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Fazendo a "de fora"

Conheça Bananapona!

Conheça Bananapona!

Poucos ouviram falar em Bananapona, um lugar tropical na idade média. Na verdade, poucos acreditam que ela tenha realmente um dia existido.

Existe uma fábula sobre esta terra que pode parecer muito atual, mesmo partindo do imaginário de quem a conheceu ou simplesmente a inventou.

– Não entendi, uma fábula? Uma terra de animais que falam e se comportam como gente?

Não, acho que me expressei mal. Melhor dizer que é uma anti-fábula, onde homens falam como gente, mas se comportam como animais.

Pra entender melhor, vamos a ela:

Bananapona, como toda sociedade normal, tinha um esporte pátrio, que foi batizado, no seu idioma, herdado de seus descobridores, uma mistura de dialeto mouro com anglo-saxão, como “enxaq”.


O enxaq era uma espécie de futebol americano sem bola, em que os times usavam a cabeça (fisicamente falando) para derrotar os seus adversários. Era jogado num campo retangular de cerca de 100m x 80m, com uma linha de meio dividindo os campos para dois times de valentes jogadores, onze para cada lado.

A meta era jogar qualquer um dos jogadores adversários, inteiro, através de cabeçadas, para trás de uma parte da linha de fundo: cerca de 7,5m centralizados nos 80m, algo parecido com um gol. Quem conseguisse fazer isto primeiro ganharia a partida, que tinha um limite de tempo de cerca de 5 horas, medidos a partir do posicionamento do sol, porque ninguém ia conseguir ficar rodando ampulheta durante este tempo sem se enrolar todo. Findado o tempo, se nenhum dos dois conseguisse atingir o objetivo, a partida era considerada empatada.

Multidóes iam assistir aos jogos e era enorme a paixão pelos times, que eram representantes uniformizados das associações esportivas existentes. O uniforme servia para facilitar a identificação de quem deveria ser cabeceado e de quem poderia te cabecear. Pela característica meio bárbara do esporte, as vestimentas só conseguiam identificar os times durante um pouco do tempo da partida, pois logo ficavam meio cor de carne e em trapos …

O esporte era tão lucrativo e socialmente adorado, que várias associações foram se criando, a ponto de ser necessário criar uma associação específica com o objetivo de regular e arbitrar o esporte: a FBE – Federação Bananaponense de Enxaq.

Pensando na questão da arbitragem, parece meio estranho que este jogo, por suas características tão simples, necessitasse de uma, mas naturalmente começaram a contecer situações que precisavam de novas regras e avaliação externa. Cito algumas:

1 – Verificar se o jogador foi ou não cabeceado inteiro para atrás da linha de meta.

2 – O jogador usou as mãos ou outra parte do corpo e não a cabeça para empurrar (ou nocautear) o adversário. Penalidade: eliminação do jogador da partida.

3 – O jogador que ficasse caído (nocauteado) por um tempo limite era eliminado da partida. Este ponto era extremamente curioso. Dada a ausência de relógios e dificuldade de visibilidade geral no caso do uso de ampulhetas, no momento que o jogador caia nocauteado, um auxiliar da arbitragem começava a correr em volta do campo. O tempo limite para ele se levantar era o tempo do auxiliar corredor terminar de completar a volta. Assim sendo, a velocidade da corrida dependendia muito da torcida particular do auxiliar. Algumas vezes, como se não bastasse a questão da velocidade, o corredor simulava contusão e não a completava, precisando que um segundo auxiliar reiniciasse a corrida e assim por diante.

4 – Havendo 3 jogadores de um mesmo time eliminados da partida, isto equivaleria a um “gol” e o adversário era considerado vencedor.  Não deve ser surpreendente para ninguém que 90% das partidas terminavam desta forma, dada a brutalidade característica do “esporte”  …

Uma nota curiosa é que, nas peladas ou “cabeçadas” de rua de Bananapona, os habitantes sempre conseguiam se entender, mesmo náo havendo uniformes, árbitros, auxiliares ou reguladores, algo que poucos conseguiam entender.  Na verdade, estes jogos de rua eram uma verdadeira ilha de honestidade dentro daquela terra. Todos chegavam a um acordo e saiam felizes de volta pra casa, independente do resultado.

