Um dos mais destacados intelectuais da atualidade, Juan Villoro é jornalista, cronista, romancista, contista, dramaturgo, ensaísta. Também é um torcedor apaixonado do Necaxa, clube tradicional que nem sempre anda bem das pernas – digamos que seja uma espécie de América, o querido Ameriquinha da Campos Sales, em versão mexicana.

Como muitos escritores que curtem futebol, Villoro em criança sonhou em ser um craque da pelota ao se tornar rapaz. Sonhou em ter a exatidão de Platini, a inteligência de Cruyff, a habilidade de Rensenbrink, a elegância de Tostão, a invenção de Riquelme. Mas a vida o fez escritor – fazer o quê? Ao menos, ele leva essas qualidades para o ofício de escrever.

O ideal de Villoro é Sócrates. E não apenas pela identificação física – ambos de barba e com mais de 1,90 de altura. No seu mais conhecido livro sobre futebol, “Dios es Redondo” (um título maravilhoso, aliás), há muito “da elegância em campo, da forma de transmitir sabedoria e segurança”, atributos que o escritor mexicano aponta no estilo do nosso “Doutor”.

Em recente coluna no jornal “Reforma”, Juan Villoro afirma que o futebol está cada vez mais parecido com um videogame. A propósito, comenta a decisão da Fifa de adotar, na Copa da Rússia, no ano que vem, a figura do árbitro de vídeo (ou vídeo-arbitragem, como preferir). O recurso tecnológico terá por objetivo dirimir as dúvidas e será usado em casos de expulsão, pênalti e gol (se a bola entrou ou não, afinal de contas). Inúmeros são os defensores da medida, principalmente entre os comentaristas de televisão, que em muitos jogos nem vão ao estádio, comentam da “geladeira”.

Não há como negar o caráter louvável da nova regra. Mas de boas intenções… (você sabe como termina o ditado). É bom lembrar que, no primeiro e mais importante teste até agora realizado, já deu polêmica. Num jogo do Mundial de Clubes, em dezembro, foi marcado um pênalti que não foi pênalti. Para complicar, o jogador estava impedido.

Villoro observa que a transmissão pela tevê tem modificado a percepção do futebol. As multicâmeras são escravas da bola. Mostram tudo o que acontece nas imediações do lance com a bola rolando, sem registrar o que acontece antes dele, e que só pode ser visto no estádio. É aí que entra a tal “interferência externa”, que tanta grita tem gerado. Recentemente o repórter Eric Faria foi acusado de repassar a informação que resultou na anulação de um pênalti na partida entre Santos e Flamengo pela Copa do Brasil. Devido ao mesmo lance do mesmo jogo, o árbitro foi bastante criticado por um erro que não cometeu.

A “interferência externa” se dá quando o juiz toma uma decisão baseada em informações de fora, de alguém que não pertença ao quadro de arbitragem, um cartola, um repórter, um gandula, um maqueiro, um torcedor com acesso ao campo. Mesmo o replay do lance no telão do estádio hoje está proibido. Tudo isso mudará com a chegada do árbitro de vídeo.

É aguardar para descobrir o resultado prático da mudança. Tal como existe hoje o futebol é a forma de entretenimento mais popular do planeta. Precisava de melhorias? Corre-se o risco de a tecnologia aumentar a confusão, e o jogo ficar ainda mais feio, truncado, sem a alegria espontânea. Como se irá comemorar um gol, sabendo que tudo estará em suspenso, à espera da palavra final do juiz das imagens?

Futebol nem sempre é justiça: valerá a pena prescindir das dúvidas e dos erros? Sei que esta é uma pergunta metida a filosófica em que cabem as mais variadas interpretações. Abro a discussão com os leitores.