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Fazendo a "de fora"

Chapecoense e a vida que seguirá.

Chapecoense e a vida que seguirá.

A cada dia que vai passando, vamos ficando mais sensíveis às tragédias.

Acho que existe um componente imortal em todos nós que vai se dissipando com o tempo. A medida que vamos vivendo e amadurecendo vamos desafiando cada vez menos os riscos e os temendo cada vez mais.
Quantos de nós já se pegou pensando: – Meu Deus, como eu tive coragem de fazer certas coisas, como eu relativizava os perigos e quantos riscos eu corri que hoje jamais correria novamente.

Pois é. O risco assusta e, quando ele se materializa, gera dores devastadoras. Mesmo estando do lado de fora do impacto direto, parece que vamos tendo mais compreensão da dimensão dessas dores, a ponto de sentirmos também.

Este acidente esdrúxulo, sem sentido, totalmente evitável, que matou um monte de profissionais sérios, muitos jovens ainda começando a vida, cumprindo honradamente seus compromissos de trabalho, causa um misto de sentimentos terríveis.

Da mesma forma que gostaria muito que estes sentimentos se dissipassem ou se transformassem em mim, que sofro numa intensidade muito menor do que familiares e pessoas mais próximas, gostaria que nestes também fosse possível que pudessem conviver com mais conforto em relação a tudo tão logo quanto seja possível. Que a vida possa realmente seguir para nós que ficamos, mesmo que não mais da mesma forma. Pais, esposos, filhos, parentes, amigos, torcedores, todos os que sofrem agora, velando os seus entes queridos,  precisam acumular forças para seguirem felizes como estes gostariam que seguissem.

Da mesma forma que a maior prova de respeito e admiração pelo adversário, no esporte, é preparar-se para superá-lo da forma mais contundente possível, na vida, a maior prova de amor por quem partiu tem que ser vencer e ser feliz mesmo que eles agora não possam mais ajudar, pelo menos em carne e osso. Simplesmente porque é assim eles queriam que fosse e porque assim deve ser.

E a vida tem que seguir. Duro, mas real e inevitável. Assim como tem seguido em tantas outras ocasiões similares, tão dramáticas quanto. Esta não é a primeira, gostaríamos que fosse a última, mas provavelmente não será, infelizmente. Que pelo menos os mesmos erros inacreditáveis não sejam repetidos e que haja mais instrumentos para impedí-los.

As luzes das tragédias servem para questionar conceitos. Assim sempre foi e sempre será. E assim como em outras ocasiões, no tocante ao aspecto futebolístico, que é a nossa praia aqui, num momento ainda de comoção, várias iniciativas foram sugeridas por várias pessoas e clubes de forma individual para tentar amenizar a situação da Chapecoense, com suas funções esportivas e sociais. Todas muito bonitas, demonstrando extrema solidariedade e caráter:

– Atlético Nacional abrindo mão do título da Sul Americana e da vaga que esta dá para a Libertadores em favor da Chapecoense;
– Clubes de todo mundo pensando em ajudar cedendo jogadores para que a Chapecoense possa se reestruturar num período menor;
– Diversas manifestações de exposição e homenagens, tornando a Chapecoense um clube com exposição mundial, o que certamente vai ajudar bastante desde já para a retomada de seu projeto.

Todas as iniciativas privadas individuais são bem-vindas e devem ser discutidas e decididas livremente entre as partes envolvidas, mas é preciso tomar muito cuidado com iniciativas e discussões que podem gerar mudanças que correspondam a uma exceção que impacte a estrutura do futebol como esporte competitivo.

O time do Torino, multicampeão italiano e europeu, era também a base da seleção da Itália, campeã mundial de 1934 e 1938. Esta delegação, assim como agora, também foi vítima de um acidente aéreo terrível que matou praticamente todo o seu elenco e causou danos irreparáveis no futebol do clube e no italiano, que levou décadas para se recuperar completamente, sem que nenhum campeonato fosse mudado ou não terminado.

Outros clubes passam por dificuldades, nem sempre oriundas de suas vontades ou de incompetência, perdem jogadores, sofrem efeitos de crises financeiras, leis que reduzem os seus direitos e nada podem fazer senão conviver com esta realidade e superá-las, sem que as estruturas mudem por causa disso. Principalmente as estruturas que garantem a competitividade e a lisura do desporto.