Os jogadores profissionais, assim como todos os profissionais e reguladores envolvidos com o enxaq, ganhavam muito dinheiro (bois, vacas, cavalos, jacas e iguarias) e tinham vidas nababescas, cheias de regalias, privilégios, além da idolatria popular. Entretanto, os jogadores tinham pouco tempo para usufruir disso, posto que, em poucos anos, morriam ou, na melhor das hipóteses (sei lá), ficavam totalmente dementes.

Muitos crentes na lenda bananaponense atribuem a este esporte a dificuldade cultural e moral existente naquela terra e até mesmo a baixa expectativa média de vida existente. A maior parte da população praticava o insalubre e violento esporte regularmente. Era um esporte do povo. A coisa era meio assim: ou jogava enxaq ou ia pra guerra. Muitos achavam a guerra bem menos arriscada.

Entretanto, os reguladores do enxaq e os donos das associações esportivas, assim como todos do poder e reguladores do direito constituído de Bananapona, não praticavam o esporte, embora mandassem e desmandassem nele. Apenas se locupletavam das regalias proporcionadas por ele durante toda as suas (mais longas) vidas, permanecendo sempre muito próximos ao poder.

A verdade é que reinava absoluta em Bananapona a cultura de que era melhor viver dez anos a mil do que mil anos a dez e de que o importante é sempre garantir o seu e “foda-se o mundo, que não me chamo Raimundo”. Era uma terra quase sem lei e as poucas que existiam não eram muito levadas a sério.  Na pratica, o segundo mais praticado esporte nacional era a rasteira (principalmente sem usar os pés).

Num destes anos da curta existência de Bananapona, já que a terra foi dizimada com mais ou menos dois séculos de vida, depois de uma queda de barragem causada por um dilúvio medieval, jogava-se o campeonato bananaponense de enxaq e o CRB – Crowd de Regatas Bananengo, time mais querido da terra, enfrentava o Bananaponense Enxaq Crowd (BEC), primeira associação criada exclusivamente para a “prática” do enxaq.

O Bananengo nasceu como clube de regatas, muito praticadas nas lagoas, baías e praias da terra balneária, e se vangloriava muito de ter a maior torcida e de ser o maior campeão do enxaq bananaponense. Historiadores costumam falar em contagem em dobro de títulos e usurpação dos títulos de outras associações, na careta de pau, mas como o Bananengo era o querido também dos pergaminhos diários jornalísticos, não se encontram volumes significantes de documentos históricos falando a respeito … sumiu!

O Bananaponense é um time que, no passado, era o preferido da elite da terra tropical, intimamente relacionado com a aristocracia local. Entretanto, vivia em crise por conta de incompetências gerenciais e corrupção interna.  Ainda assim, era considerado um rival tradicional por todos e tinha uma torcida apaixonada. Outras  péssimas línguas diziam que era um exímio “virador de mesas” e que tinha muita força junto às tropas judiciais locais, fazendo reverter resultados jurídicos sempre que lhe convinha.

Mas enfim, numa partida sanguinária, com o sol já na posição que indicaria o fim, cai o terceiro jogador do Bananengo e este não consegue se levantar antes do fim da volta ao campo do 1o auxiliar, completada, segundo consta, em tempo recorde local. Depois descobriu-se que este era fervoroso torcedor do BEC . O empate classificaria o glorioso Bananengo. Cumprida a regra (o que era raríssimo), o gol é marcado e o Bananaponense sai como vencedor e se classifica.

Claro que houve  alguma confusão gerada por alguns acharem que o sol já tinha se posicionado e o jogo já tinha acabado. Evidente que houve acusações de doping do auxiliar corredor, mas tudo seguiu em frente. Para estas reclamações de perdedor, havia um termo linguístico chulo específico que o definia: era o “cryayay”.

