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Fazendo a "de fora"

A Seleção Brasileira que ainda é do povo

A Seleção Brasileira que ainda é do povo

Neste fim de semana, em que tivemos as seleções femininas e masculinas de futebol jogando, vivi uma experiência interessante que creio ser um indicador de como as coisas andam em relação à representatividade para o torcedor desta “entidade” chamada Seleção Brasileira.

Pois bem, assisti os dois jogos no mesmo lugar, um bar em Ipanema. Um no sábado (Copa América) e um no domingo (Copa do Mundo Feminina).

No sábado: bar não lotado, as 5 televisões passando o jogo do Brasil, jogando pela primeira vez na competição um futebol digno, sobre um adversário que, embora não seja lá essas coisas (Peru), é um adversário histórico na América do Sul. 5 x 0, nenhuma comemoração efusiva, ninguém prestando muita atenção ao jogo e, no final, Brasil classificado em primeiro do grupo, críticas e mais críticas … do Tite ao jogador A, B, C … Z.

No domingo: bar saindo pelo ladrão, 2 televisões somente passando o jogo das meninas, as 3 outras passando Catar X Argentina pela Copa América masculina. Com 5 minutos de jogo passaram a ser as 5 depois de exigência da multidão (e para ódio profundo dos argentinos no local), uma verdadeira arquibancada, todos assistindo (menos os argentinos que pediram a conta) e vibrando a cada lance, vindo verdadeiramente abaixo na hora do gol. No final, Brasil eliminado, palmas para as meninas e todos com a sensação de terem sido muito bem representados.

Claro, isso é apenas um bar, um lugar, um determinado fim de semana e isto não é o ideal de amostragem para que sejam tiradas conclusões científicas sobre absolutamente nada, mas alguém duvida que tenha sido mais ou menos isso em todos os lugares? Pelo menos na imensa maioria?

Tenho criticado a forma de se fazer seleção brasileira (masculina) há décadas. O desgaste permanente do modelo e a falta de identificação com o torcedor brasileiro é gritante.

Todos sabemos que o torcedor é apaixonado mesmo pelo seu clube e não pela camisa amarela (ou azul ou branca). O patriotismo funciona, faz torcer, mas não cria a identificação. O que cria a identificação é a idolatria pelo jogador, de preferência aliada ao fato de ele ter identificação com o clube que ele joga. Antes do torcedor se identificar com uma representação do Brasil, é necessário que o jogador e o treinador se identifiquem com ela e com o futebol brasileiro. Olhem esta convocação do Tite, maior usuário brasileiro de aplicativos geradores de lero-lero futebolístico. Quantos dão verdadeiramente a impressão de estarem lá por opção, em vez de obrigação contratual de manter-se em alta exposição? O que tem a ver com o futebol que fizemos escola aqui e nos consagrou?

Aí você me diria: “Mas Antônio, os que estão aqui no futebol brasileiro hoje também, no fundo, querem apenas estar lá, como parte do crescimento profissional e social, para viverem os mesmos privilégios. Provavelmente, ao conseguirem, muitos passarão a ter o mesmo comportamento e descompromisso.”

É verdade, mas isto também é resultado do modelo e da forma como se faz seleção brasileira há décadas. Explico: facilita absurdamente a vida do jogador, por sua exposição externa, a sua convocação (não precisa nem jogar). Só de entrar numa lista de convocados você já potencializa seu valor de mercado e a quantidade de agremiações interessadas em pagá-lo. Aliás, o relacionamento próximo demais entre empresários e treinadores de seleção é mais velho que urinar sentado … grande parte dos jogadores que estão fora hoje só tiveram mercado lá depois de uma convocação, seja de base ou de profissional … hoje é menos, pela globalização, mas antigamente isto era praticamente condição fundamental.

Se você garantir que os jogadores da seleção brasileira precisam seguir jogando no Brasil, pelo menos uma grande parte, você mitiga muito este risco e potencializa mais ainda o valor de mercado destes caras para uma saída para o mercado exterior, mesmo que seja pra ele abrir mão da seleção. Vamos lá, o futebol brasileiro paga MARAVILHOSAMENTE BEM em relação à estrutura de país e de custos que vivemos. Paga tão bem que os clubes estão sempre sem conseguir pagar, aliás … mas tudo bem, eles sabem que recebem sempre com juros na justiça  Sair pra quê? Se quer sair e viver fora uma realidade que não é nossa, sabendo que poderá estar fora de seleção brasileira, que saia! Justo! E afinal, se não é tão importante jogar pela seleção, não tem que jogar. Não é pecado. Seleção Brasileira não é convocação militar pra guerra. Apesar do desastre do Dunga como treinador (e convocador), esta era uma (única) coisa que ele defendia que eu concordava 100%.

Mas o mais importante, muito mais, é que ajuda enormemente a retomar a identificação do torcedor com a seleção, como era antes. E a tendência seria a de voltarmos todos a nos mobilizar para torcer sempre. Como ontem pelas meninas.

Falei tanto da masculina, sem falar da feminina … sim, nem todas as meninas estão aqui, a maior parte está jogando fora, mas alguém tem alguma dúvida de que deixam o sangue em campo e têm orgulho da camisa? Apesar de não ter conseguido jogar nada ontem, tem crédito pra isso e muito mais, viram a entrevista com a Marta? Esta emoção, seja alegria,  tristeza ou até raiva, você vê no Thiago Silva (de quem sou profundo admirador do futebol) quando empata com a Venezuela … ? Venezuela, gente … o esporte do povo lá é o baseball.

Pois é … o ponto é o seguinte: as meninas ainda representam o que nós identificávamos na seleção brasileira no passado. Simples assim. E tive uma alegria muito grande de, depois de tantos anos, ter conseguido verdadeiramente torcer para uma seleção brasileira de futebol de novo. Espero que sigam evoluindo sem que deixem de provocar isso no torcedor.

Pela camisa amarela delas ainda torço. Pela destes caras aí e tudo que ela tem representado e não concordo, sigo não conseguindo.

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Antônio Ramos avatar
Ex-jogador, auxiliar técnico e instrutor de futebol, escrevendo sobre o tema há mais de 20 anos. Torcedor do Fluminense Football Club.

1 Comment

  1. Matheus Reis avatar

    Ótimo texto, Antônio! Quero saber qual é esse bar de Ipanema, ein?!

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