Entendo até que poderia angariar bem menos antipatias se não expusesse isso agora, deixasse um pouco mais pra frente, quando o tempo já teria feito o seu trabalho de amenizar as dores, mas como falei, na minha primeira coluna, aqui pode haver um monte de coisas boas e ruins, exceto covardia e omissão. Politicamente correto não é o meu sobrenome.

Sou TOTALMENTE CONTRA não haver qualquer jogo da última rodada do Campeonato Brasileiro e até mesmo a partida final da Sul Americana e sou RADICALMENTE CONTRA garantir à Chapecoense qualquer coisa que não tenha sido por ela conquistada desportivamente.

Entendo perfeitamente que a Chapecoense não tem condições de jogar nem a final da Sul Americana e nem a última rodada do Brasileiro. Óbvio que não, mas as estruturas desportivas não podem ser fragilizadas e alteradas desta forma, por mais dramático e lamentável tenha sido o que aconteceu. Não é justo, é exceção, e no que diz respeito à competitividade, estas têm que ser evitadas a todo custo.

No nobilíssimo gesto do Atlético Nacional, é fácil. Que não vá a campo na data marcada para a partida, perdendo por WO ou que mande um ofício à Conmebol se eximindo da disputa o que creio não será questionado por nenhum dos outros participantes da competição.

No que diz respeito ao campeonato brasileiro, que todos os clubes que decidirem não entrar em campo estejam sujeitos aos resultados de sua ação e às respectivas penalidades previstas. Todos eles têm objetivos esportivos e financeiros para cumprir e a vida tem que seguir para todos no ano que vem. Ainda há disputa de vaga para Libertadores, Copa do Brasil, Sul Americana e rebaixamento que depende destes jogos. A premiação da CBF é diferenciada dependendo do posicionamento final na tabela.

Cancelar esta última rodada seria outro tiro na credibilidade do futebol brasileiro, porque por mais que pareça apenas um gesto de solidariedade à Chapecoense, pode haver clubes se escondendo atrás disso para provocar uma situação futura que os favoreça.

O Internacional RS, por exemplo, já tentou forjar uma situação para tirar pontos de alguém para tentar se livrar da situação lamentável que se encontra. No dia seguinte ao trágico acidente disse que seria prejudicado com o adiamento da rodada (adiamento que era absolutamente inquestionável, não havia qualquer clima e não abalaria estruturalmente a desportividade). Um profundo papelão. Tanto a diretoria quanto os seus jogadores têm que deixar de ser covardes e encarar de frente o que está acontecendo, terminando a competição com um resto de dignidade, seja caindo ou não. Entrar em campo contra o Fluminense é o mínimo que se espera neste sentido.

Quanto a garantir à Chapecoense não ser rebaixada pelos próximos 3 anos (ou 2 ou 1), não faz qualquer sentido lógico e seria prejudicial institucionalmente até mesmo para a própria Chapecoense.

A Chapecoense sofre um abalo terrível com o acontecido, mas é preciso esclarecer que o que está acontecendo com a Chapecoense desportivamente não é por acaso. Trata-se de um projeto que envolve grandes empresas da região investindo no clube em troca de um canal saudável de exposição, que tende a ser ainda mais rentável.

Evidente que precisa de toda a ajuda possível neste momento terrível para cumprir seus compromissos mais imediatos, mas não é nem um pouco saudável desportivamente e nem justo com todas as agremiações do futebol brasileiro que haja lugares e vagas garantidas. Como eu disse, prejudica a grandeza do seu próprio projeto e dos resultados obtidos.

A Chapecoense vai se recuperar seguindo seu próprio projeto e sem precisar de favores desportivos. Sabe o caminho e vai repetir, tenho certeza. Terá seu espaço garantido entre os grandes clubes brasileiros fazendo investimentos corretos em estrutura, em elenco e colhendo seus próprios resultados.

O momento é terrível, mas vai passar. #FORCACHAPE !

Abraços

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Antônio Ramos avatar
Ex-jogador, auxiliar técnico e instrutor de futebol, escrevendo sobre o tema há mais de 20 anos. Torcedor do Fluminense Football Club.