O BEC faria a final contra o CRC – Crowd de Regatas Codfish (que na linguagem bananaponense significava “peixe salgado e fedido”), um clube com enorme torcida que tinha no seu grupo dirigente, e na sua própria torcida , descendentes estrangeiros oriundos de um país além mar chamado Ulissipona, de origem moura.

Dizem que a descoberta  de Bananpona era uma tentativa de Ulissipona chegar a uma área do mundo em que hoje se encontra a Groenlândia, pois os estudos de seus eminentes cientistas indicavam essa ser uma terra de temperaturas quentes tropicais, com muito samba e carnaval o ano todo, mas perderam as bússolas na viagem, num solavanco com uma baleia e em seguida tiveram o leme danificado  por uma garrafa, com uma mensagem de algum pobre coitado perdido em alguma ilha. Mensagem que foi, por sinal, devidamente ignorada, claro. Ele que se dane por lá, já estavam com problemas demais.  Assim sendo,  acabaram, depois de 40 noites e 40 dias, “descobrindo” Bananapona, cujo nome, inclusive, teria tido origem nas primeiras palavras do navegante ulissiponense ao ancorar sua embarcação, o Comandante Joaquim Codfish, que como se percebe, também deu o nome à associação esportiva:

– Que porra de Groenlândia é essa, oh pá? Esta merda dos caralhos só tem banana! Foda-se! Usam esta merda gigante até como penduricalhos na cintura.

Às gargalhadas, um dos tripulantes tentou avisar o seu “chefe”:

– Comandante, se me permite, aquilo não é uma banana …

E acabou no trampolim pelo insulto. Afinal, foi um escárnio público! Só esqueceram que a embarcação estava ancorada a 150m da praia, de mar calmíssimo, e que qualquer criança conseguiria nadar para a areia depois de pular … assim foi.

Uma curiosidade interessante é que historiadores ulissiponenses e bananaponenses garantem haver documentos explicando que o “Codfish” do comandante Joaquim não seria seu sobrenome, que na verdade seria  Ferreira, mas sim um apelido “carinhoso” dado pela sua tripulação e do qual ele muito se orgulhava … os motivos são desconhecidos. Tanto do apelido quanto do orgulho …

Os estrangeiros e descendentes de Ulissipona eram o grande motor da burguesia local, sendo responsáveis pelo comércio e fabricação de manufaturados (a indústria de produção em série ainda era um embrião nesta época).

No comércio, eram exímios mercadores de bebidas, como fermentados de bagaço de uva ou de malte de cevada. Sim, muitos usavam milho dizendo que era cevada, mas sabem como é … Além disso, vendiam às toneladas uma iguaria feita de batata com peixe salgado e fedido, o codfish, frita em banha de porco e regada com óleo de azeitona. Apesar da combinação aparentemente estranha, o bolinho era considerado extremamente saboroso.

Tinham também especialidade em pãezinhos, que insistiam em chamar de “franceses”, sabe-se lá o porquê, posto que a receita foi descoberta em Ulissipona. Talvez pela lembrança do difusor desta. Explico:

Numa construção ulissiponense, um dos obreiros ficou sem o cimento branco, material caríssimo na oportunidade. Alguns mal intencionados da época atribuiram isso ao fato de ele ter desviado o material para outra empreitada sua … mas enfim, descobriu no material de outro colega obreiro vários sacos de cimento branco, que logo pensou em se apoderar, porque, convenhamos, não estava fácil pra ninguém e o cara era um larápio de primeira:

– Vou pegar esta merda e trocar por sacos de farinha. Ninguém vai perceber. Foda-se!

Assim o fez e seguiu sua obra.

Ao chegar na obra, o obreiro logrado foi começar o seu turno fazendo a sua massinha com água, como todos os dias. Pegou o saco e, evidentemente, como bom ulissiponense, muito “distraído”, não percebeu que nele vinha escrito, em letras garrafais, “FARINHA” e que os sacos de cimento eram pretos, embora aquele fosse branco.

