Vira-Lata

Blog do Alvaro Marechal

Nova carta ao parceiro Arthur Muhlenberg

Estimado amigo Arthur, gostei tanto  da sua resposta à minha carta que resolvi fazer uma tréplica, palavra feia mas que é a preferida dos velhos polemistas de estirpe. Claro que tudo tem a ver com a adrenalina que envolve o jogão de quarta-feira, entre Botafogo e Flamengo, pela semifinal da Copa do Brasil. Que ganhe o melhor, desde que seja o primeiro. Arthur, velho de guerra, permita-se uma teorizaçãozinha. O futebol é um jogo de repetição que nunca se repete da mesma maneira. Desde a primeira vez que a bola entrou no gol, o objetivo é fazer de novo. Por isso é tão importante a memória do jogo, chutes, passes e dribles atávicos. Muitos tentaram as jogadas que genialmente Pelé tentou – e até conseguiram fazer o que ele não fez, um chute antes do meio-campo que resultou em gol. Há Zico, num...

Carta ao parceiro Arthur Muhlenberg

Meu caro Arthur, Eu sei que você é um bom sujeito e saudável do pé, por isso começo falando sobre samba. Mais especificamente sobre um compositor, no gênero um dos maiores de todos os tempos – e que, por acaso, era rubro-negro. Nascido em Campos dos Goytacazes, numa família ligada ao movimento abolicionista, Wilson Baptista (1913-1968) foi autor de quase 600 canções, entre sambas e marchinhas, muitas dos quais o pessoal possivelmente assobia sem saber que são dele, como “Acertei no milhar”, “Meu mundo é hoje”, “Mundo de zinco”, “Balzaquiana”. Arrasou quarteirões nos 1940 e 1950, fornecendo pepitas para os melhores intérpretes da sua geração, de Carmen Miranda a Aracy de Almeida, de Orlando Silva a Moreira da Silva. Alguns de seus parceiros foram Ataulfo Alves, Haroldo Lobo, Nássara, Robert...

Vem aí o árbitro de vídeo

    Um dos mais destacados intelectuais da atualidade, Juan Villoro é jornalista, cronista, romancista, contista, dramaturgo, ensaísta. Também é um torcedor apaixonado do Necaxa, clube tradicional que nem sempre anda bem das pernas – digamos que seja uma espécie de América, o querido Ameriquinha da Campos Sales, em versão mexicana. Como muitos escritores que curtem futebol, Villoro em criança sonhou em ser um craque da pelota ao se tornar rapaz. Sonhou em ter a exatidão de Platini, a inteligência de Cruyff, a habilidade de Rensenbrink, a elegância de Tostão, a invenção de Riquelme. Mas a vida o fez escritor – fazer o quê? Ao menos, ele leva essas qualidades para o ofício de escrever. O ideal de Villoro é Sócrates. E não apenas pela identificação física – ambos de barba e com mais...

O imponderável Botafogo

Uma promessa: não vou escrever “há coisas que só acontecem ao Botafogo”. Mas já escrevi. Às vezes, diante da surpresa e do insólito, é difícil fugir ao lugar-comum, à frase feita, ao velho clichê, pois essas convenções têm a função de nos proteger e nos explicar a realidade. A maioria tem origem no medo do desconhecido. E o que é uma partida de futebol senão o desconhecido e o improvável se desenrolando bem à nossa frente? Será que dará certo a entrada de fulano no lugar de beltrano? Aquela inversão de jogo surpreenderá a defesa adversária? Jogar com o uniforme reserva trará sorte? O juiz vai marcar o pênalti ou não? A bola entrou? Numa única frase: vamos vencer ou vamos perder? Todos que gostamos de futebol sabemos que as possibilidades de um jogo são infinitas, e que uma partida nunca é ...

Sambistas da bola

O samba é o gênero musical mais popular no país. (Logo ao escrever a primeira linha, assaltam-me as dúvidas: será que o samba continua tão popular? Ou o chamado Brasil profundo já colocou o sertanejo em primeiro lugar? Ou mesmo a tal “sofrência”?). Se o samba é o gênero mais popular do Brasil, é natural que o clube de maior torcida reúna o maior número de sambistas ilustres, não? É quase isso. O Flamengo esbanja torcedores ligados ao gênero: as cantoras Elizeth Cardoso, Elza Soares, as irmãs Linda e Dircinha Baptista; os cantores Blecaute, Miltinho, Wilson Simonal; os compositores Ary Barroso, Geraldo Pereira, Ataulfo Alves, João Nogueira, e ainda João Bosco, Moacyr Luz e Paulo César Pinheiro, vivos e atuantes. Um grande time, sem dúvida. Mas o Vasco – que tem enorme torcida nos subúrbios ...

O capitão do tri

No dia 17 de julho, Carlos Alberto Torres fez aniversário. 73 anos. Como se sabe, ele morreu em 25 de outubro do ano passado. Mas segue eterno, e seguirá enquanto existir futebol ou algo parecido: uma bola sendo chutada por dois meninos num futuro distante, num planeta longínquo. Seu gol – o quarto na vitória do Brasil sobre a Itália, na final da Copa do México, em 1970 – é um desses momentos inesquecíveis. Mesmo que você veja o lance duas mil vezes, a emoção, o arrepio, a alegria irão se repetir. Ao infinito e além. Dias depois de sua morte, publiquei na “Folha de S. Paulo” um texto sobre o Capita. A ocasião permitiu que o colunista saísse da objetividade e se tornasse personagem da história, escrevendo em primeira pessoa. Um bastidor de futebol, que não costuma chegar ao conhecimento púb...

Heróis alvinegros 2

  Vamos ao segundo capítulo sobre os heróis da música e da literatura que tiveram a ventura – para usar uma palavra que lembra o nosso jovem e vitorioso técnico Jair – de torcer pelo Botafogo. Façamos antes justiça: muitos dos ilustres alvinegros citados no post anterior também estão elencados no livro “Entre o céu e o inferno”, de Sérgio Augusto, uma pequena (só no tamanho) história do Botafogo – aliás, é uma das melhores obras desse tipo que se pode encontrar na praça, recomendo fortemente a leitura. Sérgio Augusto – um maestro do jornalismo cultural e, naturalmente, um botafoguense de quatro costados – nota que, desde seus primórdios, o clube de General Severiano teve a fama de atrair intelectuais. Numa sacada genial, ele arma o “Time-Cabeça do Botafogo”, que no livro aparece, no t...

Heróis alvinegros

Outro dia, Ruy Castro, em sua coluna na “Folha de S. Paulo”, se divertiu e nos divertiu entregando o time do coração de nossos maiores heróis da música e da literatura. Ruy puxou a sardinha para o Flamengo, que é o dele. Pois vamos equilibrar a partida. (Ah, sim, em nosso jogo só contam os clubes cariocas que, como se sabe, têm as maiores torcidas espalhadas pelo país.) A situação na chamada belle époque era parelha: Coelho Neto, Fluminense; João do Rio, Flamengo; e Olavo Bilac, Botafogo. Lima Barreto, suburbano de truz, bem que poderia representar o Vasco, mas odiava futebol – mais um traço de sua personalidade “do contra”.  Bilac era, disparado, o mais famoso e lido. Vinha gente de todos os cantos para conferir se ele estava de bobeira à porta da Confeitaria Colombo, tentar dois dedos de...