13 Comments

  1. Frank Cavaliere avatar

    Muito boa colocação. Também vejo um pouco demasiada a necessidade de “premiar” o clube com isenção de queda, títulos antecipados e mais. Até pelo fato de não sabermos se os dirigentes são tão ilesos assim na escolha de uma Aerolinha que cobrou o exato mesmo preço do que uma empresa com aviões maiores e de renome.

    Na minha opnião, as homenagens e incentivos teriam que ter o foco humano, nas famílias e não institucional na agremiação.

    • Antônio Ramos avatar

      Frank, nem entrei neste aspecto da provável corresponsabilidade da diretoria da Chapecoense no ocorrido, mas totalmente de acordo. Tem que pensar é nas famílias que perderam seus entes, o que está sendo nitidamente encarado como secundário.

  2. Abigail Cavazos avatar

    Obvio que estamos todos chocados com o que aconteceu, principalmente se tratando de pessoas famosas e (querendo ou nao) abrindo portas para aproveitadores de plantão.

    Chapecoense está um clube desmantelado, as hoje oferece muita exposição. O que pensar de uma familia desmantelada por alguma tragédia? Um pai de familia que morra inesperadamente, deixando a familia sem dinheiro? Ofereceriam a eles cargos de executivos em empresas, isenção de impostos por 3 anos ou funcionarios cedidos por outras empresas para ajudar na tarefa domestica?

    Força Chape!!!! Você vai se reerguer como qualquer brasileiro se reergue. Na força de vontade! Jamais abaixe a cabeça e lute até o fim, pois todos nós fazemos o mesmo todos os dias.

  3. Paulo Ramos avatar

    Eu não sei se teria estômago para jogar nesse fim de temporada…. Mas talvez por associar futebol a hobbie e não a trabalho. Não sei…

    • Antônio Ramos avatar

      Tenha certeza que pra quem vive e se sustenta de futebol a visão é diferente, Mas Paulo, não quero diminuir aqui o sofrimento de ninguém, muito pelo contrário, só não podemos usá-lo como motivo para mexer no que está certo. Que se adie um pouco mais, se for necessário, mas jogos oficiais não podem ser cancelados e vantagens desportivas precisam ser conquistadas desportivamente.

  4. Lourenço Cunha avatar

    Acho que ainda fico com o lado emotivo, cancelaria tudo. Mas sei que isso pode gerar uma João Havelange 2.

    • Antônio Ramos avatar

      Garanto a você que por trãs desta decisão de cancelamento, de clubes e entidades administradoras do desporto, há muito interesse nisso que não tem nada a ver com solidariedade e nem com o sofrimento das pessoas, que é muito mais importante do que o resultado esportivo do clube A ou B. Infelizmente, os bastidores do futebol tem porões bem sujos.

  5. Diogo Dias avatar

    Antônio, você está certo… infelizmente vida que segue. Vamos nos focar em evitar coisas deste tipo para o futuro e não ficar tentando remediar a situação.

    • Antônio Ramos avatar

      Não só tentar remediar com algo errado, Diogo, mas se aproveitar masoquisticamente desta situação para tirar vantagens agora ou no futuro.

  6. Haroldo Silis avatar

    Concordo e foi brilhante suas colocações. Quanto a ajuda dos demais clubes eu fico com a opinião do jornalista da ESPN, o Mauro Cezar Pereira que concluiu exatamente o que penso: a Chapecoense não deveria aceitar jogadores de outros clubes. Só terá a perder: pagamento de salários para jogadores refugos de outros clubes, irá expôr numa eventual Libertadores e depois ver jogadores partirem sem dar o devido retorno a agremiação. Todo um interesse financeiro travestido de bondade. Abre o olho Chapecoense, quem montou uma boa equipe tem Know how pra montar outra.

  7. Paulo Alves avatar

    Assino embaixo!

  8. André Fernandes avatar

    Gostei muito da abordagem ao assunto. Por mais que seja um tema extremamente emocional, alguém precisa olhar pelo lado racional.

    Temos que tomar cuidado para que ajudas e vantagens imediatas não se tornem um peso ou problemas num futuro próximo (como salientou o Haroldo).

    Eu confesso que não consigo pensar em um plano de reestruturação agora, sem conhecer de perto a realidade do clube. De qualquer jeito, esse é o tipo de ajuda que pode fazer a diferença para o clube.

    E concordo com todo mundo que falou, é muito importante olhar para as famílias de todos os envolvidos.

    Parabéns pelo texto!

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