Pôs-se a misturar a massa e nada de encorpar …

– Que merda de massa é essa, caralhos? O que há com esta água, oh pá?

Ao perguntar ao colega ladrãozinho ao lado, no intúito de saber se ele estava tendo o mesmo problema com a “água”, obviamente este já estava prevenido e com a resposta na ponta da língua:

– Oh António, estava cá com o mesmo problema. Tás vendo, que merda? E era mesmo esta água. Coloquei uma pitadinha de sal, misturei e botei no forno e olha como ficou cá a minha. Uma beleza … olha esta parede?

E foi se mandando, rapidinho, terminando o seu expediente. Vai que dá merda?

–  Fica bem, pá! Adeusinho!

Antônio largou as obras e ficou durante 3 anos tentando fazer aquele pão de novo, sempre usando cimento branco, até que desistiu, quando  finalmente chegou à conclusão que tinha algo errado e não era com a água … Ficou tão decepcionado e desiludido, que resolveu ser jogador de enxaq, pois na guerra havia chance de sobreviver …

Mas um outro obreiro ulissiponense viu toda a sacanagem na espreita, anotou e produziu os pãezinhos, ficando rico em 6 meses … Foi correndo morar em Paris, porque, na boa, mesmo com dinheiro, Ulissipona era meio devagar, quase parando … Por isso, muitos deveriam acreditar que ele inventou aquele pão por lá.

Well, mesmo não fazendo parte da aristocracia bananaponense, pelo menos não às claras, os ulissiponenses eram extremamente bem relacionados com o poder e os destinos da economia local, além de ter uma colônia gigantesca.

Voltando ao enxaq, o estádio nacional de Bananapona, o “What a Banana” ou “Bananão”,  principal dentre os muitos onde se jogava o esporte, foi arrendado para exploração comercial por um grupo de engenheiros que o reformaram (a boa e velha engenharia), já que o governo corrupto e saqueador nunca tinha recursos para fazer sua manutenção, deixando-o sempre caindo aos pedaços.

Antes da reforma era um terror! Pela falta da mínima manutenção sanitária, as pessoas tinham que mijar pelas paredes ou, pior, fazê-lo em receptáculos feitos com folhas de bananeira, para em seguida jogar nos torcedores do adversário. Normalmente acabavam todos mijados, mas o que valia mesmo era a “diversão”.  Surpreendentemente, depois da reforma, ninguém mais tinha prazer nenhum em frequentá-lo e choravam saudosos do estádio caindo aos pedaços de outrora. Nada mais bananaponense que este comportamento tradicionalista …

Houve um acordo entre os engenheiros arrendadores e o BEC. Ele foi escrito e lavrado num daqueles rolos de pele amarelados e todos carcomidos,  escritos em belissima caligrafia (demoravam meses pra escrever aquilo tudo) e que, desenrolados, tinham no mínimo 10m de extensão.

O acordo previa que a torcida do Bananaponense, que historicamente ficava do lado onde havia um galpão de armazenamento de codfish, que surpreendentemente pertencia a um mercador ulissiponense e exalava um odor sui generis, passasse a ficar permanentemente do outro lado, onde havia uma fábrica de sabão feito de sebo e flores silvestres. Este lugar perfumado, até o arrendamento, era reservado para o Codfish. Como contrapartida deste novo direito, pagariam algum caraminguá a mais, ou seja, alguns escambos, bois, cavalos e jacas (produto raríssimo, caríssimo e adorado em Bananapona) .

O Bananaponense vivia mesmo “naquela base” … ficou a mercê de um bando de idiotas incapazes de gerenciar suas finanças e só fazia bobagem. Deixou de ser o grande campeão do país, trazendo jogadores ruins, feios e caros, que ao cabecear os adversários caiam em seguida nocauteados. As dívidas proliferavam. Nesta situação, claro que não estava conseguindo pagar o acordado com os engenheiros, que até reclamavam. Um deles, chamado “Homerito”, ia sempre ao Bananaponense tentar negociar, com seu sotaque hispânico:

– Ô, Bananaponense … jo quero meu “denhêro”!

