diminui desvantagem, pausar o jogo evita que a bola vá e volte muito rapidamente.

Voltando a entrevista acima pra deixar o menino fazer o teste ou aprová-lo, seria necessária a compreensão de que todos são craques, gênios do espaço-tempo.

E a grande maioria dos profissionais do país não possui essa sensibilidade e a capacidade (ou vontade?) de trabalhar isso.

Melhor fechar o time e sair em velocidade, ensaiar duas ou três jogadas de bola parada e ir pro jogo.

E quando for massacrado por um Barcelona ou Real Madrid dizer que são times muito ricos.

Fica bom pra todo mundo. Os espaços conquistados são mantidos e o novo nunca chega. Dá trabalho inovar, mudar paradigmas.

Só esquecem que consumidor gosta de qualidade. E hoje tem muita gente que espera a semana pra ver o City, o Barcelona e na hora dos jogos do Campeonato Brasileiro prefere ir ao cinema.

Até a próxima!

Dedé Moreira avatar

Blog do torcedor do flu no Globoesporte, Futebolzinho.com. Gestão Técnica de Futebol e Análise de Desempenho pela Universidade do Futebol.