Mas, por consideração ao grupo que foi o primeiro que os ajudou a tornar o estádio rentável para seus objetivos, iam aceitando os pedidos de rolamento.

Historiadores maldosos afirmam também que isto era uma estratégia para evitar problemas, por estarem mais sujos que “pau de galinheiro”, sendo denunciados por todos os tipos de corrupção e pressionados pelas autoridades, que também queriam tirar o seu, num tipo de “quem quer rir, tem que fazer rir”. Assim sendo, a última coisa que queriam era gerar alardes que chamassem muita atenção sobre eles.

O estádio do Codfish, orgulho da colônia ulissiponense (e só dela), precisava ser fechado para obras de reforma, principalmente abastecimento de água, que era precário, e desratização. Más línguas, torcedores de outras associações, diziam à boca miúda que o problema não era engenharia, mas sim falta de vergonha na cara dos mandatários, que não honravam os seus tributos e contas e não pagavam a água e nem a companhia de aluguel de gatos, a “Rent a Cat” .

Coisa de gente ruim e fofoqueira, que já existia e muito naquela época …

Porém, lá atrás, quando os engenheiros, novos posseiros do Bananão, os procuraram, tentando acordar a utilização do mesmo, foram recebidos a catapultadas de bosta de boi e aos gritos:

–  Mercenários !! Nós cá temos o nosso próprio estádio, o “Holy Rat”, e não precisamos desta merda!

Ilustrando o que descrevi acima, todo este ódio se dava pelo fato de o Codfish, em pleito popular (um grupo de 15 torcedores de enxaq), ter ganho o direito de escolher o lado do Bananão em que sua torcida ficaria na época da sua inauguração. Lógico que escolheram rapidinho se livrar do fedor nauseabundo que havia num dos lados.

Mas bateram pé e acharam que nunca precisariam mais de lá, achando que o Holy Rat teria sempre água, mesmo não pagando. Ou seja, cagaram (termo adequado para uma recepção com tiros de merda) solenemente no Bananão.  O resultado disso foi o Bananaponense  tomar a frente e fechar  primeiro com o grupo, definindo as suas regras.

Daí, algumas partidas entre os dois se realizaram no Bananão, sempre com discussão e polêmica por causa do direito, que não seria mais direito, e do novo acordo, que era um acordo de fato. E a nova realidade foi se assentando, apesar do ressentimento.

Mas aí veio a final …

Sabedores da situação de seu estádio, os mandatários do Codfish já tinham metido o rabo entre as pernas e voltado atrás em relação ao Bananão. E já costuravam com os engenheiros um acordo entre eles.

Como expliquei acima, o Bananaponense também era um péssimo pagador.  Aliás, todo mundo naquele buraco do mundo era.  E já havia um certo mal estar entre a associação e o pessoal do Bananão.

Na calada de uma noite enluarada, numa sala escondida nos fundos de uma padaria, iluminada com velas da marca São Thomé, outro produto de Bananapona que tinha o monopólio de fabricação dos patrícios ulissiponenses, e regada a fermentado de bagaço de uva e pataniscas de codfish, reuniram-se os novos mandatários do Bananão, o dirigente e eterno mandatário Iam Rich, do Codfish, e o presidente da FBE, amigo de infância e eterno subalterno do mandatário do clube marinho, que o chamava carinhosamente de “Pedrinho”.

– Pá, o Bananaponense não te paga e ainda exige que preserves o lado cheiroso pra eles. Nós seguimos cá no fedido e queremos fazer negócio contigo, mas com este caralho de condição fica complicado … é uma humilhação …

– Temos um acordo com eles …

– Mas eles te pagam ? Que caralho de acordo é este que só tu que cumpres?! Foda-se!

– Não é bem assim, Iam … já estamos mais expostos que umbigo de nativo e temos as tropas querendo mais motivos pra nos pegar … acho muito perigoso fazermos isso.

– Ahhh pá … também vivemos assim, todos vivem … mas vou propor algo que fica bem pra ti: tu anuncias e começas a venda de ingressos pra minha torcida no lado que pensam ser deles, como se tivesse sido decisão da federação, que vai dar o mando de campo pra nós. Tu apoias, Pedrinho?

– O que você mandar, como sempre. Também não gosto daqueles caras … conte comigo.

E assim foi executado, logo pela manhã, com anúncio em todos os pergaminhos diários.

O Bananaponense ficou extremamente aborrecido e foi correndo às tropas judiciais para denunciar a quebra do acordo com os engenheiros do Bananão e requerer seus direitos.

– Não pagamos pra nossa torcida ficar sentindo cheiro de peixe morto por 5hs  … isso tem que ser revertido.

– Mas vcs pagam?

– Não … não pagamos a eles e nem a ninguém , mas eles, pelo menos, não reclamaram nada até agora disso … por acaso vieram aqui reclamar?

– Não, não vieram. Neste ponto é indiscutível. Assim sendo, se o acordo está ativo, que seja cumprido.

E aí, meus caros, Bananapona foi muito Bananapona … virou um caos, passou de um juiz da tropa para outro, o Codfish cagou pra decisão, outro juiz veio e mandou fazer de portões fechados, o Bananaponense declarou guerra, depois mandou a torcida não ir, o Codfish mandou a torcida ir, a torcida foi e as tropas policiais sentaram a mamona neles, com gosto, ao redor do Bananão. E  mesmo com um juiz mandando não abrir, veio outro e mandou abrir na marra:

– Que abram os portões, caralhos! Que merda é essa? Estão descendo o porrete nos torcedores do Codfish na rua!

– Mas o Codfish mandou os torcedores irem pra lá, mesmo sabendo que tinha decisão pra não abrir os portões. Os do Bananaponense foram orientados a não ir …

– Fodam-se os que não foram, problema deles. Caguei se estes estão ou não apanhando. Os do Codfish é que não podem apanhar … isto é uma calamidade!

– O senhor tem um sotaque carregado, meritíssimo, o senhor é ulissiponense?

– Que merda é essa?  Eu sou japonês, oh pá! Meu nome é Manuel dos Santos Pereira Hiroshi! Teje preso!

Bem, com os portões abertos e a torcida do Codfish (e somente ela) do lado do sabonete, o jogo rolou … e depois de mais ou menos meia hora de jogo, um jogador do Bananaponense veio correndo pra trás, tropeçou numa casca de banana jogada pela torcida e caiu inteirinho dentro da sua própria meta … fim de jogo!

CODFISH CAMPEÃO!

– Mas ninguém cabeceou o cara, porra!  Peraí!

– Ele foi cabeceado agorinha mesmo, há uns 10min, oh pá! Estás cego? Caiu pq ainda estava tonto, não viste?

– Não …

– Então perdeste, meu amigo, ainda não inventaram o VT e muito menos o VAR. Foda-se! Não me venhas de cryayay!

No final, chegaram a corretíssima conclusão que o Bananaponense é que era o problema e deveria ser expulso do campeonato.  Só não foi, claro, porque o Codfish não ganhava nada com isso e intercedeu …

– Oh pá! Deixa eles … só queriamos sentir um cheirinho mais gostoso …

E viva Bananapona! Terra adorada, enquanto durou!

Obs.:  Esta é uma obra de ficção, quaisquer semelhanças com fatos e pessoas fisicas ou jurídicas reais é mera coincidência.

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Antônio Ramos avatar
Ex-jogador, auxiliar técnico e instrutor de futebol, escrevendo sobre o tema há mais de 20 anos. Torcedor do Fluminense Football Club.
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